O Terceiro Chimpanzé: A Evolução e o Futuro do Ser Humano II

Para colocar a evolução humana em perspectiva temporal, Jared Diamond recorda-nos que a vida teve origem na Terra há muitos bilhões de anos, e que os dinossauros foram extintos há cerca de 65 milhões de anos. Só entre seis e dez milhões de anos atrás os nossos ancestrais se distinguiram dos ancestrais dos chimpanzés e gorilas. Portanto, a história humana constitui uma porção ínfima da história da vida.

Inicialmente, os nossos ancestrais teriam sido classificados como só mais uma espécie de grande símio, mas uma seqüência de três mudanças nos lançou na direção dos humanos modernos. A primeira delas ocorreu há cerca de quatro milhões de anos, quando a estrutura dos membros fossilizados demonstra que os nossos ancestrais habitualmente caminhavam eretos sobre os dois membros traseiros. Em contraste, os gorilas e chimpanzés só caminhavam eretos ocasionalmente, pois em geral andam de quatro. A postura ereta liberou os membros dianteiros dos nossos ancestrais para fazerem outras coisas, dentre as quais a confecção de ferramentas demonstrou ser a mais importante.

A segunda mudança ocorreu há uns três milhões de anos, quando nossa linhagem se dividiu em espécies distintas. Porém, em contraposição com outras espécies, todas as populações humanas existentes hoje já se acasalaram com todas as demais populações humanas com as quais tiveram amplo contato. Daí que todos os humanos modernos pertencem à mesma espécie.

A terceira e última grande mudança que começou a tornar nossos ancestrais mais humanos e menos simiescos foi o uso regular de ferramentas de pedra. Cerca de dois milhões e meio de anos atrás, ferramentas de pedra muito incipientes surgiram em grande quantidade em áreas do leste africano ocupadas pelos proto-humanos.

É evidente que uma ou duas espécies humanas devem ter se extinguido. Como só há uma espécie humana sobrevivente hoje, ela é descendente do Homo Habilis, de crânio leve, cujo corpo e crânio continuaram a crescer Por volta de 1.700.000 anos atrás, as diferenças eram suficientes para que os antropólogos dessem novo nome à nossa linhagem: Homo Erectus, o que significa “o homem que caminha erecto”. Há uns 500.000 anos, alguns de nossos ancestrais se pareciam bastante conosco, mas diferiam do Homo Erectus anterior, e são classificados como da nossa própria espécie, Homo Sapiens, que significa “o homem sábio”.

Embora os primeiros humanos comessem alguma carne, não sabemos quanto, nem se obtinham caçando ou encontrando carniça. Só aproximadamente 100.000 anos depois, há boas evidências das habilidades humanas  de caçar. Mas, naquela época, os humanos ainda eram caçadores muito ineficientes de grandes animais. Supostamente, a caça de grandes presas teria induzido os machos proto-humanos a cooperar entre si, desenvolver a linguagem e o cérebro grande, unir-se em bandos e compartilhar alimentos. “As mulheres suprimiram os sinais exteriores de ovulação mensal, tão evidentes nos chimpanzés, para evitar levar os homens a um frenesi de competição sexual que viesse a afetar a cooperação entre eles na caça” (Diamond, 2010: 49).

Levando em conta as evidências dos ossos e ferramentas, deduz-se que a evolução para o cérebro grande e a postura ereta era requisito necessário para a linguagem e a arte, mas não era suficiente. Nossa ascensão à humanidade exigiu também mudanças drásticas no nosso ciclo vital.

Os biólogos denominam “ciclo vital” para qualquer espécie. Isso implica em características como o tamanho da prole por ninhada ou nascimento, o cuidado parental que a mãe ou o pai dispensam à prole, as relações sociais entre os indivíduos adultos, como macho e fêmea se escolhem para acasalar, a freqüência de relações sexuais, a menopausa e a expectativa de vida.

Nosso ciclo vital é estranho do ponto de vista animal. Somos extremos em quase todos esses aspectos: geralmente um filhote por vez, cuidados parentais, longevidade, etc. Vivemos em colônias densamente habitadas por casais monogâmicos, alguns dos quais buscam o sexo extraconjugal. Nossos elaborados métodos de obter alimentos, que dependem de ferramentas, tornam as crias humanas desmamadas incompetentes para se alimentarem por conta própria. Os nossos filhos exigem longo período de provisão de alimentos, educação e proteção. “Portanto, se os pais humanos querem que suas proles sobrevivam até a maturidade, geralmente oferecem às suas parceiras muito mais do que o esperma, que é a única contribuição do orangotango” (Diamond, 2010: 70).

Vivemos mais do que os antropoides selvagens: mesmo as tribos de caçadores-coletores possuem alguns indivíduos anciãos, os quais são extremamente importantes como repositórios da experiência. Diamond mostra que a longevidade, o tamanho dos testículos e a menopausa foram também requisitos para a nossa humanidade.

Somos incomuns também porque fazemos sexo principalmente por prazer e em privado, em vez de fazê-lo principalmente em público e só quando a fêmea pode conceber. Certamente é difícil visualizar como pais e mães poderiam cooperar harmoniosamente na criação dos filhos se as mulheres fossem semelhantes a algumas fêmeas primatas que só são sexualmente receptivas na época da ovulação, sinalizam a receptividade e fazem sexo em público com qualquer passante do sexo masculino.

Todas essas características fazem parte da definição da humanidade. Assim, a sociedade humana e a criação da prole dependem não só das mudanças no esqueleto, mas também das novas características notáveis do nosso ciclo vital que, no entanto, não podem ser datadas na história evolutiva porque não deixaram marcas fósseis palpáveis.

As características do ciclo vital possuem bases genéticas e variam quantitativamente ente indivíduos da mesma espécie. Elas afetam a nossa capacidade de transmitir nossos genes e influenciam o nosso êxito em atrair parceiros, conceber, criar bebês e sobreviver na idade adulta. Assim como a seleção natural tende a adaptar a anatomia de um animal ao seu nicho ecológico e vice-versa, ela também tende a moldar os ciclos vitais dos animais.

A menopausa e o envelhecimento, em tese, reduziriam (em vez de melhorar) a nossa reprodução, e não deviam ser resultado da seleção natural. Compreende-se esses paradoxos recorrendo ao conceito de trade-offs, ou trocas compensatórias. No mundo animal, nada é gratuito nem unicamente bom. Tudo envolve custos e benefícios e o uso de espaço, tempo ou energia que podiam ser empregados em outra coisa: custo de oportunidade.

Certamente, não há um gene singular que determine a menopausa ou a monogamia. Enormes influências culturais entram em operação na nossa motivação para cuidar da prole ou para buscar sexo extraconjugal. Na discussão sobre nosso ciclo vital singularmente humano, Diamond começa pelos traços de organização social e da anatomia sexual, fisiologia e comportamentos humanos, isto é, as sociedades de casais monógamos e a busca constante, geralmente privada, de sexo. Nossas vidas sexuais se refletem não só na genitália, como também nos tamanhos relativos dos corpos de homens e mulheres.

A busca de sexo extraconjugal obviamente é bastante influenciada pela educação particular de cada indivíduo e pelas normas da sociedade em que vive. Entretanto, essa questão do sexo extraconjugal não tem importância entre os chimpanzés, porque eles não praticam o “casamento”.

Outra característica distintiva do ciclo vital humano diz respeito a como escolhemos nossos parceiros sexuais, conjugais ou de outro tipo. É diferente de babuínos, em que há pouca seleção: qualquer macho tenta acasalar com as fêmeas quando elas estão no cio. A seleção do parceiro é uma decisão de consequências importantes para o ciclo vital humano, porque os casais compartilham responsabilidades parentais, além do envolvimento sexual.

Os nossos critérios de seleção de parceiros são relevantes para a constrangedora questão da variação racial humana. Os humanos nativos de diferentes partes do globo apresentam visíveis variações na sua aparência externa, assim como a maioria das espécies animais que ocupam um território geográfico suficientemente extenso. Algumas variações geográficas de nossa aparência certamente refletem a seleção natural nos moldando ao clima local. Contudo, Diamond argumenta que a nossa variabilidade geográfica visível se deve principalmente à seleção sexual, um resultado dos procedimentos de escolha de nossos parceiros sexuais.

Para fechar a discussão sobre nosso ciclo vital, Diamond indaga por que nossa vida tem de chegar ao fim. O envelhecimento e a morte ocorrem com todos os indivíduos de todas as espécies animais, mas as espécies possuem longevidades muito diferentes. Dentre os animais somos relativamente longevos. Nossa longevidade tem sido importante para a nossa humanidade, ao permitir a transmissão eficaz entre as gerações das habilidades adquiridas.

Fica clara a importância de pensar em termos de trade-offs evolutivos. A produção de uma quantidade maior de descendentes paradoxalmente não compensaria o crescente investimento nos mecanismos de autorreparo que uma vida longa exige. O conceito de trade-off também esclarece a incógnita da menopausa: um corte na reprodução, paradoxalmente programado pela seleção natural para que as mulheres possam gerar mais crianças sobreviventes.

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