Como Tirar o Atraso: Vida de Estudante

No cursinho, o estudante sai em busca do tempo perdido na escola pública (ou na privada, sic) que não lhe exigiu desempenho qualificado. É a primeira vez que muitos tem contato com matérias básicas. Até ali, nunca tinham lido nenhum livro. Mas, dependendo do incentivo dos professores, podem até passar a gostar de literatura. Descobrem, então, um “novo mundo”: o da apreciação das artes, o dos valores culturais,  o de se enxergar socialmente.

Ao fim de cada ano, o estudante da “nova classe média” presta a prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e os vestibulares de universidades públicas, isto é, gratuitas. Pagar pelo curso está fora de cogitação. Ao encontrar alguma faculdade privada que concede bolsas, por exemplo, a movimentos camponeses, ele não hesita em se filiar, mesmo que tenha vivido a vida inteira em cidade. Quando obtém bom desempenho nos exames de admissão, o jovem estudante pode ganhar bolsa equivalente a 75% da mensalidade, o que evita desembolsar cerca de R$ 1.600 todo mês.

Na mesma época, inscreve-se no ProUni (Programa Universidade Para Todos), pelo qual o Ministério da Educação (MEC) concede bolsas para estudantes de baixa renda. Ao abrir mão das universidades públicas, é possível chegar à faculdade, usando a nota do Enem, a bolsa de 50% do ProUni, quando a renda comprovada se situa entre 1,5 e 3 salários mínimos, e o resto financiado pelo Fies (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior), também do MEC. O estudante pode dispensar o financiamento público, quando a própria instituição de ensino complementa sua bolsa.

Mas a auto-estima aflora quando o estudante de ensino superior constata que, embora ainda faltem alguns anos para a formatura, já tem renda superior à de seus pais. O conforto, porém, ainda passa longe. Além do trabalho e da faculdade, que consomem manhã, tarde e noite e, eventualmente, avançam pelo fim de semana, ainda é necessário mais sacrifício e força de vontade para pagar curso de inglês. Reconhece-se que é difícil conseguir algo melhor sem inglês.

As deficiências que o próprio estudante padrão identifica em sua educação estão no centro das preocupações dos empregadores, dos especialistas e das próprias universidades. Algumas oferecem cursos específicos de recuperação dessas deficiências, particularmente em português e matemática. Se as medidas não são suficientes, para suprir a carência educacional de quem saiu do ensino público, ao menos ajuda afortalecer capacidades cognitivas específicas necessárias para as profissões. Embora a criança tenha muito mais facilidade de aprender, o adulto, quando aprende, sabe exatamente o que quer e tem muito mais interesse em aprendê-lo. Daí a eficiência da recuperação.

professor frustrado que, ao lecionar, enxerga a situação com menos otimismo. “As pessoas acham que vão recuperar na faculdade o tempo perdido de aprendizado, mas não vão, não. A coisa mais difícil, hoje, é encontrar profissionais qualificados. Eles saem da universidade ainda com muitos problemas”. Por mais que exista motivação mais forte em pessoas que dependem de bolsas para estudar e dos estudos para prosperar, a associação do esforço ao desempenho não é direta, como adverte o antropólogo George Zarur. “Eu gostaria que assim fosse, isto é, que os mais carentes fossem capazes, em massa, de superar pelo esforço suas limitações de formação. Isso pode acontecer em alguns cursos, mas não, por exemplo, nos integrais, mais difíceis e inviáveis para quem precisa trabalhar”.

Muitas turmas dos primeiros anos dos cursos têm muito mais alunos do que as turmas mais avançadas, a ponto de algumas unidades terem até 170 estudantes na sala de primeiro ano. “Não sabemos se alguém está ouvindo o que dizemos”, diz o professor, “e a surpresa chega na hora de corrigir as provas”. Os alunos menos comprometidos ou com maiores dificuldades para arcar com as despesas acabam ficando pelo caminho, deixando salas com 40, 20 ou até 15 estudantes apenas nos últimos anos.

As deficiências na educação trazidas do ensino médio público também desempenham papel chave nesse índice de desistência. Muitos estudantes têm como referência a escola pública, onde alguns professores mais faltam do que comparecem. Alguns não têm referência do que é a escola que tem livros, tecnologia, exigências de desempenho. Os problemas aparentemente insuperáveis do ensino público fundamental e médio brasileiro podem comprometer a expansão do ensino superior, principalmente no desenvolvimento da qualidade acadêmica dos formandos.

Mas pode ser positiva a expansão do ensino superior mesmo antes da melhora da escola pública. O diploma universitário torna os pais mais exigentes quanto à qualidade da escola dos filhos. Hoje, os pais das classes baixas não conseguem nem avaliar, nem acompanhar os estudos dos filhos, porque eles não têm referência da boa escola. Com pais diplomados, o nível de exigência das escolas públicas tende a aumentar muito e, em consequência, também a qualidade.

Essa é a hipótese de que a classe média, supostamente, seria mais crítica e reivindicativa. Ainda está para ser provada se a hipótese é verdadeira, ou seja, que a presença da nova classe média melhoraria a qualidade do Ensino.

2 thoughts on “Como Tirar o Atraso: Vida de Estudante

  1. Olá Fernando, sou vestibulando de economia e gostaria de saber como está a situação do curso na UNICAMP e se possível saber se é verdade o foco em matérias de humanidades… Obg!

    • Prezado Matheus,
      o curso de graduação está como sempre esteve: formação pluralista, tanto ensina a ortodoxia, quanto toma conhecimento da heterodoxia, porém enfatiza leituras dos clássicos originais de autores como Marx, Keynes e Schumpeter. A formação econométrica, há décadas, foi também reforçada com bons professores. Há formação multicultural, exigência para se entender o mundo contemporâneo.
      Atualmente, há transição de gerações de professores, onde ex-alunos de destaque no doutorado foram contratados para substituir professores que se aposentam.
      Recentemente, há um número muito grande de seminários com professores-convidados, especialmente estrangeiros.
      Predomina entre os professores uma linha de pensamento social-desenvolvimentista, embora tenha pluralidade política e partidária entre eles.
      Sugiro a leitura de minha entrevista aos estudantes: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2010/06/08/entrevista-ao-caeco-centro-academico-da-economia/
      att.

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