Os Profetas Perdidos: Uma História Confidencial dos Economistas Modernos

Alfred L. Malabre Jr. é editor econômico do The Wall Street Journal. Entre outros livros, publicou Os Profetas Perdidos (São Paulo, Makron Books, 1995), cujo capítulo 5 – Ascensão e Queda dos Monetaristas escreveu como testemunha ocular dessa “história confidencial dos economistas modernos”. Vale a pena relê-lo nesses tempos em que o PIG – Partido da Imprensa Golpista está muito ativo na política brasileira. Ele alerta para os malefícios do jornalismo econômico que apresenta apenas determinada corrente de pensamento econômico.

De início, o autor faz mea culpa, justificando-se com base em sua inexperiência como repórter econômico para tal assunto. Diz: “erroneamente, apresentei o monetarismo aos leitores do The Wall Street Journal através de lentes cor-de-rosa, e conforme havia sido virtualmente ditado para mim por Milton Friedman”.

Por exemplo, sua omissão da velocidade da circulação da moeda, ou seja, a taxa conforme o dinheiro gira, provou ser erro crucial na descrição monetarista da ligação existente entre a oferta da moeda e o desempenho da economia. Quando se controla, rigidamente, a oferta da moeda, de maneira inversamente proporcional, a taxa de juros e a velocidade de circulação da moeda disparam. Incentivam também as inovações financeiras. Tal omissão foi apenas um exemplo da tática de Friedman e seus discípulos no sentido de simplificar excessivamente suas idéias monetaristas, particularmente durante seus contatos com a imprensa.

Friedman e seus asseclas estavam convencidos de que a disseminação mais ampla de seus pontos de vista e o enfoque mais concentrado da imprensa sobre a questão da oferta de moeda poderiam posicionar a doutrina monetarista, de modo que esta desempenhasse papel mais importante na condução da economia em Washington. A tática foi extraordinariamente bem-sucedida.

Ao longo dos anos de ascensão do monetarismo, período aproximadamente entre o final dos anos 60 e o início dos anos 80, Milton Friedman era visto pela maioria das pessoas como mais um economista conservador. Simplesmente, ele recomendava que fossem exercidos controles rigorosos sobre o crescimento da oferta de moeda, limitando-a à taxa aproximadamente equivalente à taxa de expansão da economia, isto é, do PIB nominal. Se isso fosse feito, afirmava Friedman, as forças positivas do livre mercado convergiriam para assegurar prosperidade duradoura.

O ponto de vista monetarista – deve ser observado – prestava muito pouca atenção a preocupações como a situação do orçamento federal, níveis de gastos governamentais, tendências fiscais e política industrial orientada pelo governo. Todos esses assuntos estavam quase no topo da lista de prioridades da maioria dos economistas keynesianos “fiscalistas”. Não se tratava simplesmente do fato de que “a moeda importa”, mas sim de “a moeda ser o fator mais importante”.

Talvez o mais original da narrativa de Malabre seja a sessão “Divulgando a Mensagem”, onde mostra como se arquitetou a campanha de marketing e obteve sucesso o lançamento publicitário do produto “monetarismo”. O marco inicial foi iniciativa de economista-chefe de banco, ex-aluno de Friedman, colaborando com a promoção de seminário glamouroso por firma de consultoria de investimentos com sede na área de Wall Street.

Ele descreve, detalhadamente, a realização desse evento, em hotel luxuoso na cidade de Phoenix, com a duração de três dias, que teve início em 21 de novembro de 1969, para o qual foram convidadas aproximadamente 200 pessoas influentes de diversas áreas, incluindo governo, universidades, empresas privadas norte-americanas e internacionais, e, mais importante, a imprensa. Os oradores, um após o outro, exaltaram as virtudes do monetarismo.

Depois do encontro realizado no Arizona Baltimore, houve acentuado aumento da atenção dada ao monetarismo pela imprensa. “Enquanto eu estava alardeando o monetarismo nas páginas de notícias do The Wall Street Journal, Lindley Clark Jr., na época editor associado do jornal, tecia elogios ao monetarismo na página de editoriais” (Malabre, 1995: 151).

A abordagem monetarista para a elaboração da política econômica vinha recebendo espaços crescentes também em outras importantes publicações. Em parte, isso foi resultado da utilização cada vez mais difundida de articulistas-economistas pelas empresas jornalísticas.

Enquanto isso, o monetarismo vinha ganhando posições em Universidades onde a economia keynesiana havia prevalecido durante muito tempo. À medida que os estudantes de Friedman iam saindo da Universidade de Chicago, levavam com eles suas convicções monetaristas. Muito dos discípulos encontravam-se assumindo posições de professores em outras Universidades.

Outro baluarte monetarista estava com o professor Karl Brunner, bem-sucedido levantador de fundos para patrocinar conferências mundiais sobre Economia Monetária em cidades de seu país natal – a Suiça. A influência de Karl Brunner era tão grande na Inglaterra que, logo depois que se tornou primeira-ministra, Margareth Thatcher o procurou, seguindo recomendação feita por Alan Walters, seu assistente para assuntos econômicos. Grande parte da política econômica posta em prática por Thatcher durante seus primeiros anos em seu posto, particularmente seus esforços no sentido de controlar com maior rigor a oferta de moeda na Inglaterra, resultou de recomendações recebidas de Karl Brunner.

À medida que o monetarismo ia ganhando cadeiras nos meios universitários, o mesmo ocorria com sua crescente influência nos círculos responsáveis pela execução da política econômica praticada nos Estados Unidos. Grupo de jovens economistas trabalhava duro para promover a doutrina monetarista dentro da grande e poderosa rede de bancos regionais do Federal Reserve, bem como junto à sua diretoria sediada em Washington. O monetarismo em nível de execução da política econômica norte-americana compelia o Federal Reserve a estabelecer e tornar públicas faixas de metas para os principais agregados monetários: M1, M2, M3 e M4. O presidente do Federal Reserve tinha de apresentar explicações no Congresso dos Estados Unidos caso as metas não fossem atingidas.

Além das incursões feitas em Washington e no meio universitário, o monetarismo vinha ganhando adeptos em muitas empresas do setor privado, particularmente no First National City Bank, da cidade de Nova Iorque. O banco promovia a causa monetarista em sua revista econômica, cujo editor chefe era também o economista chefe do banco.

“A oferta de moeda começou a perder sua importância como indicador econômico e monetário há muitos anos, e a histórica estabilidade existente ente a oferta de moeda e a economia praticamente desapareceu nos anos 80”, escreveu pragmático financista, sócio do Goldman Sachs, no outono de 1991. O que teria acontecido “há alguns anos” para motivar tal afirmação condenatória sobre o monetarismo? A resposta dada por Malabre (1995: 163) é que “o monetarismo foi finalmente colocado em prática por responsáveis pela política econômica em Washington, e o resultado, infelizmente, denegriu seriamente, se é que não demoliu, a validade das teorias de seus proponentes”.

Na verdade, o único economista cuja reputação pode ter sido valorizada pela rápida passagem do monetarismo no mundo real foi o então jovem inglês chamado Charles Goodhart, que exercia a função de principal consultor econômico do Banco da Inglaterra. Mesmo antes do advento do monetarismo na política econômica em Washington, ele criou aquilo que veio a ser conhecido como Lei de Goodhart: “Qualquer definição da oferta de moeda que o Federal Reserve escolha para meta a ser atingida e controlada, como instrumento de política para direcionamento da economia, deverá tornar-se inevitavelmente sem sentido”.

Essencialmente, isso foi o que aconteceu em 1979, ano em que o Federal Reserve, sob a enérgica direção de Paul Volcker, optou pela modificação dos procedimentos operacionais do Banco Central, passando da abordagem keynesiana para a abordagem monetarista. A mudança ocorreu em grande parte devido à implacável campanha dos monetaristas.

Os administradores da moeda pretendiam executar a política monetária sem levar em consideração as taxas de juros, mantendo o enfoque sobre o nível da oferta de moeda. Durante anos, a política dos administradores monetários havia sido a de controlar a taxa de juros dos títulos de dívida pública que os bancos cobram uns dos outros para lastrear empréstimos de curtíssimo prazo. Os “economistas modernos” retomaram essa velha prática sob o pomposo título de “regime de meta de inflação”. Em outras palavras, quanto a taxa de inflação ameaça subir, eles elevam a taxa de juros básica, e vice-versa, mecanicamente.

Descrever isso como “monetarismo pragmático” seria descrição que qualquer verdadeiro friedmanita, indubitavelmente, consideraria desprovida de qualquer sentido. Os monetaristas convictos daqueles anos ainda inocentes permitiam pouco espaço para graus de monetarismo; abordagem “pragmática” do monetarismo sugeria a execução de ajustes finos, o que a seus olhos realmente não constituía monetarismo de espécie alguma.

Na verdade, Milton Friedman e os monetaristas radicais, que vinham há muito tempo fazendo cruzada intelectual contra o Federal Reserve, teriam gostado de acabar com sua independência no manejo da taxa de juros. Quando o Federal Reserve finalmente adotou o procedimento monetarista, os resultados não foram de forma alguma aqueles que Friedman e seus seguidores haviam anunciado.

Finalmente, ao redor de meados de 1982, Volcker e seus colegas responsáveis pela política econômica, cada vez mais preocupados, resolveram dar um basta. A cautela monetarista foi então abandonada em favor de taxa muito mais acentuada de crescimento da oferta de moeda.

Qual teria sido o erro? A Lei de Charles Goodhart continha boa parte da resposta. O agregado M1, cujo controle o Federal Reserve havia escolhido como meta básica a ser perseguida, havia se transformado em barômetro econômico praticamente desprovido de significado. O Federal Reserve não conseguia controlar a expansão da moeda e menos ainda o crescimento da economia. A oferta de moeda, quaisquer que sejam seus conceitos, é coisa que não pode ser minuciosamente controlada!

O mandato de Paul Volcker como presidente do Federal Reserve terminou, após sua dolorosa aventura com o monetarismo, que inclusive provocou a “crise da dívida externa” dos países do Terceiro Mundo, entre as quais a brasileira, com sua substituição por Alan Greenspan, no verão de 1987. Aquele mesmo, que assumiu em ano de crash na Bolsa de Valores e reinou absoluto durante duas outras bolhas de ativos e crashes: a das “empresas ponto.com” e a imobiliária. Depois, declarou-se surpreendido com a malvadezas do mercado livre. Disse: – “Jamais imaginei que chegariam a esse ponto, atuando contra seus próprios interesses”…

No Brasil, a frase análoga de um dos autores da privataria tucana, defendida pelo PIG, foi: – “Estamos no limite da irresponsabilidade. Se  der m… “

3 thoughts on “Os Profetas Perdidos: Uma História Confidencial dos Economistas Modernos

  1. Parabéns Professor Fernando pelo belíssimo texto. Não sou economista mas sempre desde pequeno me interessei por alguns pontos da política e economia, como forma de compreender o contexto vivido por nosso país, embora o considere de difícil compreensão dada a complexidade e profundidade da realidade brasileira. Mas me lembro de um episódio ocorrido se não me engano na década de 1970 ainda no regime militar, que foi o da maxi-desvalorização da moeda que ocasionou a perda do poder de compra dos trabalhadores e uma condição muito difícil de sobrevivência nas classes mais baixas da pirâmide social. Então gostaria de perguntá-lo: Este episódio tem a ver com a crise das dívidas externas do terceiro mundo? Qual foi afinal a finalidade desta maxi-desvalorização? Seus efeitos foram sentidos por quanto tempo na sociedade brasileira?

    1. Prezado Marcos,
      sob o argumento de dar competitividade às exportações brasileiras, houve duas maxidesvalorizações cambiais, em dezembro de 1979 e fevereiro de 1983, foram responsáveis para mudar os patamares do regime de alta inflação, respectivamente, de 70% para 110% e daí para 220% em 12 meses. Perdurou até 1994.

      Houve brutal concentração de riqueza financeira com base no dinheiro de rico (com correção monetária) e dinheiro de pobre (sem acesso a bancos e correção monetária).
      att.

      1. Muito obrigado Professor Fernando pela atenção e pela resposta bastante esclarecedora.

        Marcos Castro.

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