O Banqueiro dos Pobres

No ano 2000, fiz uma daquelas viagens terríveis, quando há muitas horas de espera no aeroporto de São Paulo. Cheguei a Recife de madrugada. Mal dormi e às 9:00 da manhã de sábado já estava dando palestra para a Federação Nacional dos Gerentes da Caixa. Acabou, mal almocei, e em seguida fui ao aeroporto exausto e sem a menor disposição para enfrentar a nova maratona de retorno. Enquanto aguardava o vôo, passando em frente à vitrine da livraria, deparei-me com livro do qual eu, supostamente especialista no assunto, jamais tinha escutado falar: O Banqueiro dos Pobres: a revolução do microcrédito que ajudou os pobres de dezenas de países (São Paulo, Editora Ática, 2000, 343 páginas). Pensei: “isto é uma contradição em seus próprios termos”!

Curioso, comprei-o e o “devorei” no vôo de volta. Senti algo inédito. Pela primeira vez, um livro de Economia me comoveu até chegar as lágrimas. Enxerguei na experiência narrada sobre Bangladesh uma missão social que não era impossível de se mimetizar no Brasil. Talvez tenha sentido que, com meu conhecimento especializado, era possível fazer algo que, de fato, melhoraria a vida de muitas pessoas pobres. Passei a dar cursos sobre Microcrédito, na Extensão do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, para gerentes da Caixa. Depois, como Vice-Presidente da própria Caixa, no primeiro mandato de Lula, “dei pequena ajuda aos meus amigos”.

O autor, Muhammad Yunus, nasceu em Bangladesh em 1940, é muçulmano não-praticante e estudou Ciências Econômicas em Nova Délhi. Posteriormente, ampliou seus estudos nos Estados Unidos com bolsas das instituições Fullbright e Eisenhower. Voltou a seu país em 1972 para dirigir o Departamento de Economia da Universidade de Chittagong. Foi nessa situação que saltou a seus olhos o abismo existente entre as teorias abstratas que ensinava e a realidade de miséria fora do campus da Universidade.

O bengalês Muhammad Yunus e o Grameen Bank, instituição criada por ele para a concessão de microcréditos a pessoas de baixa renda, foram agraciados com o Prêmio Nobel da Paz 2006. A escolha foi vista como mensagem do Comitê Norueguês do Nobel contra o neoliberalismo econômico e a globalização que não leve em conta as necessidades dos pobres. “A paz duradoura não pode ser obtida sem abrir um caminho para que uma ampla parte da população saia da pobreza”, afirmou em seu veredicto o Comitê.

Yunus fundou seu banco em 1976. Sua ambição, no longo prazo, é contribuir para erradicar a pobreza do mundo por meio de microcréditos que beneficiam especialmente as mulheres. O que há algumas décadas parecia missão impossível e sem sentido do ponto de vista de qualquer banqueiro, a concessão de créditos a pessoas de parcos recursos, tornou-se, como assinalou o Comitê, “um importante instrumento na luta contra a pobreza”.

O Grameen Bank é entidade financeira que só concede créditos aos “mais pobres entre os pobres”, que se tornam seus acionistas. Assim, o conjunto de acionistas já somava, em 2006, 3,8 milhões de pessoas, das quais 98% eram mulheres.

O fato de quase todos os clientes serem mulheres demonstra a relevância do organismo financeiro na luta pela libertação feminina em sociedades muçulmanas em que elas enfrentam dificuldades devido a seu gênero. O Comitê Nobel afirmou que os “microcréditos se tornaram uma importante força de libertação em sociedades nas quais as mulheres precisam lutar contra um entorno social e econômico repressivo”.

As mulheres que tomam os empréstimos são, predominantemente, moradoras de zonas rurais (Grameen Bank significa “Banco das Aldeias”) e costumam ser pessoas sem terras. Eles se diferenciam de todos os outros tipos de créditos porque não requerem avalistas individuais, mas sim grupos de avais solidários,  As solicitantes formam grupos de cinco, e as duas mulheres mais pobres recebem primeiro o crédito. Quando estas começam a pagá-lo, semanalmente, chega a vez de as outras três terem acesso ao dinheiro. Desta forma, é criada espécie de rede de apoio coletivo que, ao mesmo tempo, exerce pressão, o que explica a taxa de adimplência em média maior do que 97%.

“Cada indivíduo na Terra tem o potencial e o direito de viver decentemente. Yunus e o Grameen Bank demonstraram que até os mais pobres entre os pobres podem trabalhar para superar as dificuldades”, disse o Comitê.

Embora o sonho de Yunus de erradicar a pobreza no mundo não possa ser cumprido apenas mediante microcréditos, o economista e o Grameen Bank “demonstraram que para atingir este objetivo, os microcréditos devem desempenhar um papel mais importante”, afirmou o Comitê Nobel. Com isso, fez convite aberto ao mundo financeiro a seguir o exemplo.

Ler mais: Muhammad Yunus, o Banqueiro dos Pobres

Ler ainda: Microcrédito no Brasil

5 thoughts on “O Banqueiro dos Pobres

  1. A dispersão financeira que sempre resulta na má distribuição de renda e consequentes acumulos na miséria, geram estados de maior pobreza e pior ainda, sem encontrarmos o fio da meada nas fórmulas matemáticas de muitos tributos…
    Situações estas que necessitam ser avaliadas por aqueles que entendem do problema sócio-economico na sua íntegra e total capacidade em gerar fórmulas que possam corrigir o estado de pobreza.
    Assuntos que geram debates riquíssimos e idéias é que não faltam.
    Forte abraço,
    Mili

    • Prezada Mili,
      os muitos tributos foram a forma gradual e fragmentada que o Estado brasileiro (latu sensu, Poder Executivo e Legislativo) foi encontrando para remendar problemas ad hoc ou pontuais. Por exemplo, as contribuições para Previdência Social são instrumento-chave para redistribuição de renda. Atualmente, a estrutura tributária brasileira é tão complexa que se tornou, politicamente, face aos conflitos de interesses entre União e Estados e estes entre si, dificílimo de ser reformado.
      Att.

  2. Dar crédito ao povo deve vir acompanhado de ferramentas que ensinem a aplicar corretamente esse crédito. Dar a bolsa família faz aumentar o consumo de bens mas não ensina o valor do trabalho e acaba criando uma horda de desocupados mamando nas tetas do governo e servindo de cabresto político.

    • Prezada Ilce,
      eu detesto este típico comentário conservador, preconceituoso e reacionário, pois reage contra a evolução histórica em termos de melhoria do bem estar social!
      O que ensina valores é a educação de qualidade, tanto familiar, quanto escolar. Quem a recebeu não trata assim seus semelhantes…
      O que muito me impressiona é esta tendência de certas pessoas se colocarem acima das outras em termos morais. Essa atitude é tão antiga quanto a dos fariseus.
      Fariseu é o membro de grupo religioso judaico, surgido no século II a.C., que vivia na estrita observância das escrituras religiosas e da tradição oral. Mesmo assim, o grupo foi acusado de hipócrita pelos Evangelhos, pois seguia de maneira apenas formalista uma religião. Passou-se a designar todo aquele que, por observar fielmente um dogma (ou rito), se acredita dono da verdade e da perfeição, achando-se no direito de julgar e condenar a conduta dos outros a pretexto de “saber mais” do que o resto do mundo.
      Na linguagem popular, refere-se a quem é orgulhoso e hipócrita.
      att.

      • Concordo plenamente com você caro Fernando,somente quem lida com os pobres, sabe como é a situação deles, me diga se alguma PF OU PJ daria emprego a alguém que mora numa favela, mal tem o que vestir e comer, digo isso porque faço parte de uma sociedade sem fins lucrativos, que assiste aos pobres, e eles são discriminados sim, diria que eles nem sequer conhecem os próprios direitos. É muito fácil alguém que não vive em estado de miséria material jogar a primeira pedra. O pobre só precisa ser promovido, ter oportunidade, pois ninguém consegue sobreviver apenas com o recurso do Bolsa Família, este é apenas um complemento na vida dessas pessoas pobres.É necessário que se deixe de olhar para a parcela mais pobre da sociedade como um fardo, eles são capazes de contribuir e muito para o crescimento da economia deste país.

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