Economicismo

Economicismo é a prática de analistas que deduzem a Política da Economia. Enxergam causalidade em alguma correlação espúria, por exemplo, entre a popularidade do governante e as variáveis taxa de inflação e taxa de crescimento do PIB ou taxa do desemprego. O problema dessa redução analítica é que se exclui uma série de outros fatores determinantes de qualquer eleição, como o carisma do candidato, a publicidade política, o apoio partidário, etc., e até mesmo alguma circunstância conjuntural irreprodutível em outra eleição.

Cristiano Romero (Valor, 13/04/2011) comete tal vício ao apontar que, “no Brasil, a história tem mostrado que a popularidade do Presidente da República responde mais à evolução dos preços do que ao comportamento do Produto Interno Bruto (PIB). Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva foram reeleitos, respectivamente, em 1998 e 2006, com a economia crescendo pouco, mas com a inflação sob controle”.

Ele usa o argumento para alardear que “a presidente Dilma Rousseff optou por estratégia arriscada. Em seu cálculo político, crescimento econômico tem um peso maior que a inflação”. Será verdade? A Presidenta confirma isso? Não creio. Ela manifesta preocupação com o bem-estar social como um todo, onde se incluem tanto o controle da inflação quanto o crescimento do emprego.

Cristiano Romero alega que “todas as vezes que a inflação subiu a esses níveis desde o início do processo de estabilização da economia, em 1994, a popularidade do Presidente da República caiu. As exceções, que não desmentem a regra, foram os períodos que marcaram a troca de governo e o início de uma nova aposta na estabilização. É normal que, nesses momentos, o presidente assuma o poder com grande capital político”.

“O brasileiro tem baixa tolerância com inflação. Antes do Plano Real, dois episódios exemplificam bem a correlação entre popularidade e carestia. Em 1986, o Plano Cruzado nocauteou a inflação e permitiu ao então partido do poder, o PMDB, eleger todos os governadores do país, com exceção do de Sergipe. Poucos dias depois do pleito, o governo lançou o Cruzado II, abortando o primeiro, e os preços voltaram a subir numa velocidade estonteante”.

“Em 1994, às vésperas do lançamento do Plano Real, que ocorreu em julho, Lula liderava com ampla vantagem as pesquisas de opinião da corrida presidencial. Lançado o plano, a inflação caiu de quase 2.500% para menos de 30% ao ano, fazendo com que FHC tomasse imediatamente a dianteira nas pesquisas e vencesse a disputa no primeiro turno”.

“Em seu primeiro mandato (1995-1999), Fernando Henrique quebrou monopólios estatais, privatizou empresas como a Vale e mudou as regras de aposentadoria do INSS”. Essas reformas, ao contrário do que afirmam setores da esquerda, segundo Romero, “não foram responsáveis pela perda de apoio popular de FHC. Na verdade, o presidente se reelegeu em 1998, em primeiro turno, com crescimento zero do PIB. Seu trunfo era a inflação, que, naquele ano, caiu ao menor nível em décadas: 1,66%” (ver gráfico).

Afirma ele que “a popularidade de FHC minguou, e praticamente não se recuperou mais, por causa da desvalorização do real em janeiro de 1999, movimento que levou o IPCA a quase 9%. Aquele índice fez o presidente viver o seu pior momento no poder. No ano seguinte, recuou, mas voltou a subir nos dois anos subsequentes, abrindo o caminho para Lula derrotar o candidato da situação em 2002”. Romero não lembra sequer o “apagão” de 2001!

No afã de provar seu ponto de vista, Romero diz que “Lula tomou posse em meio à forte desconfiança, mas assumiu o compromisso firme de combater a inflação a qualquer custo. E o fez. Em oito anos, sua popularidade caiu abaixo de 40% apenas durante o escândalo do mensalão. Em 2006, ele foi reeleito com o PIB crescendo abaixo de 4%. Assim como FHC, sua fortuna era a inflação baixa (3,11%, a menor de seus dois mandatos)”. E o resto da “marca” de seu governo, ou seja, política social ativa e acesso popular a direitos, bens e serviços jamais alcançados antes?

Romero conclui seu artigo com vaticínio pessimista para a situação e otimista para a oposição pela qual ele torce (e distorce). “Dilma começou o governo com popularidade elevada: 47%, segundo o Datafolha. Se a estratégia gradualista de combate à inflação não der certo, ela terá que enfrentar o problema mais adiante com uma dose mais forte de juros e contração fiscal, o que pode comprometer o desempenho do PIB também no segundo ano de mandato, quiçá, no terceiro. A depender da inflação, ela pode não vir a ter o capital político necessário para colocar a casa em ordem”.

6 thoughts on “Economicismo

  1. Caríssimo,

    como sou acusado de “Dilmista” por muitos tucanos, não vou levar a sério a sua crítica a mim quando diz que torço pela oposição. Não torço por ninguém. Meu time é a notícia.

    Ademais, gosto muito das resenhas críticas que o senhor faz sobre artigos publicados na imprensa. E como deve acompanhar meu trabalho, sabe que não puxo sardinha para ninguém. Como tenho uma coluna de opinião, exerço a crítica, que, evidentemente, também não está livre de qustionamentos.

    Estou sempre aberto ao debate. Quanto ao artigo em questão, ele se resume a mostrar, com fatos, a importância da inflação sobre a popularidade dos governantes. Somente isso.

    Atenciosamente,

    Cristiano.

    1. Prezado Cristiano,
      não tenho dúvida que o autor sabe mais do que qualquer outro qual é seu posicionamento político. Eu o respeito – e me desculpo.
      Como estava estampado na camiseta de outro “inesquecível” ex-presidente: “o tempo é senhor da razão”… Essa opinião de que a Dilma privilegiaria sempre a manutenção do crescimento face ao combate à inflação necessitou ser revista, não?
      Mas a gente não acerta sempre. Quem se abre ao debate fica sujeito à crítica.
      Parabenizo por essa sua abertura.
      Atenciosamente,
      Fernando

    1. Prezado Arthur,
      quanto ao economicismo, permanece o conceito: Economicismo é a prática de analistas que deduzem a Política da Economia. Enxergam causalidade em alguma correlação espúria, por exemplo, entre a popularidade do governante e as variáveis taxa de inflação e taxa de crescimento do PIB ou taxa do desemprego.

      O problema dessa redução analítica é que se exclui uma série de outros fatores determinantes de qualquer eleição, como o carisma do candidato, a publicidade política, o apoio partidário, etc., e até mesmo alguma circunstância conjuntural irreprodutível em outra eleição.

      Quanto à futura eleição, “muita água passará debaixo dessa ponte”, “política é como nuvem, nunca está na mesma posição”, “não há fim da história”…
      att.

      1. Prezado Arthur,
        parece-me que o diagnóstico está correto, porém a terapia ela mesmo adverte que é paliativa para uma transição em que não fique desmascarado o fracasso do regime de meta inflacionária com o único instrumento taxa de juros, i.é, o mandato único para o BCB — e não o mandato triplo: inflação-desemprego-câmbio.

        O problema é repetir o mesmo regime de câmbio do primeiro governo FHC em circunstâncias distintas. Hoje se tem a vantagem de US$ 370 bilhões de reservas cambiais para se contrapor a ataques especulativos à banda cambial. Mas a aposta (ou esperança) é a depreciação da moeda nacional impulsionar uma retomada do crescimento via ampliação do superávit comercial.

        O choque inflacionário teve, como causa primária, o brusco realinhamento tarifário e de preços administrados no início do segundo mandato da Dilma. Depois, com a crise política, devido à ameaça de golpe parlamentar em que aposta no “quanto pior, melhor”, não se aprova o ajuste fiscal e, pelo contrário, força a Presidenta vetar a “pauta-bomba”. Com a fuga de capitais, derivada desse quadro político-econômico, ocorreu o choque cambial.

        Nessas circunstâncias, sempre haverá necessidade, em dado momento, de se estabilizar a taxa de câmbio para se controlar a taxa de inflação. O problema é escolher o momento adequado. Acho que será mais adiante, quando o superávit comercial tiver maior sustentação e a “nova base governista” tiver acalmado os ânimos golpistas.
        att.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s