O Terceiro Chimpanzé: A Evolução e o Futuro do Ser Humano III

O dilema no debate a respeito de seis teorias sobre a evolução da ovulação oculta nas mulheres exemplifica um problema que permeia o estabelecimento da causação da biologia da evolução, na história, na psicologia e em vários outros campos nos quais é possível manipular variáveis para realizar experimentos controlados. Esses experimentos seriam a maneira mais convincente de demonstrar a causa ou a função. Na ausência desses experimentos, nunca teremos certeza de como seria hoje a sociedade humana sem a ovulação oculta. Mas isso não pode levar a “explicar” fenômenos complexos como uma lista ou rol que inclua todos os fatores possíveis.

Qualquer sistema social com regras de conduta está exposto ao risco de que os indivíduos as transgridam se acharem que as vantagens são maiores que as sanções. Isso se refere também sobre uma forma idealizada de sexualidade humana: casais monogâmicos, maridos confiantes na paternidade dos filhos de suas mulheres e maridos que ajudam as esposas a criar os filhos, em vez de descuidá-los para flertar. Mas esse é um ideal fictício. O objetivo de toda atividade humana não pode ser reduzido à produção de descendentes, como mostra Jared Diamond (2010) através da apresentação da Ciência do Adultério.

Os nossos testículos são maiores do que os dos gorilas porque, em geral, fazemos sexo por prazer, e são menores que os dos chimpanzés porque somos mais monogâmicos. Entretanto, o sexo extraconjugal é parte integrante, ainda que não oficial, do sistema de acasalamento humano. Infelizmente, o longo da história, poucos motivos se igualaram ao adultério como causa de assassinatos e sofrimento humano. Diamond se revolta com as instituições sádicas com as quais as sociedades tem tentado lidar com o sexo extraconjugal.

Como escolhemos os nossos pares e parceiros? Tendemos a casar com alguém que se parece conosco. Como respeitamos o tabu do incesto, em vez de casar com parentes diretos, as pessoas tendem a se casar com alguém que se parece com seus pais ou irmãos do sexo oposto. Mas a imagem de busca pode ter sido influenciada por qualquer pessoa do sexo oposto que a gente viu regularmente na infância. Além disso, como diversos traços físicos independentes fazem parte de nossa imagem de busca, então a maioria de nós termina tendo uma leve semelhança média com muitos traços dos conjugues.

As pessoas tendem a se casar com seus iguais inclusive devido à proximidade: bairros (condições sócio-econômicas), escola, partido, religião e origem étnica. Esses contatos nos oferecem mais oportunidades de encontrar gente semelhante a nós. Para a maioria, o casamento é fruto de uma proposta, isto é, a culminação de algum tipo de negociação bilateral. Quanto mais parecidos forem o homem e a mulher em termos de opiniões políticas, religião e personalidade, mais suave será a negociação.

O fator que resta para a decisão sobre com quem você se casará, além da proximidade e a facilidade de negociar, certamente é a atração sexual baseada na aparência física. São preferências quanto aos traços visíveis, como altura, constituição e cor dos cabelos ou olhos, mas também outros traços físicos que não notamos de maneira consciente, como o lóbulo das orelhas, os dedos médios e a distância interocular!

Como a seleção sexual está na origem das raças humanas? Darwin não imputou a variação racial humana ao seu próprio conceito de seleção natural. Disse: “nenhuma das diferenças externas entre as raças tem utilidade especial para o homem”. Usou a teoria da seleção sexual, cuja ideia básica é que há muitos traços animais sem nenhum valor óbvio para a sobrevivência, mas com um papel evidente na obtenção de parceiros. Se um indivíduo macho for particularmente bem-sucedido em atrair fêmeas ou intimidar machos rivais, deixará mais descendentes e passará adiante seus genes e características: um resultado da seleção sexual e não da seleção natural.

Para explicar o aparente narcisismo na escolha do parceiro sexual, Diamond argumenta que desenvolvemos nossos padrões de beleza imprimindo em outrem o que vemos à nossa volta durante à infância. É a Teoria do Imprinting da Escolha Sexual Humana. Mas a “busca da verdade” sobre os humanos falha diante das questões práticas. Seus testes só podem ser feitos em animais com todo o rigor experimental.

O formato dos seios humanos e a cor da pele também podem ser o resultado das preferências sexuais, que variam arbitrariamente de uma região para outra? Darwin deu resposta positiva a essa pergunta. Ele observou que ao escolher nossos companheiros e parceiros sexuais prestamos atenção extraordinária aos seios, cabelos, olhos e cor de pele. Povos de distintas partes do mundo definem a beleza de seios, cabelos, olhos e pele segundo o que lhes é familiar.

Gente de diferentes partes do mundo desenvolveu então suas diferenças em parte por obra do acaso, o que os biólogos denominam “efeito fundador”. Os genes de poucos indivíduos fundadores que colonizaram terra vazia podem continuar predominantes na população muitas gerações depois. O nosso interior, que permanece invisível para nós, foi moldado só pela seleção natural. A seleção sexual teve grande impacto ao moldar os traços visíveis que nos levam a escolher nossos parceiros.

Por que envelhecemos e morremos? “O envelhecimento e a morte são um mistério sobre o qual frequentemente perguntamos durante a infância, negamos na juventude e aceitamos relutantemente na idade adulta”, disse Diamond (2010: 139).

O envelhecimento relativamente lento é tão crucial para o estilo de vida humano quanto o casamento, a ovulação oculta e outros traços do ciclo vital. Isto porque nosso estilo de vida depende da transmissão de informações. Com o desenvolvimento da linguagem e até a invenção da escrita, os anciãos eram os repositórios das informações e experiências. A longa duração da vida foi importante para passarmos da condição de animais para a de humanos.

O envelhecimento só pode ser entendido se a explicação evolutiva, que é fundamentalmente a pesquisa da função ou a cadeia de eventos criadora do mecanismo imediatamente responsável pela observação fisiológica, ou seja, a explicação imediatista, se somar a essa. Esta teoria atribui o envelhecimento às progressivas dificuldades que nosso sistema imunológico supostamente enfrenta para distinguir entre as nossas próprias células e células estranhas.

Estamos constantemente nos restaurando, de maneira inconsciente, em todos os níveis, das moléculas aos tecidos ou a um órgão completo. Os nossos mecanismos de autorreparo são de dois tipos: o controle de danos e a substituição periódica. Assim, evitamos o acúmulo de células danificadas.

“Se você comparar a aparência do ser amado hoje com uma foto tirada a um mês atrás, ele (ou ela) pode parecer igual, mas muitas moléculas individuais que formam aquele corpo adorado são diferentes” (Diamond, 2010: 143).

Entretanto, não podemos reconstituir ou substituir tudo no nosso corpo por causa dos custos do reparo. Os detalhes de quanto é substituído variam enormemente, segundo a parte do corpo e a espécie. Não existe nada fisiologicamente inevitável na capacidade limitada de reparo os humanos. Quanto devemos investir em reparos biológicos depende do custo dos reparos e da expectativa de vida com e sem reparos. Essa decisão pertence ao reino da biologia evolutiva, e não da fisiologia.

A seleção natural tende a maximizar o ritmo de procriação da prole que sobrevive para que esta, por sua vez, procrie também. Atua sobre os indivíduos como um todo, não sobre partes dos indivíduos. Favorece a combinação de traços que maximiza a produção procriadora do animal.

Nossos ciclos vitais possuem muitos traços que parecem reduzir, não maximizar, nossa capacidade de produzir descendência. Envelhecer e morrer são só um exemplo; outros são a menopausa feminina, a gestação de um bebê de cada vez, a geração de um bebê por ano, só poder começar a gerá-los a partir da puberdade.

Dispomos de determinada quantidade finita de energia. Se puséssemos toda a nossa energia na geração de bebês, sem dedicar nenhuma energia ao reparo biológico, nosso corpo envelheceria e se desintegraria antes que pudéssemos criar o primeiro filho. No outro extremo, se dedicássemos toda a energia de que dispomos para manter nosso corpo em forma, poderíamos viver por muito tempo, mas não teríamos energia disponível para o processo exaustivo de procriar e criar filhos.

A evolução nos programou para que as mulheres empreguem mais energia no autorreparo, e os homens, mais energia nas lutas. Os homens são mais propensos a morrer em guerra contra homens de outros grupos e em lutas individuais no interior de um grupo. Relacionado a esse alto índice de mortes acidentais entre os homens, eles também envelhecem mais rapidamente do que as mulheres: a expectativa de vida delas é de aproximadamente seis anos a mais do que a dos homens. Não vale tanto a pena reparar um homem quanto vale reparar uma mulher. A luta masculina tem um único propósito evolutivo: obter esposas e assegurar recursos para seus filhos e sua tribo à custa de outros homens, seus filhos e suas tribos.

Como o que move a evolução é a transmissão dos genes à geração seguinte, outras espécies animais raramente sobrevivem após a idade reprodutiva. No entanto, as mulheres são programadas para viver durante décadas após a menopausa e os homens até uma idade em que a maioria deles já não se ocupa de procriar. A explicação é que, na espécie humana, a intensa fase de cuidados com a prole costuma se estender por quase duas décadas. Especialmente nos tempos anteriores à escrita, os mais velhos eram portadores de conhecimentos essenciais.

A menopausa feminina é o resultado de dois traços singularmente humanos: o perigo excepcional que o parto representa para a mãe e o perigo que a morte representa para sua prole. O parto é perigoso para as mulheres. Especialmente antes do surgimento da obstetrícia moderna, as mulheres freqüentemente morriam no parto, enquanto as mães gorilas e chimpanzés raramente morrem.

O aumento da probabilidade de mãe caçadora-coletora perder a vida, e colocar em risco a vida de seus filhos, provavelmente, levou a seleção natural a interromper a fertilidade da fêmea humana, de forma a proteger o investimento inicial nos filhos. Mas como a procriação não implica risco imediato de morte para os pais, os homens não desenvolveram a menopausa.

A literatura geriátrica vive obcecada com a busca da Causa (Única) do Envelhecimento – e daí, a descoberta da cura bebendo na “fonte da juventude”! O raciocínio evolutivo sugere que essa busca continuará sendo vã. A seleção natural deve agir para adequar o ritmo de envelhecimento em todos os sistemas fisiológicos. O resultado é que o envelhecimento envolve inúmeras mudanças simultâneas.

A melhor estratégia para nós é reparar todas as partes de nosso corpo em ritmo tal que tudo entre em colapso ao mesmo tempo. O ideal evolutivo do Colapso Total Simultâneo descreve melhor o destino do corpo de cada um de nós do que uma só Causa do Envelhecimento.

Os sinais de envelhecimento são encontrados onde que se procure: enfraquecimento do coração, endurecimento das artérias, aumento da porosidade dos ossos, diminuição do fluxo de filtragem dos rins, menor resistência do sistema imunológico, perda de memória e assim por diante. A evolução parece ter feito um arranjo para que todos os nossos sistemas se deteriorem, e só investimos em reparar até onde vale a pena. A seleção natural não permitiu que nós deterioremos por meio de um único mecanismo que tenha uma cura simples.

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