Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos

Francisco Félix de Souza, ou Chachá, alcunha que mais tarde se transformou em título, foi o baiano, filho de português com índia, que emigrou para a África, onde construiu fortuna com a venda de escravos para o Brasil. Segundo o cálculo de especialistas, a fortuna que fez com o tráfico chegou a US$120 milhões em valores de meados do século XIX. Na África, casou-se com algumas dezenas de mulheres que geraram quase uma centena de filhos, somente entre os legítimos. Apesar da imensa fortuna, Chachá viu seu império ruir diante da concorrência e da pressão internacional pelo fim do tráfico negreiro. Para alguns, teria morrido falido. Para outros, teve seus bens apropriados, indebitamente, após sua morte. Mais do que contar a história de um homem que hoje é tratado como mito na África, Alberto da Costa e Silva (Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos. Rio de Janeiro, EDUERJ-Editora Nova Fronteira, 2004, 207 páginas) traça retrato detalhado e fascinante do que era a África na primeira metade do século XIX.

Em “Francisco Félix de Souza, mercador de escravos“, Alberto da Costa e Silva dá vida à história de um dos mais importantes traficantes de escravos do século XIX, brasileiro que, tendo chegado à África sem um tostão, em pouco tempo tornou-se poderoso chefe africano e um dos maiores mercadores de escravos. Mestre de comércio fundado na violência e na crueldade, era, contudo, tido, até mesmo por seus adversários, como homem generoso e desprendido, padrinho, líder e protetor dos ex-escravos retornados do Brasil e que se instalaram na costa africana. Mais que história de homem que virou mito, Alberto da Costa e Silva traça retrato fascinante da África do século XIX.

BiografiaFrancisco Félix de Souza

O brasileiro Francisco Félix de Souza, o Chachá, foi o maior mercador de escravos e um dos homens mais ricos de seu tempo, isto é, na primeira metade do Século XIX. Apesar de sua profissão, ele foi admirado (e temido) por europeus e até mesmo por africanos. Leia também “O Poderoso Chefão”, artigo escrito por Ana Paula Lima: O Poderoso Chefão na África

Família De Souza (Benin)Família De Souza

Chachá de Ajudá (1754?-1849)

Comerciante de escravos africanos. Francisco Félix de Souza, alcunhado Chachá de Ajudá, nasceu em Salvador, Bahia, provavelmente em 1754, filho de pai branco e mãe indio/mestiça. Foi para a África, não se sabe se por desterro, fuga ou voluntariamente. Morou em Badagry e em Popô Pequeno (ou Anexô), casando-se com Jijibu, filha de Comalangã, rei de Gliji. Em 1800 estabeleceu-se na Costa dos Escravos, no Golfo de Benin. Foi feito guarda-livros do forte de São João Batista de Ajudá, pertencente aos portugueses, no reino do Daomé (atualmente território da República do Benin).

Iniciou sua fortuna comercializando cativos de guerra. A escravização nas nações negras africanas ocorria, inicialmente, contra prisioneiros de guerra. Outras opções dos vencedores eram a execução e a mutilação. Considerando os custos de alimentar-se prisioneiro inativo dentro da realidade tecnológica da época, as opções de mantê-los cumprindo pena ou de simplesmente soltá-los (com a possibilidade de rearmarem-se e voltarem ao combate) não eram consideradas.

Posteriormente, porém, foi havendo certa inversão: os prisioneiros escravos, em vez de serem produtos secundários de conflitos, passaram a ser o objetivo de vários deles. Essa caça era promovida pelos comerciantes brancos “negreiros” com a cumplicidade de tiranos negros locais.

A clientela de Chachá era formada principalmente por comerciantes brasileiros e europeus. Sua atividade de intermediação entre estes e a população local era facilitada por sua capacidade excepcional em aprender idiomas. O comércio de escravos não se dava tanto pela troca por dinheiro; grande parte das transações ocorriam em trocas por mercadorias. Chachá desenvolveu, assim, conjuntamente com o comércio de escravos africanos, sistema de créditos, firmada na sua fama de honesto: “comerciante de carne humana: sim; mentiroso: não”…

Consta que certa vez foi se queixar pessoalmente ao rei do Daomé, Adandozan Francisco, um de seus fornecedores de escravos, por este ter faltado ao pagamento que lhe devia. Irado com a forma grosseira como considerou o modo de Chachá dirigir-se a ele, mandou prendê-lo e mergulhá-lo de tempos em tempos em barril com índigo a fim de que escurecesse a pele e perdesse a “petulância de branco”. Na prisão, entre um “bronzeamento” e outro, Chachá criou grande amizade com o príncipe daomeano Gapê, que ajudou em sua fuga.

Desde então, Chachá passou a fornecer mercadorias e armas de fogo a Gapê, levando à deposição de Adandozan. Gapê passou a reinar com o nome de Guezo, dando a Chachá título de nobreza, riquezas e o tornando seu único agente comercial, o que praticamente o deu a Chachá o monopólio sobre o comércio de escravos local.

Residia principalmente em Singbomey, futuro local do Bairro Brasil, com suas várias mulheres e mais de sessenta filhos, talvez, mais de cem. Sua principal preocupação era a repressão britânica ao tráfico, desde 1816. Faleceu em 8 de maio de 1849, aos 94 anos.

Leia: A Carreira de Francisco Félix de Souza na África Ocidental (1800-1849)

Leia mais:

FREYRE, Gilberto. “Acontece que são baianos…”. In: Problemas brasileiros de antropologia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962. Documentos brasileiros.

LAW, Robin. “A carreira de Francisco Félix de Souza na África Ocidental (1800-1849)”. In: Topoi, n. 2. Rio de Janeiro, 2001.

PRADO, J. F. de Almeida. “A Bahia e as suas relações com o Daomé”. In: O Brasil e o colonialismo europeu. São Paulo: Cia. Editora Nacional (Brasiliana), 1956.

SILVA, Alberto da Costa e. “O senhor dos desgraçados”. In: Nossa História, ano 1, n. 7. Biblioteca Nacional (ed.). São Paulo: Vera Cruz, 2004.

VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo de Benim e a Bahia de Todos os Santos, dos séculos XVII a XIX. Salvador / Rio de Janeiro: Corrupio / Fundação Biblioteca Nacional, 2002.

Outros títulos de Alberto da Costa e Silva:

A enxada e a lança (edição revista e ampliada) (História) – autor

A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700 (História) – autor

Ao lado de Vera (Poesia) – autor

Das mãos do oleiro (História) – autor

Espelho do príncipe (Romance) – autor

Invenção do desenho: ficções da memória (Memórias) – autor

Poemas reunidos (Poesia) – autor

Um passeio pela África (Juvenil) – autor

Um rio chamado Atlântico (História) – autor

Assista ao filme:

Atlântico Negro – Na rota dos Orixás. (Brasil, 1998). Documentário. Direção: Renato Barbieri.

11 thoughts on “Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos

  1. Este post deixa o Poesia e Prosapopeia com vontade de pedir uma colaboração. Mas, seria muita ousadia.

    Em tempo e sobre a Lira Paulistana, só posso dizer que morri de saudades. Bons tempos!
    Abraço.

    • Prezada Graça,
      absolutamente, não seria ousadia. Porém, seu blog é muito lindo e não sei se conseguiria manter o nível…
      Que tipo de colaboração deseja: prosa? Para poesia não tenho talento, mas conheço quem tem e poderia colaborar.
      Abraço.

      • Prezado Professor,

        Qual o quê?

        Meu blog, que não tem nenhuma pretensão, apenas boas intensões (mas, dizem, o inferno está cheio delas), ficará honrado com qualquer que seja sua participação.
        As Prosas sobre música e literatura (e começou com a Economia), que vêm me instruindo e me deliciam nos últimos dias, serão bem vindos.
        Como o sr. viu, no Poesia e Prosapopeia tem lugar para tudo junto ao mesmo tempo e agora.
        Quanto à colaboração poética será recebida com todas as rimas. Puxe o fio desse novelo.
        Um abraço.

      • Prezada Graça,
        enviarei então para seu e-mail uma prosa – expressão natural da linguagem escrita ou falada, sem metrificação intencional e não sujeita a ritmos regulares, por oposição a verso e a poesia, coisa da linguagem cotidiana, sem poesia -, uma conversa informal (fictícia) que bati hoje com intelectual francês a respeito da Solidão da Rede.
        Você quer exclusividade ou posso a postar aqui também?
        Abraço.

  2. Prezado Professor,

    Imagine se meu blog vai ficar feliz! Ele próprio é a expressão da Solidão na Rede.
    Só não garanto saber fazer uma apresentação e colocar uma ilustração/imagem com o peso do conteúdo. Se quiser, prepare o presente completo.
    Sobre a exclusividade, partilhemos o belo.

    Um abraço.

  3. Vários autores dão Chachá como filho de pai português e mãe escrava – e não índia. Parece que agora querem mudar isso, pra esconder que o maior traficante de escravos africanos era mulato.

    • Monsieur ces sources dont vous parlez sont secondaires. Les contemporains de Souza n’ont jamais évoqué cela. D’ailleurs il n’y a qu’un seul d’entre eux qui parlent de métissage, à savoir le capitaine Canot. Et il y a deux versions de ses écrits à savoir l’une où on parle de métis et l’autre de mulâtre. Mais même lui n’évoque pas des origines serviles et ne parle pas d’une mère esclave. Cette mention de mère esclave est intervenue bien après de la main d’auteurs et historiens africains qui se lancent dans une vendetta personnelle visant à faire passer tous les négriers pour des descendants d’esclaves. Ceci est vrai pour certains d’entre eux pas pour tous et certainement pas, au regard des archives disponibles, de Francisco Félix de Souza. D’autant plus que certaines d’elles certes rares, d’un certain Pierruci parle de sa mère comme étant une métisse portugaise (non Noire, son fils Isidoro rappelle cela à l’occasion des obsèques de son père en refusant les coutumes païennes et bien avant cela quand il y a l’incident de la présentation de la canne de représentation à Abomey, au niveau de la préséance avec les Britanniques, dont Forbes et Beecroft je crois) avec des origines amérindiennes issue de la famille Gomez. Cette mère lui aurait donné une bague ou anneau de valeur sur lequel un serpent sculpté serait vénéré par les autochtones africains sous le nom de Dagoun (déformation de Dagao, en portugais dragon). Ce serpent pourrait se référer à une croyance indienne du Dieu Aztèque indien Quetzalcoatl, Serpent-Dragon (http://www.dinosoria.com/quetzalcoatl.html). Des sources orales et écrites présentent l’ancêtre comme noble (déjà par la famille et à l’origine et personnellement en Afrique mais aussi au Portugal par sa décoration comme chevalier de l’ordre du christ. Distinction donnée aux nobles) et non d’origine roturière. On le sait par ailleurs par rapport aux études qu’il a eu à effectuer, notamment dans les arts militaires, administratifs, de construction mais surtout juridiques (droit civil) comme notaire et greffier du fort sao Joao Baptista de Ajuda. Enfin comme la plupart des Brésiliens, Portugais d’origine, il serait métissé. Les femmes européennes ne supportant pas le climat équatorial à l’occasion des premières migrations. C’était aux alentours de 1500, par la suite bien avant le 18ème siècle, il n’existait plus d’indien esclave. Enfin d’autres écrits secondaires évoquent une origine marrane ou juive de Souza, ce nom étant référencé comme juif (notamment de New Port aux Etats-Unis. D’après plusieurs juifs sépharades, de Souza viendrait de Ben Soussan, Ben Shoshana, fils de la rose ou du lys, outre la version des vieux chrétiens évoquant sausa, marais salant. Ce serait un nom de juifs de Juda déportés à Babylone probablement de la noblesse dont l’ascendance serait davidique puisque le lys symbolise la royauté assez souvent. Ces juifs portugais auraient migré avec les Romains entre -III siècles avant J.-C. et + 1 siècle après. Ils auraient été christianisés de gré ou de force entre 1396 et 1492 entre l’Espagne et le Portugal. Beaucoup d’entre eux ont migré en Amérique pour échapper à l’inquisition des pays européens ibériques et latins. C’est ainsi que les premiers Souza connus comme administrateurs au Brésil à savoir le général et noble Tomeu de Souza et Martin Affonso de Souza, comme premier gouverneur fondateur de Bahia et titulaire d’une capitainerie au Brésil, seraient juifs ou marranes. Dans le Nord-Est notamment à Bahia il y a eu plusieurs Portugais portant le nom de Souza qui ont subi l’inquisition car judaïsant. Dans le Nord-Este également beaucoup de Juifs se mariaient avec des indiennes qu’ils judaïsaient. Certains de ses métis et Portugais sont allés dans le Surinam hollandais pour échapper aux Portugais). Enfin Francisco Félix de Souza ne serait pas né en 1754. C’est une erreur que la majorité des spécialistes sur cette histoire commettent. D’après ce qu’il a lui même dit au Britannique (quarteron) Thomas Hutton, on peut déduire de façon exacte qu’il est né en 1768, sachant qu’il est décédé le 8 mai 1849. Le 4 octobre serait un abus du au fait que le Sait Patron de Francisco Félix de Souza est François d’Assise, canonisé le 4 octobre. A la mort de ce dernier, le pape de l’époque avait demandé qu’on construise une basilique en sa mémoire, celle-ci a été achevée en 1754. D’où la confusion commise par beaucoup. Attention sur l’histoire de Francisco Félix de Souza il y a encore de nombreuses ombres. Même son nom complet n’est pas sûr, il se pourrait d’après les archives britanniques que ce nom complet soit Francisco Félix José Telles de SOUZA, sachant que les familles Gomez, de SOUZA, Telles et de Méneses seraient à l’origine issue du même lignage. Ce qui pourrait expliquer que la mère de Souza soit issue de la famille Gomez et qu’un de ses beaux-fils (endogamie séférado portugaise) s’appelle Joaquim Telles de Méneses (de Pernambouco).

  4. Pingback: África via Alberto da Costa e Silva « Fernando Nogueira da Costa

  5. Hello, I am a Taiwanese who lives in Taipei Taiwan and I am very interested in Francisco Félix de Souza. I found out his information on Wikipédia em português. I was very suprised because his portrait is almost make me feel the same like the portrait of Giuseppe Garibaldi.

    • Why Han-Koh? They are so different in many aspects. Garibaldi was a hero for italians and brazilians. He fought with a lot of brave in so many fights, but Chacha was a human dealer.
      Sorry, but you make me feel interesting… how a taiwenese starts like about brazilian culture? Its amazing to know that there are people that like this things and became so far from here.
      Great Hug – Fortes

  6. Bonjour Francisco Félix est le grand-père de mon grand-père. Votre article largement basé sur les écrits de messieurs Alberto Costa e Silva de même que Robin Lauw, entre autres, est très intéressant. Mais il y a d’autres éléments sur la vie de cet homme, avérés ou supposés, qui ne paraissent pas.

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