Rentabilidade dos Fundos de Previdência Aberta

O ano de 2010 foi de contrastes para os Fundos de Previdência Aberta (PGBL e VGBL), segundo Antonio Perez (Valor, 24/01/11). Do lado dos bancos e seguradoras, sobraram motivos para comemoração, já que o patrimônio líquido (PL) do setor atingiu R$ 181,9 bilhões, crescimento de 24,89% em relação a 2009. Já os investidores não têm muito o que comemorar. A rentabilidade dos fundos de renda fixa e multimercados sem renda variável foi muito pequena, em média 8,47% e 8,21%, respectivamente, perdendo do CDI do período, de 9,75%.

Com o ritmo de crescimento anual do PL ao redor de 25%, o nicho de negócio bancário dobra de tamanho a cada quatro anos. Mas os ganhos do investidor, sobretudo pelo efeito da taxa de administração, têm sido muito baixos, considerando os dados de 567 fundos de previdência aberta em 2010. Isso em algum momento terá que ser ajustado, senão as pessoas vão chegar ao fim de 5, 10 anos, sem boas condições de se aposentar!

O quadro piora quando se considera o ganho real. Descontada a inflação de 2010 medida pelo IPCA (5,91%) – índice de preços que melhor reflete o custo de vida da maioria dos investidores – a rentabilidade real das carteiras fica ao redor de 2,5%. Levando em conta o IGP-M (alta de 11,32% no ano passado), houve perda real, ou seja, o poder de compra do investidor diminuiu.

A qualidade da gestão das carteiras merece atenção do investidor. Os fundos de previdência são, por natureza, mais conservadores, o que se traduz na preferência por uma gestão passiva. Logo, o gestor não altera muito a carteira de investimentos do plano.

No caso dos fundos de renda fixa, isso significa seguir índice que espelhe a variação de cesta de papéis públicos, sobretudo os atrelados a índices de preços. Com isso, o gestor não se aproveita das alterações nos preços dos títulos ao longo do tempo. Essa estratégia seria justificada apenas em caso de taxas de administração baixas, algo longe da realidade do mercado de previdência privada.

Em ambiente de juros não tão altos, como se viu no ano passado, as taxas de administração acabam pesando demais no bolso do investidor. A estratégia dos fundos de renda fixa ainda é super conservadora. Os gestores vão precisar correr mais riscos para ter retorno que justifique a cobrança dessas taxas, pois os investidores em previdência ainda arcam com a taxa de carregamento, percentual descontado a cada aporte no fundo.

Os ganhos líquidos dos fundos de renda fixa também foram reduzidos nos anos anteriores. Em 2009, essas carteiras renderam 8,69%, para CDI de 9,9%. A discrepância foi maior em 2008 (9,91% dos fundos ante 12,4% do CDI) e 2007 (9,59% versus 11,8%). Pode ser aceitável que aplicação que mire no longo prazo fique abaixo do CDI, referência de rentabilidade de curto prazo, durante certo período, mas é difícil explicar esse desempenho baixo durante quatro anos consecutivos.

Em 2010, os fundos de renda fixa também perderam feio do Índice de Mercado Anbima (IMA), que fechou o ano passado com alta de 12,98%. O índice reflete a evolução de carteira teórica de títulos públicos (pré e pós-fixados e atrelados a índices de preços), que são justamente os principais ativos dos fundos de previdência. Essa discrepância mostra, no mínimo, que as taxas de administração cobradas estão corroendo os ganhos das carteiras.

Apesar do desempenho fraco, os fundos de renda fixa e multimercados sem ações são os carros-chefes da previdência privada aberta, representando cerca de 75% do patrimônio do setor. Mesmo com rentabilidade líquida questionável, essas carteiras continuam a ter a preferência dos investidores. Da captação líquida de R$ 24,15 bilhões dos fundos no ano passado – alta de 11% ante 2009 -, R$ 17,38 bilhões, ou 72%, foram para os sem renda variável.

A gestão conservadora dos fundos de renda fixa é reflexo em grande parte das próprias expectativas do investidor. A previdência é para o longo prazo, mas o investidor ainda olha para o resultado do mês.

Os fundos de renda fixa mais agressivos compraram títulos públicos de longuíssimo prazo, cujos preços oscilam com mais frequência. Embora possam exibir rentabilidade acumulada no ano superior, caso de 2010, essas carteiras apresentam “cotas negativas”, isto é, perdas, em alguns meses. Isso o investidor ainda não aceita. Os gerentes argumentam para que o cliente não veja oscilações no curto prazo não significando que ele não alcançará seu objetivo final. Who knows?

Se olhar apenas um ano, o investidor não vai perceber os ganhos acumulados em 36 e 48 meses. É preciso também levar em conta os benefícios fiscais na hora de avaliar os ganhos proporcionados aos investidores. É o caso, por exemplo, da tabela regressiva do Imposto de Renda e da possibilidade de abater até 12% da renda bruta para quem aplica em PGBL e faz a declaração do IR pelo modelo completo.

Os fundos de renda fixa de planos de previdência são, realmente, muito conservadores. Com a tendência de queda dos juros no longo prazo, os gestores terão que ter postura mais ativa e aceitar a volatilidade dos títulos mais longos.

Eles têm de buscar aproveitar as oportunidades de ganhos com papéis públicos atrelados à inflação de prazo maior. O investidor vai cada vez mais comparar a rentabilidade de outras aplicações com a dos fundos de previdência. Os gestores precisam calibrar suas estratégias para merecer a taxa de administração!

2 thoughts on “Rentabilidade dos Fundos de Previdência Aberta

    1. Prezado Elizeu,
      refere-se à qual Previdência: Social ou Complementar? A primeira depara-se com o fenômeno demográfico de crescimento relativo da população inativa / ativa, envelhecimento com maiores gastos em saúde, maior longevidade. A segunda dá uma curva de incentivo fiscal para aplicar em longo prazo, isto é, superior a 10 anos; além disso, tem de se barganhar com os bancos, ameaçando com a portabilidade do PGBL/VGBL para um concorrente, para conseguir zerar taxa dispensável e 0,5% em taxa de administração de FRF (renda fixa). FRV (renda variável) tem mais risco e exige mais pessoal para administrar as compras e vendas de ações, logo, cobram maior taxa de administração.
      Att.

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