Armadilha da Renda Média ou Desmanche do Estado Desenvolvimentista?

 

Fabiano Maisonnave (Folha de S. Paulo, 08/05/11) divulgou o Relatório do Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB, na sigla em inglês) que recomenda que, para cumprir as projeções de que liderará a economia mundial neste século, a Ásia precisa evitar a “armadilha da renda média”, na qual caíram o Brasil e a América Latina. O estudo, intitulado “Ásia 2050: Compreendendo o Século Asiático“, adverte que a rápida ascensão asiática das últimas décadas não continuará no “piloto automático” ou é “predeterminada”. “Dada a história econômica de outras regiões e países uma vez bem sucedidos, notadamente, comparando Japão e Brasil antes e depois dos anos 1980, [o estudo] alerta formadores de políticas públicas e lideres empresariais contra se tornar complacente”.

Na realidade, a mudança não foi “questão de atitude”, tipo “se tornar complacente”, mas sim se tornar neoliberal! Com o desmanche do Estado desenvolvimentista brasileiro, entre 1980 e 2002, pressionado inclusive pelas instituições financeiras multilaterais, tipo BID, o País que era o que mais crescia na média anual desde o início do Século XX, terminou aquele século em terceiro lugar, após “duas décadas perdidas”.

Os obstáculos para impedir o “século da Ásia”, segundo o Relatório, são vários:

  • crescente desigualdade social,
  • falta de credibilidade das instituições públicas e financeiras,
  • competição intensa por recursos naturais, e
  • mudanças climáticas.

Sobre as economias mais dinâmicas da região, a China e a Índia, o Relatório diz que o maior desafio nos próximos dez anos é escapar da “armadilha da renda média”. O termo é usado para economias que, depois de sair da pobreza, não alcançam os países ricos, passando por períodos curtos de crescimento e até retração.

A armadilha da renda média se refere à incapacidade tanto de competir com economias pobres, de mão de obra barata, quanto com países de tecnologia avançada, o que teria ocorrido com o Brasil e a América Latina nos últimos 30 anos. “Esses países não podem fazer uma transição de um crescimento movido a recursos abundantes, com trabalho e capital de baixo custo, para crescimento movido a produtividade.”  A produtividade do agronegócio brasileiro não é elevada?

Caso a Ásia escape da armadilha, prevê o estudo, a sua participação no PIB mundial será de cerca de 51%. Mas no cenário em que países importantes da região fiquem estagnados na renda média, a fatia asiática cairia para 32%. A diferença de crescimento entre o cenário otimista e o “latino-americano” equivale a 3 bilhões de pessoas de fora ou não da linha de pobreza.

O exemplo de país bem-sucedido é a Coreia do Sul. País mais pobre do que o vizinho do norte até 1953, quando ocorreu a Guerra da Coreia. Hoje, tem uma das maiores rendas per capita da região, após forte investimento em educação e ampliação do mercado consumidor e dos serviços.

Tudo isso faz parte dos objetivos para os próximos cinco anos da China, país que, após anos de crescimento médio anual a 10%, baseado fortemente no modelo exportador, agora planeja desacelerar, dar um salto tecnológico e aumentar a renda dos trabalhadores.

Para não repetir os latino-americanos, o Relatório enumera várias medidas:

  • forte investimento em inovações científicas e tecnológicas,
  • treinamento de uma força de trabalho altamente capacitada,
  • construção de instituições confiáveis e previsíveis para proteção dos direitos,
  • melhoria das relações entre o Estado e o público.

“A qualidade da comunicação e o respeito entre os que governam e os que são governados se tornarão cruciais na medida em que as mídias sociais e outros instrumentos se tornarem disponíveis ao público.”

Essas “visões continentais” são muito parciais, pois fazem diagnóstico genérico para Países muito diferentes em termos de recursos produtivos e demográficos. Embora seja ainda considerado “país em desenvolvimento”, a população da China está envelhecendo, rapidamente, gerando problemas sociais comuns às nações mais ricas da Ásia, como Japão e Coreia do Sul.

A mudança demográfica terá forte impacto na economia por meio de aumento dos salários e redução do ritmo de crescimento. A falta de trabalhadores rurais, que se tornaram emigrantes, desde 2004, não é pontual, mas o sinal de um grande divisor de águas. Essa tendência de transformação é muito distinta do que se viveu na América Latina nos anos 80 e 90.

O Censo 2010 chinês revelou redução de 6,3 pontos percentuais na população que tem até 14 anos, enquanto os chineses maiores de 60 anos aumentaram 3 pontos percentuais, chegando a 13,3% dos habitantes. Diz economista apressado que “a China já está entrando em etapa na qual os salários começam a subir, rapidamente, devido à falta de mão de obra. Os riscos são o aumento da pressão inflacionária e a diminuição do crescimento”.

Não se trata de “etapa de desenvolvimento” como supostamente teria ocorrido em países latino-americanos. Lá essa rápida mudança da pirâmide etária foi fruto da “política de filho único” e não do “bônus demográfico” que atualmente vive o Brasil.

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