Samba

O samba é um gênero musical, de onde deriva determinado tipo de dança, de raízes africanas, surgido no Brasil, e considerado uma das principais manifestações culturais populares brasileiras. Segundo a Wikipedia (e outras fontes), dentre suas características originais, está uma forma onde a dança é acompanhada por pequenas frases melódicas e refrões de criação anônima. Estes são alicerces do samba de roda nascido no Recôncavo Baiano e levado, na segunda metade do século XIX, para a cidade do Rio de Janeiro pelos negros que trazidos da África e se instalaram na então capital do Império. O samba de roda baiano foi uma das bases para o samba carioca.

Apesar existir em várias partes do país, especialmente nos Estados da Bahia, do Maranhão, de Minas Gerais e de São Paulo, sob a forma de diversos ritmos e danças populares regionais que se originaram do batuque, o samba como gênero musical é entendido como uma expressão musical urbana do Rio de Janeiro, onde esse formato de samba nasceu e se desenvolveu entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Foi no Rio de Janeiro, antiga capital do Brasil, que a dança praticada pelos escravos libertos entrou em contato e incorporou outros gêneros musicais tocados na cidade (como a polca, o maxixe, o lundu, o xote, entre outros), adquirindo caráter totalmente singular. Desta forma, ainda que existissem diversas formas regionais de samba em outros partes do país, o samba carioca urbano saiu da categoria local para ser alçado à condição de símbolo da identidade nacional brasileira durante a década de 1930.

Um marco dentro da história moderna e urbana do samba ocorreu em 1917, no próprio Rio de Janeiro, com a gravação em disco de “Pelo Telefone”, considerado o primeiro samba a ser gravado na Brasil, segundo os registros da Biblioteca Nacional. A canção tem a autoria reivindicada por Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, com co-autoria atribuída a Mauro de Almeida, um então conhecido cronista carnavalesco. “Pelo Telefone” foi a primeira composição a alcançar sucesso com a marca de samba e contribuiria para a divulgação e popularização do gênero. A partir daquele momento, esse samba urbano carioca começou a ser difundido pelo país, inicialmente associado ao carnaval e posteriormente adquirindo um lugar próprio no mercado musical. Surgiram muitos compositores como Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Pixinguinha e Sinhô, mas os sambas destes compositores eram amaxixados, conhecidos como sambas-maxixe.

Os contornos modernos desse samba urbano carioca viriam somente no final da década de 1920, a partir de inovações em duas frentes: com um grupo de compositores dos blocos carnavalescos dos bairros do Estácio de Sá e Osvaldo Cruz e com compositores dos morros da cidadem como em Mangueira, Salgueiro e São Carlos. Não por acaso, identifica-se esse formato de samba como “genuíno” ou “de raiz“. A medida que o samba no Rio de Janeiro consolidava-se como expressão musical urbana e moderna, ele passou a ser tocado em larga escala nas rádios, espalhando-se pelos morros cariocas e bairros da zona sul do Rio de Janeiro. Inicialmente criminalizado e visto com preconceito, por suas origens negras, o samba conquistaria também o público de classe média.

O termo samba por muito tempo aplicou-se a quase todo tipo de festa popular animada por música e dança. O samba que Noel Rosa compôs era aquele nascido nos morros, definido no bairro do Estácio e espalhado pelas comunidades negras em torno das quais surgiriam as Escolas de Samba. Diferia em forma e conteúdo do samba que tinha na Cidade Nova seu berço.

O samba da região em torno do Canal do Mangue (o mesmo que divide o início da atual Avenida Presidente Vargas no Rio de Janeiro), mais os bairros próximos da Zona Portuária (Gamboa, Saúde, Santo Cristo, Campo de Santana), tinha origem baiana, dos negros iorubanos que se deslocaram para o Rio em fins do século XIX. Ali, na Pequena África, onde se viviam as lendárias “tias baianas” e aconteciam suas festas, a música era dançante, sincopada, de versos em geral improvisados, com ritmo nitidamente afro combinado a elementos musicais vindos da mazurca, da polca, da habanera e de outros gêneros europeus.

Outro tipo de samba nasce e evolui a partir dos morros, ocupados depois da extinção da escravidão por descendentes bantos egressos do Vale da Paraíba. Mais lento, de frases melódicas mais longas, um certo acento nostálgico, não para dançar, mas para cantar em rodas ao pé do barraco. “Quando a polícia dava mole”, cantavam-no nos blocos que desfilavam no mês de fevereiro. Os sambistas surgidos naquela região, o Morro de São Carlos, eram intuitivos, autodidatas do violão ou cavaquinho. Foram eles que deram forma ao samba carioca, no ritmo e na essência. Mestres itinerantes o levaram para outros morros e bairros da cidade. Foi nesse segundo tipo de samba que Noel Rosa se inspirou.

O samba moderno urbano surgido a partir do início do século XX tem ritmo basicamente 2/4 e andamento variado, com aproveitamento consciente das possibilidades dos estribilhos cantados ao som de palmas e ritmo batucado, e aos quais seriam acrescentados uma ou mais partes, ou estâncias, de versos declamatórios. Tradicionalmente, esse samba é tocado por instrumentos de corda (cavaquinho e vários tipos de violão) e variados instrumentos de percussão, como o pandeiro, o surdo e o tamborim. Por influência das orquestras norte-americanas em voga a partir da Segunda Guerra Mundial, e pelo impacto cultural da música dos EUA no pós-guerra, passaram a ser utilizados também instrumentos como trombones e trompetes, e, por influência do choro, flauta e clarineta.

O samba é tocado basicamente por instrumentos de percussão e acompanhado por instrumentos de corda. Em vertentes como o samba-exaltação e o samba-de-gafieira, foram acrescentados instrumentos de sopro.

Com o passar dos anos, surgiram mais vertentes no seio desse samba “nacional” urbano carioca, que ganharam denominações próprias, como o samba de breque, o samba-canção, a bossa nova, o samba-rock, o pagode, entre outras.

Depois de “período de esquecimento”, onde as rádios eram dominadas pela disco music e pelo rock brasileiro, o samba consolidou sua posição no mercado fonográfico na década de 1980. Compositores urbanos da nova geração ousaram novas combinações, como o paulista Itamar Assumpção, que incorporou a batida do samba ao funk e ao reggae em seu trabalho de cunho experimental.

Mas foi no início da década de 1980 que o samba reapareceu no cenário brasileiro com um novo movimento, chamado de pagode. Com características do choro e andamento de fácil execução para os dançarinos, o pagode é basicamente dividido em duas tendências. A primeira delas é mais ligada ao partido-alto, também chamada de pagode de raiz, que conservava a linhagem sonora e fortemente influenciada por gerações passadas. A segunda tendência, considerada mais popular, ficou conhecida como pagode-romântico e passou a ter grande apelo comercial na década de 1990 em diante.

Nascido no final da década anterior, por meio das rodas de samba que um grupo de cantores e compositores faziam embaixo da tamarineira da quadra do Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos, o pagode era samba renovado. Ele utilizava novos instrumentos, que davam sonoridade peculiar àquele grupo, como o banjo com braço de cavaquinho e o tantã, e uma linguagem mais popular.

Pontuado pelo banjo e pelo tantã, o pagode seria resposta ao ocaso do samba no início dos anos oitenta, que teria obrigado os seus seguidores a se reunirem em fundos de quintal para mostrar suas novas composições diante de platéia de vizinhos. Este ramal do samba, movido a partido-alto, revelaria inicialmente nomes como Almir Guineto, Jorge Aragão, Jovelina Pérola Negra e Zeca Pagodinho, o único que se firmaria ao fim da onda inicial, além do Grupo Fundo de Quintal. Também partideiro, da década anterior, Bezerra da Silva emplacaria seus chamados sambandidos, canções com enredos que documentavam a “guerra civil da cidade partida” com linguagem dos morros dominados pelo tráfico de drogas.

Esse pagode, cujo auge mercadológico verificou-se exatamente em 1986, teve como mola mestra estética a ampla exposição e revalorização do partido-alto, modalidade de samba, até então de pouquíssima visibilidade. Assim, as rodas de samba de fundos de quintal revelaram ou confirmaram o talento de muitos bons versadores, cultores da velha arte.

Saindo da curtição exclusivamente suburbana, os pagodes, tanto a festa, com suas comidas e bebidas, quanto o novo estilo, se tornaram moda também nos bairros da zona sul do Rio e em diversos localidades do Brasil. O ímpeto aos poucos diminuiu, com a consequente queda de poder aquisitivo do seu maior público consumidor – as classes menos abastadas. Mas logo, nova modalidade desse subgênero, bem mais comercial e desvinculada das raízes, passaria a ser conhecida como pagode.

No início dos anos noventa, a indústria fonográfica, já amplamente orientada para a globalização pop, usurpou o termo pagode, batizando com ele uma forma diferente de fazer samba que guardava poucos elementos com o samba inovador da década anterior, massificando-o de forma enganosa. Essa diluição partia majoritariamente da cidade de São Paulo, o que engendrou o rótulo equivocado de pagode paulista. Seus principais arautos foram os músicos de um grupo que, inclusive, segundo as edições em partitura de seus primeiros lançamentos, pretendia estar fazendo o que se chamava de samba-rock, mas na verdade eram mais uma variação mais pop do samba-rock. Assim, as grandes gravadoras criaram novo tipo de pagode, que muitos chamariam de pagode-romântico ou simplesmente tachado de “pagode-comercial“.

Vertente mais distanciada do pagode de raiz do final dos anos setenta, esse pagode romântico se tornaria fenômeno comercial, com o lançamento de dezenas de artistas e grupos paulistas, mineiro e carioca, entre os quais, Art Popular, Exaltasamba, Harmonia do Samba, Só Pra Contrariar, entre outros. Sua massificação nas emissoras de rádios e TVs ajudou a melhorar a arrecadação de direitos autorais e fez com que as músicas norte-americanas ficassem em segundo lugar em arrecadação durante aquela década, algo inédita no Brasil. Apesar disso, este tipo de pagode desagrada grande parte da crítica musical, que questiona especialmente a qualidade das músicas.

Ainda nos anos noventa, apareceram mais duas fusões de samba com outros gêneros musicais. O primeiro deles foi o samba-rap, criado nas favelas e presídios paulistanos e cariocas. O outro foi o samba-reggae, este surgido a partir de manifestação de grupos baianos, cariocas e paulistas em modificar o pagode tradicional e o transformar em samba suingado.

Na Tropicalização Antropofágica Miscigenada não há pureza étnica nem musical. É bobagem cobrar isso…

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