Demografia não é destino, mas importa

Para refletir com maior profundidade a respeito do cenário futuro mundial é melhor ler The Wall Street Journal (republicado em Valor, 12/08/10) do que a matéria da Folha de S. Paulo, citada no post anterior (Brasil será quinta maior economia do mundo em 2032). The Wall Street Journal mostra que “demografia não é destino, mas demografia importa”.

No ano de 1300, a China era maior que a Europa e tinha a tecnologia mais sofisticada do mundo. Em 1850, sua população era 65% maior que a da Europa, mas, graças à Revolução Industrial, os europeus tinham se tornado bem mais ricos.

Nos próximos 40 anos, o Japão e a Europa assistirão à redução de, respectivamente, 30 milhões e 37 milhões na PEA (População Economicamente Ativa), de acordo com previsões da ONU. As taxas de natalidade estão baixas e muitos japoneses e europeus já são idosos.

A PEA da China continuará a crescer por mais uns 15 anos e então deve cair, resultado de sua política de permitir um único filho e a tendência de queda das taxas de natalidade quando a renda cresce. Em 2050, prevê a ONU, a China terá 100 milhões de trabalhadores a menos que hoje em dia. A população da Índia, por outro lado, vai ganhar 300 milhões de trabalhadores nos próximos 40 anos.

Os Estados Unidos estão no meio termo. Eles desfrutam de taxa de natalidade maior e de população mais jovem que as da Europa e do Japão, além de mais imigração. A previsão é que o país ganhe 35 milhões de trabalhadores até 2050.

As divergências na demografia têm conseqüências nacionais. Atualmente, um em cada cinco japoneses e europeus tem mais de 65 anos. Em 2050, será um em cada três. O crescimento rápido da produtividade, ou seja, a quantidade de coisas que podem ser produzidas por hora de trabalho, pode facilitar às PEAs sustentar os idosos, mas as tendências de produtividade não são muito promissoras. Os japoneses e os europeus certamente terão de trabalhar mais, tirar menos férias e provavelmente pagar mais impostos.

O envelhecimento também ameaça a capacidade do governo japonês de se endividar tanto. Calcula-se que ao menos metade do dívida do governo japonês é financiada hoje, direta ou indiretamente, pelas famílias japonesas. Diferentemente dos Estados Unidos, o Japão não precisa tomar tanto dinheiro emprestado do exterior. Mas a tendência será os investidores japoneses resgatar seus títulos quando se aposentarem, para usar o dinheiro em consumo. Haverá jovens trabalhadores o bastante para investir e compensar essa ausência?

Para a China, o desafio é criar estruturas sociais e sistemas de aposentadoria que sustentem o número crescente de idosos, que, diferentemente das gerações anteriores, não poderão depender tanto dos filhos para a sobrevivência. Hoje, 1,4% dos chineses têm mais de 80 anos; em 2050, o percentual subirá para 7,2%, estima a ONU.

A Índia tem mais tempo para se ajustar, pois sua PEA deve seguir crescendo. Seu desafio é aproveitar o número crescente de trabalhadores na faixa de 30 e 40 anos e incentivar a expansão da indústria e dos serviços. Se a Índia reformar sua lei trabalhista arcaica, levar mais mulheres ao mercado de trabalho e investir em treinamento e educação, só a evolução demográfica pode acrescentar quatro pontos percentuais por ano ao crescimento econômico, calculam economistas do Goldman Sachs. Mas isso ainda é apenas uma possibilidade.

E os EUA? Apesar de todo o pessimismo atual, o país pode estar em boa posição. População crescente, abertura para imigrantes ambiciosos e para o comércio (se isso não for afetado por políticas xenófobas) e crescimento vigoroso da produtividade (se sustentado) podem elevar o padrão de vida e propiciar mais crescimento, o que reduziria o enorme déficit orçamentário muito mais rapidamente que na Europa e no Japão, onde o crescimento é lento.

E daí?

Nas próximas décadas, por causa da internet e de outras mudanças que encolheram o mundo, será quase impossível para determinado país manter para si certa tecnologia. Durante muito tempo, países relativamente pequenos, como o Reino Unido e a França, foram influentes por causa da habilidade tecnológica. Essa era foi superada pela generalização desse conhecimento. O poder está ligado à dimensão da PEA e do mercado interno. Por isso, se prevê influência crescente da China e da Índia. E por que não do Brasil? A janela de oportunidade histórica, aberta pelo bônus demográfico, poderá ser também aproveitada pelo País.

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