Ouro: Anti-Moeda, Investimento Pessimista e Depressivo

James Saft é colunista da Reuters. Em Valor (26/04/2011), ele discutiu as razões por trás do triunfo do ouro, o anti-investimento. Nos investimentos, o comportamento extremo a cada dia se torna uma coisa mais comum. De que outra maneira podemos interpretar a decisão extraordinária do fundo de pensão da Universidade do Texas de não apenas comprar quase US$ 1 bilhão em ouro, o correspondente a cerca de 5% de seus ativos, como também de insistir na entrega física do metal precioso? As coisas realmente chegaram a um ponto que os conservadores se aterrorizam, quando o segundo maior fundo acadêmico dos Estados Unidos, gerido e aconselhado por “pessoas sóbrias e racionais”, decide que “o que ele precisa é de porto seguro contra a possibilidade de ser roubado, via inflação, ou via políticas fiscal e monetária”.

Pouco admira que os contratos futuros de ouro tenham superado a marca de US$ 1.500 a onça (31,1 gramas) pela primeira vez, conduzidos por preocupações que começam com o dólar em queda e vão até a “reestruturação da dívida” (calote) pela Grécia. O papel que o ouro tem em carteira de investimentos é de ‘hedge’ contra as moedas. A preocupação é que pode estar tendo um estímulo monetário e fiscal grande demais.

É mais prático e econômico aceitar fisicamente o ouro do que tomar o caminho usual de comprar algum contrato derivativo. O fundo da Universidade do Texas paga uma taxa para deixar o ouro armazenado em um cofre supostamente localizado sob as calçadas de Nova York. Mas essa medida também reflete a preocupação com o risco daqueles contratos, que não estão sendo honrados. Quanto a isso, o investimento não só é proteção contra a inflação e o risco cambial, como também contra a quebra do mercado.

O ouro é visto, atualmente, como “antimoeda“, já que tendo oferta limitada seu valor não pode ser degradado pela inflação e desvalorização engendradas pelos bancos centrais. Argumenta-se que o Banco Central não pode ligar as impressoras e produzir mais ouro, o que é virtude fraca, mas aparentemente importante. Essa é preocupação legítima, desde que a segunda rodada de afrouxamento quantitativo foi sinalizada em agosto de 2010, pois o dólar já caiu cerca de 11% em comparação a certa cesta ponderada de moedas.

O dólar vem tendo queda particularmente dura, mesmo contra o abalado euro, depois que a agência Standard & Poor’s colocou a dívida dos Estados Unidos sob alerta, o que significa que há 33% de chances de o país perder sua avaliação “AAA”. Alguns dos mesmos temores que levaram a S&P a tomar essa decisão estão conduzindo o mercado de ouro. A ideia de que os EUA não conseguirão chegar a acordo para fazer reforma orçamentária, piorando sua posição como credor, está levando o dólar a enfraquecer muito.

Em vez de ser “antimoeda”, o ouro é na verdade anti-investimento, não porque não seja compensador, e sim porque é o único ativo que não só protege você contra as ações ruins de terceiros, como na verdade o recompensa por elas. Na visão conservadora, “se os banqueiros centrais e políticos provocam inflação maciça, o preço do ouro sobe. Se os Estados Unidos ameaçam curvar-se ou entrar em “default“, o ouro sobe”. Dá para acreditar nisso?!

O oposto da compra de ouro talvez seja a compra de ações, porque o investidor está apostando na criação de produtos, empregos e riqueza, em vez de apenas se proteger. Por outro lado, afirmam os conservadores, “uma barra de ouro não tem por trás nenhum executivo que possa saquear a companhia. Ou contadores que possam ajudá-la em uma fraude. De fato, o mundo em que investir em ouro torna você rico não é um lugar muito aprazível”.

De certa maneira, dizem, “você pode olhar para o capital que está fluindo para o ouro como um tipo de custo não inesperado da atual política monetária, assim como colocar grades nas janelas de sua casa é um custo que você paga por morar num bairro perigoso. Ambos desviam dinheiro de causas mais produtivas, em nome da segurança”.

É realmente difícil dizer o que é mais extraordinário: o fato de as pessoas estarem se comportando de maneira que poucos anos atrás seria classificada de paranóica, ou o surgimento de coisas que podem deixá-las preocupadas de maneira plausível.

A falta de alternativas seguras ao dólar, indubitavelmente, também está conduzindo recursos para o ouro. Embora o euro tenha subido em comparação ao dólar por causa das expectativas de novas altas nas taxas de juros, a política da União Europeia em relação aos Estados membros deficitários da zona do euro vem sendo desastrosa, de acordo com esse colunista da Reuters. O risco real de reestruturação da dívida pela Grécia e a continuidade dos problemas na Irlanda e Portugal provocaram contágio na Espanha, economia grande o suficiente para colocar todo o projeto da região em dúvida. Os ganhos eleitorais de partido nacionalista na Finlândia, que rejeita planos de socorro financeiro, serve apenas para aumentar as dificuldades em potencial. Predomina a “nóia” depois do pânico pós-euforia.

Para os investidores conservadores norte-americanos, a China, embora supostamente ávida por promover o yuan como alternativa ao dólar, é ainda em parte economia fechada para os investidores estrangeiros. O Japão, recuperando-se de desastre natural e enfrentando grandes desafios demográficos, não é hoje nem um pouco atraente, embora seja economia grande e aberta.

Conclui o colunista da Reuters que, “então, o ouro é um investimento profundamente pessimista e depressivo. Nas atuais circunstâncias é também, infelizmente, uma conversa de elevador”.

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