Investimento só amanhã…

Angelo Pavini (Valor, 25/01/2011) apresenta pesquisa sobre Finanças Pessoais, realizada pela consultoria GfK CR Brasil para a corretora BanifInvest. Vamos comentar o estudo, feito no fim do ano de 2010, que ouviu cerca de mil pessoas em 12 regiões metropolitanas do Brasil, e de todas as classes sociais, respeitando o perfil da população.

Conforme os dados da pesquisa, apenas 39% dos entrevistados têm o hábito de investir. O número cresce na faixa mais alta de renda, para 47%, e recua nas classes de rendas mais baixas, para 31%. Esse hábito é mais presente entre os homens: 43% afirmam que fazem investimentos. As mulheres ficam com 36%. Apenas 44% disseram que pretendem investir nos próximos 12 meses. A intenção é maior entre os homens, com 51% dos entrevistados, sendo 38% entre as mulheres, e entre os mais ricos, com 49%, face a 40% nas classes CD. Os mais jovens também são os predominantes quanto ao planejamento de investimento: 54% dos entrevistados entre 18 e 24 anos e 52% entre os de 25 a 34 anos.

Alguns analistas superficiais acham que “o baixo número de investidores se deve ao fato de o país atravessar período de grande incentivo ao consumo, com recuperação de renda e farta oferta de crédito. Esse movimento estimula demanda reprimida por anos, primeiro pela hiperinflação e depois pelo baixo crescimento do país. A grande parte dos brasileiros ainda está voltada para realizar seus sonhos de consumo, eletrodomésticos, carros e agora imóveis”, argumentam. O crescimento das operações de crédito dos bancos nos últimos anos, supostamente, endossa essa visão. Porém, não se trata de questão apenas conjuntural; a causa estrutural mais profunda é a disponibilidade pessoal e/ou familiar de sobra de renda e educação financeira. Além de não haver, é claro, oferta de produtos financeiros acessíveis ao público popular.

Daí, outros ainda mais levianos, dizem que “os números confirmam que o brasileiro, apesar da herança europeia na colonização, tem mesmo é a cultura americana de consumo. A maioria dos brasileiros, como os americanos, precisa aparentar mais do que tem, ter mais que o vizinho ou o colega, e acaba em média vivendo 20% acima do que pode”, dizem. Isso explicaria por que as classes A e B, que têm mais recursos, também não pensam em investir.

William Eid Junior, responsável pelo Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas, afirma: “Recebo gente todos os dias, que ganha bem e não consegue guardar simplesmente porque não aprendeu ou não quer”. Ele cita psicólogos, médicos e outros profissionais bem informados, de grande sucesso, que beiram os 60 anos de idade e ganham R$ 30 mil, R$ 40 mil mensais e que não possuem reserva nenhuma. “São raros os que guardam o equivalente a três, quatro anos de salário para uma emergência”, diz. Para Eid, se fosse feita pesquisa mais aprofundada, se descobriria que, dos que dizem guardar, apenas 10% a 20% têm realmente investimento sério, de longo prazo. “No Brasil, o limite de cheque especial já faz parte da renda da maioria das pessoas”.

Ao mesmo tempo, ele acredita que muitos das classes C e D são mais comprometidos em guardar do que as classes mais altas. Não é por menos, lembra ele, que a taxa de poupança no Brasil ainda é baixa, 17% do PIB, para 25% na China”, diz Eid. Sobre as mulheres, ele lembra que o baixo número de investidores se justifica por elas ganharem menos que os homens. “E, nos rincões, a maioria das mulheres ainda não é tão independente quanto se imagina, e quem cuida do dinheiro delas inclusive são os homens”.

O número de investidores que dizem aplicar em bolsa, segundo a pesquisa, é pequeno, 4% no total, e concentrado nas rendas mais altas, onde 7% disseram comprar ações – as classes CD têm apenas 1%. Mas o percentual é bem mais elevado do que o dos que hoje aplicam em ações em relação à população brasileira. Hoje, há apenas 610 mil investidores na bolsa. Os 4% da pesquisa representariam 4,16 milhões do pouco mais de 100 milhões de pessoas da população economicamente ativa do país. Isso pode ser potencial de crescimento para as corretoras, mas diz mais sobre clientes de aplicações em fundos de ações.

A expectativa de crescimento é reforçada pelo perfil das pessoas que aplicam, que mostra grande conservadorismo e falta de sofisticação, ainda segundo analistas petulantes. Isso porque a imensa maioria, ou seja, 76%, aplicam em poupança, número que cresce para 86% nas classes CD. Mas esses elitistas não enxergam que nas AB, o percentual também é alto (68%) e que depósitos de poupança foram competitivos em 2010 por causa da menor taxa de juros SELIC e, consequentemente, menor rendimento dos Fundos de Investimento Financeiro. Os imóveis vêm a seguir, com 13% do total, sendo 17% nas classes AB e 8% nas CD. Os fundos são investimentos típicos para as classes mais altas, com 12% dos entrevistados, e apenas 2% na classe CD.

O conservadorismo se mantém nos planos de investimento. Para os próximos 12 meses, o destaque continua sendo a poupança, com 59% da preferência nas classes mais altas e 68% nas mais baixas. O interesse por imóveis empata entre ricos e pobres, com 25%. Mas a diversificação ocorre mesmo com os mais ricos, com 11% querendo destinar recursos para fundos, 7% para bolsa, 3% para Tesouro Direto e 2% em previdência. Nas classes CD, apenas 4% pretendem aplicar em fundos, enquanto bolsa de valores e Tesouro Direto ficam com 1% cada um.

A vontade de adquirir ações, nos próximos 12 meses, é maior entre os homens: 6% pretendem comprar papéis, para 2% entre as mulheres, cuja preferência por poupança é maior: 69%, para 59% do sexo oposto. Os imóveis são os preferidos por 29% dos homens e 21% das mulheres. Os homens também querem aplicar mais no Tesouro Direto, com 4%.

Para os machistas, o interesse pequeno das mulheres por ações mostra que elas ainda têm dificuldade em entender o mercado. Por isso, deduzem, “é preciso oferecer mais opções de educação e alternativas mais simples”.

A pesquisa revela que não são os mais jovens que apresentam o maior conhecimento para investir em bolsa. Na faixa dos 18 aos 24 anos, apenas 3% disseram que pretendem aplicar em ações nos próximos 12 meses. A grande maioria, 83%, prefere mesmo a poupança. Os grandes interessados em ações são os mais velhos, entre 45 e 55 anos, com 7% das respostas, seguidos dos entre 35 e 44 anos. Isso tem lógica porque, nessa faixa de idade, as pessoas já compraram o que queriam, formaram patrimônio e buscam diversificar. Além disso, são pessoas que aprenderam como funciona o mercado.

Apesar disso, são os jovens os mais abertos para o investimento em bolsa. Perguntados sobre o que vem à cabeça quando ouvem falar em bolsa de valores, 39% dos entre 18 e 24 anos afirmam que se trata de uma opção de investimento. É o maior percentual, perdendo apenas para a faixa entre 45 e 55 anos, com 32%. Apenas 13% dos jovens veem a bolsa como algo para endinheirados, sendo esse percentual 19% nas outras faixas, e 18% pensam que o mercado “é coisa para profissionais”. Entre os mais velhos, esse percentual, de mercado para especialistas, chega a 29%.

A imagem da bolsa vai bem junto à maior parte da população. Segundo a pesquisa, o percentual daqueles que acham que “a bolsa é um cassino” é baixo, 4% do total. Os mais desconfiados são os mais velhos: 7% dos entrevistados com 56 anos ou mais ainda veem a bolsa como jogatina. Isso se deve aos escândalos do passado e mostra que o esforço da bolsa, das corretoras e do governo em regular e divulgar o mercado deu resultado. Um sinal disso é que a descrença na bolsa é menor entre os mais jovens, 2% apenas.

Por região, os cariocas são os maiores fãs da poupança, com 85% das respostas, enquanto os paulistas lideram na bolsa, com 6%, e em fundos, com 15%. A sede da Bolsa de Valores e o centro financeiro do País está em São Paulo.

Os dados mostram que, antes de tudo, é preciso investir na educação financeira, para ampliar o número de investidores. Pessoas, inclusive das classes de rendas mais baixas, que planejam seus gastos depois de deduzir determinado valor ou percentual para investir costumam se dar melhor em Finanças Pessoais.

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