Cinema Brasileiro: Anos 2000, 10 Questões

Em 2010, os filmes nacionais venderam 25,2 milhões de ingressos. Em 1995, o número era 1,2 milhão. Enquanto no ano passado 135 longas-metragens brasileiros chegaram às telas, em 1995, foram 12 os lançamentos. Esses resultados, por si, justificariam investigação sobre o que aconteceu com o cinema brasileiro na última década. Como o País superou o fim da Embrafilme, no início da década dos anos 1990, para chegar a “Tropa de Elite 2“, que quebrou o recorde de público de “Dona Flor e Seus Dois Maridos“, atingido 35 anos antes?

Os debates procuraram compreender essa mudança de patamar a partir de questões ligadas à produção e ao financiamento. O evento Cinema Brasileiro: Anos 2000, 10 Questões, porém, busca a reflexão sobre a estética e o país que daí saíram (leia o Catalogo com Balanço do Novo Cinema Brasileiro). A exibição de cerca de 60 títulos será completada por uma série de debates. Não se trata de reunir os “melhores” ou “mais significativos” filmes. O que a mostra faz é agrupá-los a partir das dez questões propostas.

  1. Que País é Este? Uma característica que acompanha toda a história do cinema nacional é a dos filmes empenhados em traçar a imagem do país em dado momento, do passado ou do presente, em busca de sintomas, revelados por meio de indivíduos representativos ou grupos com sentido de panorama.
  2. Para Onde Vão Nossos Heróis? A década foi pródiga em ficções e documentários centrados em personagens direta ou indiretamente conectados com a história brasileira, usando-os para refletir trajetórias e propor modelos de comportamento por meio de percursos (de superação ou de derrotas) com os quais se formam os “heróis brasileiros” do cinema atual.
  3. Que Gêneros são os Nossos? Ao longo desses 10 anos, quais gêneros tipicamente nacionais nasceram e/ou se confirmaram como nossos principais sucessos de bilheteria? Por outro lado, quais tentativas confirmaram a pouca visibilidade de outros modelos clássicos do chamado cinema de gênero?
  4. Quais as Imagens do Brasil lá fora? Ainda bastante frágil no contexto interno da cultura brasileira, o cinema nacional muitas vezes vai buscar lá fora elementos legitimadores, principalmente por meio dos maiores festivais de cinema do mundo. Quais imagens do cinema brasileiro foram mais circuladas e definidoras de uma noção estrangeira do cinema produzido aqui?
  5. Ação entre Amigos: Opção, Afirmação ou Necessidade? Através da explosão e barateamento permitidos principalmente pelas várias revoluções digitais que o cinema passou na última década se fortalece a tendência de destaque de uma produção de características bastante “caseiras”, inclusive na maneira como os membros da equipe se relacionam entre si. É um cinema da afetividade, entre amigos?
  6. Subjetividade: Modo ou Moda? O eu nunca esteve tão inflado no cinema brasileiro, em geral flagrado e construído em uma zona de conflitos, gerados por uma tensão com o mundo próximo. Essas manifestações subjetivas estão presentes na última década tanto em ficções como documentários.
  7. O Outro: Temer, Tolerar ou Conhecer? Reflexo talvez inevitável de um país com tantos contrastes internos, a produção brasileira do período nos trouxe uma enorme quantidade de filmes que expõem a relação entre opostos, seja pelas tentativas de aproximação, seja pelas tensões da convivência.
  8. Deslocamentos: Para Onde e Por Quê? A década se voltou com frequência para personagens em trânsito ou em conflito com seus lugares de existência, às vezes por conta de uma inadequação aos padrões do entorno, às vezes por uma insatisfação aparentemente intrínseca aos mesmos.
  9. Obra em Processo ou Processo como Obra? Dispositivo e processo foram duas palavras constantemente trazidas à tona nos debates da década, seja no documentário seja na ficção – muitas vezes gerando inclusive uma produção que desafia de maneira evidente as fronteiras entre estas categorias. Em várias dessas obras a exposição do próprio processo de realização toma a frente na estrutura dos filmes.
  10. O Que Pulsa Além dos Longas? Se a história do cinema de um país nunca é contada apenas pelos longas que ele produz, essa realidade se tornou hiperpresente nos anos 2000, uma vez que a produção em outros formatos se multiplicou exponencialmente. Curtas, médias, séries de TV, telefilmes foram espaços buscados por alguns autores para começar ou se manter filmando.

A primeira pergunta que, no catálogo da mostra, se coloca é: que imagem do país esses filmes forjaram? Não é boa a visão sobre o país em nenhum dos filmes. Não possui saídas, segundo o olhar amargo de “Baixio das Besta”, “Quanto Vale ou É por Quilo” ou “O Signo do Caos”.

O gênero da década foi a comédia derivada da TV. Apesar de ser o chamariz de títulos como “Se Eu Fosse Você” ou “Os Normais”, o sexo tende a aparecer de maneira “sanitizada”. Suas tramas tratam de dilemas amorosos e sexuais da classe média, a partir de resoluções infantilizadas. Comédias que não seguiram o beabá da TV, como “Bendito Fruto” e “É Proibido Fumar”, apesar do aparente potencial, decepcionaram nas bilheterias.

O documentário biográfico musical apareceu como subgênero relevante: “Cazuza”, “Simonal”, “2 Filhos de Francisco. Outro subgênero apareceu no fim da década: o dos filmes espíritas, puxado por “Bezerra de Menezes” e “Chico Xavier”.

A ditadura tornou-se tema recorrente em filmes brasileiros, entre os quais, “O Ano em que meus Pais saíram de Férias”. Os atores, como Selton Mello, Matheus Nachtergaele e Wagner Moura, passaram a ser parte fundamental do processo de criação.

Ao mesmo tempo em que busca entender o que é nosso cinema popular, a Mostra tenta dar conta da imagem dos filmes no exterior. O sucesso de público, aqui, não repercutiu no estrangeiro. Apenas “Cidade de Deus” conquistou, de fato, relevância internacional. Apesar de Fernando Meirelles, Walter Salles e José Padilha terem conseguido se colocar na cena internacional, a cinematografia nacional, não goza de grande prestígio no exterior. Em dez anos, apenas dois longas, “Carandiru” e “Linha de Passe”, competiram em Cannes.

 

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