Força eleitoral das religiões foi supervalorizada?

Maria Inês Nassif (Valor, 29/10/2010) mostra que, segundo artigo do cientista social Ricardo Mariano, da PUC do Rio Grande do Sul, “Pentecostais e política no Brasil“, em 2005, o país abrigava 30 milhões de evangélicos, dois terços (2/3) deles pentecostais. O pentecostalismo já era o segundo grupo religioso do país.

Essa parcela pentecostal representada no Congresso tem agenda moral e elege seus inimigos: “Os parlamentares que defendem o Estado laico, feministas, homossexuais, grupos de esquerda e materialistas”, diz o cientista social.

Não é eleitorado desprezível, nem sua expansão em setores de baixa renda passou desapercebida pelos partidos. Será que o PT, depois do ataque sofrido em 1989, adotou como prioridade na campanha a conquista dos evangélicos? Na realidade, desde 1989, esses grupos são instrumentalizados politicamente por candidatos de todas as colorações.

O PT enfrentou oposição quase monolítica desse setor religioso até 1998. Em 1989, quando concorreu com Fernando Collor no segundo turno, as denominações pentecostais fecharam em bloco contra Lula. Na época, o temor era alimentado por boatos de “conluio petista-comunista-católico” contra a liberdade do pentecostalismo.

Mariano não vê lógica, todavia, no raciocínio que atribui a derrota de Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno ao movimento nas bases pentecostais. Para ele, a importância dada pelos candidatos aos temas morais proibidos pelas denominações, como o aborto e a união civil entre homossexuais, consideradas “abomináveis” pelo grupo religioso, ultrapassou o poder eleitoral que eles efetivamente podem ter. Uma pesquisa do Datafolha mostra que apenas 1% dos entrevistados assume posição eleitoral por conta da religião. Na realidade, a  crença religiosa não leva à lealdade política automática, sobretudo se o candidato não é evangélico. A Regional Sul 1 da CNBB, por exemplo, foi muito mais militante do voto anti-Dilma, mesmo existindo determinação nacional de não assumir posição em favor de nenhum candidato.

Há exatos cem anos, quando chegou ao Brasil, o pentecostalismo evangélico trazia consigo a aversão à política. Suas denominações mantinham-se afastadas do cenário político inclusive durante a ditadura militar, quando a Igreja Católica progressista e parte do protestantismo tradicional se envolviam em movimentos pela redemocratização. A partir de 1986, no entanto, o neopentecostalismo expandiu sua influência para além dos espaços religiosos e chegou à arena política. A Constituinte era o centro das preocupações: temia-se ofensiva católica para reduzir a liberdade religiosa das denominações pentecostais. A justificativa central era que “irmão tinha que votar em irmão”.

O fato é que, hoje, é impossível pensar a democracia sem se levar em conta a presença de grupos religiosos, inclusive os católicos, considerando-se também pentecostal o movimento carismático. Tanto isso é verdade que eles conseguem impor as agendas a candidatos em todas as campanhas. Não é via de mão única, onde fundamentalistas religiosos impõem-se ao Estado, mas de mão dupla, em que também os políticos procuram rebanhos que se expandem continuamente.

Em entrevista ao Valor (29/10/2010), o cientista político Ronaldo de Almeida, da Unicamp, definiu três grandes fases do movimento pentecostal no Brasil. A primeira foi iniciada pela igreja Congregação Cristã, vinda dos Estados Unidos, em 1910. Em 1911, surge a até hoje maior igreja pentecostal, a Assembleia de Deus. Em 1950, o movimento pentecostal passa por nova fase, que cresce com a vinda de missionários do Evangelho Quadrangular, que se atiram na Cruzada Nacional de Evangelização. A partir daí, surgiram outras denominações, como Brasil com Cristo e Deus é Amor. O terceiro momento é o do neopentecostalismo, iniciado nos anos 70. Dessa fase são a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e a Renascer em Cristo, além de igrejas menores. A característica principal do neopentecostalismo é a ênfase no diabo e na teologia da prosperidade. Essas igrejas banalizaram o milagre e definiram como inimigas as religiões afro-brasileiras.

Almeida considera como principal característica do neopentecostalismo a grande “capacidade plástica de se adaptar ao mundo, embora o negando”. Faz também o uso da extrema beligerância, que dá principalmente à Universal do Reino de Deus grande capacidade de competir no mercado religioso.

No entanto, tanto Almeida como Mariano consideram que os candidatos a presidente acabaram valorizando demais a força política desses atores, ao embarcarem na agenda moral das igrejas evangélicas pentecostais e católicas. Isso porque, embora conservadoras, as denominações competem entre si, pois não existe unidade entre elas. Para Almeida, essa capacidade de adaptação dos pentecostais às circunstâncias, a “plasticidade”, também poderia antever certo espaço de acomodação desses setores dentro da campanha do PT, com quem essas igrejas têm fechado desde 2002.

Talvez, “em vez de embarcar logo na aceitação do veto ao aborto, Dilma teria que negociar mais com as lideranças evangélicas”. Mas o tempo da campanha, no segundo turno, era muito diminuto. Terminada ela, há agora tempo suficiente para avaliar todos os seus problemas, inclusive estruturando estratégia educacional e política, em longo prazo, para enfrentar esses inimigos dos que defendem o Estado laico, das feministas, dos homossexuais, dos grupos de esquerda e dos materialistas.

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