Ensino Superior: Renda e Emprego

Arícia Martins (Valor, 27/05/2011) parte da análise do “lugar comum” que afirma que “ter ensino superior é sinônimo de salário melhor”. Pensa-se mais nisso do que ter mais conhecimento ou valores culturais. Ganha-se maior status social ao conseguir algum diploma. Essa realização estimula aos familiares a também fazer faculdade, porque passam a enxergar a maior possibilidade de alcançar estabilidade no emprego. Há concursos públicos que exigem nível superior.

A população ocupada com 11 anos ou mais de estudo representava 59,2% dos empregados em 2010, nas seis regiões metropolitanas analisadas pela Pesquisa Mensal do Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2003, pessoas com essa escolaridade representavam 46,7% da população empregada. Dentro desse grupo, o número de pessoas com nível superior cresceu 54% entre 2003 e 2010.

Dados do IBGE mostram, no entanto, que o rendimento médio real dos ocupados com diploma superior cresceu apenas 0,3% no mesmo período nas regiões analisadas pela PME: Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Ao mesmo tempo, o ganho médio da população ocupada em geral avançou 19%, de R$ 1.252,48 em 2003 para R$ 1.490,61 em 2010, descontada a inflação do período.

A estagnação da renda de trabalhadores com nível superior foi puxada por São Paulo, onde a remuneração média real caiu 6,6% no período. Mesmo assim, a renda do paulistano com faculdade, de R$ 3.690,88 em 2010, ainda é a maior do segmento entre as seis regiões metropolitanas da PME. Em outras palavras, ela não cresceu em termos reais, até caiu no caso de São Paulo, mas ainda é mais do que o dobro do que a média geral.

A expansão do ensino superior, provocada pela maior oferta de cursos em redes privadas e programas governamentais como o ProUni, e o consequente retardamento da entrada de jovens na População Economicamente Ativa (PEA) aumentaram a oferta de mão de obra qualificada. Devido à lei da oferta e demanda, puxaram o salário desse profissional para baixo, já que a remuneração do primeiro emprego tende a ser inferior.

Apesar disso, é consenso que o diploma será cada vez mais o que já é atualmente: uma exigência de acesso ao mercado de trabalho. Portanto, aumenta a possibilidade de no futuro obter renda melhor.

É positivo, para a desconcentração da renda no País, que as pessoas com educação superior estão tendo ganho de renda menor em termos de taxa de crescimento. Dados de pesquisa do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (CPS-FGV) que cruza informações da PME com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), também feita pelo IBGE, conclui que esse dado tem seu lado positivo: a desigualdade no país está caindo, enquanto em outros países, ela está aumentando. Descontada a inflação, a renda dos 50% mais pobres avançou 52,59% no Brasil entre 2001 e 2009, ao passo que a renda dos 10% mais ricos aumentou apenas 12,8% no mesmo período. Todas as desigualdades estão caindo, e o que está por trás disso é a educação.

A estagnação nos salários da população com nível superior não é homogênea. Há carreiras com excesso de oferta, como administradores e advogados, que puxam os salários para menor ritmo de crescimento, enquanto profissões mais demandadas impulsionam a média da remuneração para cima, contrabalançando a queda na outra ponta. Em regiões interioranas, por exemplo, não há oferta de médicos. São oferecidos salários altíssimos e as pessoas não querem ir para lá.

Outro fator que pode estar trazendo os salários de graduados para menor crescimento é o aproveitamento dessas pessoas em vagas menos qualificadas, já que elas não encontram colocação na área onde se formaram, o que também é reflexo da oferta excessiva de alguns profissionais. Praticamente 80% das vagas que estão sendo criadas exigem ensino médio completo para cima, o que virou barreira no mercado de trabalho. Muitas vezes, o empregador prefere contratar alguém com nível superior, mesmo que a colocação não exija diploma, porque, em tese, um graduado teria recursos maiores para apreender mais rápido os conhecimentos necessários à sua função.

Por outro lado, caso esse profissional recuse esse posto menos qualificado, pode acabar ficando desempregado. Isso pode explicar porque as pessoas com 11 anos de estudo ou mais têm cada vez mais peso na população sem emprego. Em abril de 2011, elas representavam 59% da população desocupada. Em 2003, 39,8% dos desempregados tinha esse nível de escolaridade. Com a ascensão das classes C e D, a demanda que está aumentando é por empregadas domésticas, motoristas, além da construção civil, e com o salário mínimo aumentando, o rendimento dessas pessoas cresce mais em relação com o daqueles que possuem nível superior.

Apesar da menor remuneração inicial, os dados do IBGE mostram que o diploma superior garante maior participação no mercado de trabalho. Em 2010, 78,9% da população em idade ativa com curso superior estava trabalhando. Para o grupo de escolaridade média (oito a dez anos), o nível de ocupação estava em 50,4%.

Mapear quais profissões terão maior procura ou excesso de oferta no futuro deveria ser responsabilidade da política pública. Há muitos jovens que estão se formando no curso superior, mas não conseguem emprego. O ideal seria ter política educacional que relacionasse crescimento da economia e educação profissional.

Como exemplo, o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos, que publica a cada dois anos o “Occupational Outlook Handbook” (OOH, algo como guia de perspectivas de emprego, em português), disponível no site do órgão em inglês e em espanhol. Nele, há sistema de busca por profissões no qual o jovem pode consultar as características da ocupação que procura, as competências necessárias para exercê-la, quantas instituições no país oferecem o curso desejado, qual o salário médio da profissão, além de projeções sobre a demanda futura desse profissional. O Ministério do Trabalho e Emprego tem em seu site o Cadastro Brasileiro de Ocupações. O guia, contudo, só fornece a definição para cada profissão, sem maiores detalhamentos.

O país não dispõe de alguns instrumentos para fazer algo como o guia americano aqui, tais como o cruzamento de produção e emprego. Mas algumas iniciativas estão sendo feitas. A Fundação Seade deve colocar no ar, até o fim do ano, um portal de ocupações para o Estado de São Paulo em parceria com a Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho (Sert).

Veja:

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