Weltanschauungswissenschaft e a Escola Austríaca

Segundo Joseph Schumpeter (1883-1950), no final do seu livro póstumo “História da Análise Econômica” (1954: 475 – Vol. III), “a Economia, como a Filosofia, e diferentemente da Física, é uma Weltanschauungswissenschaft, isto é, uma ‘ciência’ relativa à pesquisa e ao ensino, e como tal necessariamente não prescinde da lealdade e da crença ilimitada do pesquisador ou do professor”. Ele afirma isso quando trata da Economia nos países totalitários na época da II Guerra Mundial: Alemanha, Itália e Rússia. No caso germânico, como a República do Weimar (1918-32) estabeleceu, os governos deviam ceder cada vez mais à exigência dos partidos políticos de que as indicações para os Departamentos Econômicos nas Universidades estatais levassem em conta a tendência política do candidato.

O regime Nacional-Socialista levou ao limite essa tendência. Ele foi intolerante não apenas para com as críticas às suas políticas, mas também com qualquer sintoma de falta de simpatia para com a filosofia do Partido Nazista. Favorecia os membros do Partido e espezinhava os judeus. Aos que não insistiam a respeito de profissões de fé, o regime saudava com prazer.

“O grupo de Viena, sob a liderança do Professor Ludwig Von Mises, embora mantivesse uma individualidade vital, entrou em relações mais íntimas do que em qualquer oportunidade anterior com o restante dos economistas alemães e, assim, ficou em posição de defender suas próprias doutrinas características” (Schumpeter, 1954: 474).

Schumpeter, na verdade, não trata das literaturas econômicas “totalitárias”, justificando-se por tais obras pertencer à linha de uma filosofia “totalitária” ou “mesmo pretender servi-la e implementá-la”. É a razão principal para deixá-las de lado. Em si mesmas, porém, foram excluídas as várias filosofias totalitárias não porque fossem “totalitárias”, mas porque eram “filosofias”, isto é, especulações  que extravasavam a esfera da ciência empírica. Para isto, ele faz a distinção entre Economia Analítica e Economia Política.

De acordo com a visão schumpeteriana, a Ciência Econômica é um arsenal de ferramentas teóricas que você tem de aprender a manusear antes de poder manifestar qualquer opinião sobre sua utilidade ou não. A familiaridade com os instrumentos teóricos, que só advém com treinamento árduo e longa experiência, é pré-requisito tanto para formar alguma opinião sobre essa teoria como para se poder fazer qualquer coisa com ela.

O economista tem que praticar a teoria econômica, ou seja, a arte de construir e utilizar conceitos e teoremas e apreender fatos através deles. O estudo de Economia não se trata somente de aprender modelos teóricos e os acrescentar à lista de teorias que já conhece. “O que se deve aprender é como trabalhar com elas, analisar situações concretas e resolver problemas com as mesmas. Se isto não é feito, essas teorias permanecem sem vida e estéreis” (SCHUMPETER, Joseph A. A atitude mental e o equipamento científico do economista moderno. Literatura Econômica. Rio de Janeiro, IPEA-INPES, 6(3): 333-346, 1984. p. 341).

A Escola dos chamados Economistas Austríacos modernos toma como patronos Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Foram inspirados pelo ataque de Hayek ao “ciencismo” ou monismo metodológico, ou seja, um único critério para julgar todas as ciências: levantamento de hipótese – testes empíricos – falseamento e descarte da hipótese – substituição por outra hipótese. Porém, a inspiração mais direta foi a obra de Mises, Human Action: A Treatise on Economics (1949). Nela, ele anuncia a praxeology, a teoria geral da ação racional, de acordo com a qual a admissão da ação individual propositada é pré-requesito absoluto para se explicar todo o comportamento, incluindo-se o econômico, constituindo um princípio a priori que fala por si próprio. Refletia a profunda antipatia que Mises nutria pelo positivismo lógico. Princípios a priori sintéticos são proposições que se referem ao mundo real, porém que são independentes e anteriores à experiência.

Os enunciados de Mises de apriorismo radical são tão intransigentes que têm que ser lidos analisando a arte de sua retórica, para que se possa acreditar que ele tenha discípulos. “O que confere à Economia sua posição única e peculiar na órbita do conhecimento puro e da utilização prática do conhecimento é o fato de que seus teoremas específicos não são abertos a nenhuma verificação ou falsificação com base na experiência […] a última medida de correção ou incorreção de um teorema econômico é apenas a razão sem a ajuda da experiência” (Mises, 1949: 55-56).

Segundo Mark Blaug, juntamente com o apriorismo radical segue uma insistência no que Mises chama de dualismo metodológico, a disparidade essencial de abordagem entre ciência social e natural, baseada na doutrina Verstehen, e a rejeição radical de qualquer tipo de quantificação, seja das premissas, seja das implicações de teorias econômicas” (Blaug, Mark. A Metodologia da Economia. São Paulo, EDUSP, 1993: 129).

Essa noção de que até mesmo a verificação de suposições é desnecessária na Economia constitui o estigma da Escola Austríaca. Coloca em suspeita todos os agregados macroeconômicos como renda nacional ou Índice Geral dos Preços. Desaprova o teste quantitativo de previsões econômicas. Rejeita categoricamente algo como Economia Matemática ou Econometria. Possui a crença de que se aprende mais por meio do estudo de como os processos do mercado livre convergem para suposto equilíbrio do que por meio da análise sem fim das propriedades dos estados vigentes.

Essa atitude antiempírica é completamente estranha à exigência de medição existente em qualquer ciência. Os escritos de Mises sobre os fundamentos da Ciência Econômica são tão idiossincráticos e dogmaticamente enunciados que Mark Blaug tem até dúvida que tenham sido levados a sério por alguém. Infelizmente, são muitos os cegos pela paixão do livre mercado.

2 thoughts on “Weltanschauungswissenschaft e a Escola Austríaca

  1. Não sou aluno de economia mas tenho certo interesse pelo assunto, comprei essa semana o livro Ação Humana do Mises, agora começo a me perguntar se esse foi um passo na direção certa. Leio mais conteúdo de fora, e lá parece que existe uma aceitação muito maior do que aqui. Começarei a frequentar o blog.

    1. Prezado João,
      é isto aí, Von Mises agrada mais aos europeus idolatras do livre-mercado. Em países onde tem de se tirar o atraso histórico, a presença do Estado indutor e regulador é mais imprescindível do que na Europa. Mas lá tem de se defender o Estado de Bem-Estar Social, que os mercadistas querem destruir.
      att.

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