A Taxa de Juro Natural e a Amazônia

O leitor pode estranhar a classificação de Antonio Delfim Netto (Valor, 21/06/2011), professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento no regime militar, entre os economistas desenvolvimentistas. Na verdade, nos anos 50, antes do regime militar, ele se colocava entre eles. Depois, ele se tornou o czar da Economia, durante a ditadura, e ganhou rejeição de toda a esquerda. Surpreendentemente, nos Governos Lula e Dilma, seus artigos e consultorias a ambos Presidentes levam a crer que essa classificação tornou-se mais justa, por mais que ele próprio a ironize. Na abertura de palestra do Delfim no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas ele confessou: “Estou muito preocupado… A esquerda quer me carregar nos ombros! Eu sou muito gordo…

Continue reading “A Taxa de Juro Natural e a Amazônia”

O Homem ao Lado

Na Polônia, na era da União Soviética, um garoto pergunta: “Papai, a Rússia é um país-amigo ou país-irmão?” Seu pai responde: “Filho, país-irmão, pois amigo a gente escolhe…”

Extrapolo essa lição para outros personagens de nossa vida. Colegas e vizinhos são inevitáveis como os parentes: a gente não escolhe.

Continue reading “O Homem ao Lado”

Uma Música, Várias Versões: I Put A Spell On You

Uma música entre as mais gravadas do universo pop-rock-soul e até jazzístico é “I Put a Spell on You“, gravada originalmente em 1956 por Screamin’ Jay Hawkins. A canção começa como uma balada sobre a perda de um amor, mas termina transformando-se em violento rock no qual Hawkins reclama a posse de sua mulher. A intenção dele era converter “I Put a Spell on You” em balada tipo blues, porém o próprio autor declarou que o produtor converteu a sessão de gravação em festa, onde o álcool teve bastante influência na selvagem versão que terminou se convertendo em clássico.

Continue reading “Uma Música, Várias Versões: I Put A Spell On You”

Democracia Possível

Segundo Cristina Buarque de Hollanda, em seu livro recém lançado Teoria das Elites, a obra política de Robert Dahl (1915- ), autor de Poliarquia: Participação e Oposição, publicado em 1971, soma-se ao exercício de conciliação entre elites e democracia. Diferentemente de Schumpeter, no entanto, Dahl não se dedica à condenação da democracia clássica, entendida como regime de plena e contínua prestação de contas do governo aos cidadãos. Dada a natureza utópica desta, distante das reais possibilidades de configuração da política, no entendimento de Dahl, os homens devem enxergar a democracia possível como princípio moral regulador. Entre os padrões da política real e a ideal não há, assim, relação de antagonismo. As várias formas de organização da política deverão ser avaliadas conforme a maior ou a menor proximidade com relação ao “sistema hipotético” da democracia.

Continue reading “Democracia Possível”

Sucesso econômico criou novos problemas

Luiz Carlos Mendonça de Barros (Valor, 17/06/2011) é engenheiro que atua como estrategista no mercado financeiro. Não se aventura em abstrações teóricas, permanecendo no plano da análise conjuntural, baseada em evidências empíricas. O que lhe interessa é o “aqui e agora”. Para a tomada de decisões financeiras práticas é importante datar e localizar o objeto do que se está tratando. Esta é a arte da Economia praticada pelos homens de negócios.

Continue reading “Sucesso econômico criou novos problemas”

Elitismo Democrático

Na última fase da obra de Gaetano Mosca, como é apresentado por Cristina Buarque de Hollanda em seu livro recém lançado Teoria das Elites, o elitismo faz concessão à representação política. A democracia, quando bem conduzida pelas elites, constitui força antifascista. De acordo com Vilfredo Pareto, a abertura do sistema de elites à renovação poderá preservar a estabilidade e a liberdade na política. Sem abolir a distinção essencial entre minorias governantes e maiorias governadas, esses autores da Teoria das Elites passam a enxergar a representação como instrumento potencial de modificação lenta, contínua e oportuna das classes governantes, desde que os grupos no poder saibam assimilar das massas os seus homens talentosos e ambiciosos. Essa percepção conduz à ressignificação da democracia: passa de ameaça à garantia da classe governante.

Continue reading “Elitismo Democrático”

A longa travessia para a normalidade: juros reais no Brasil

Ilan Goldfajn (Valor, 27/06/2011) lembra que, em 2002, a comunidade internacional duvidava que a dívida pública brasileira seria paga. Goldfajn, então diretor do Banco Central do Brasil, escreveu texto em que argumentava que não havia razões econômicas para essa dúvida e que a trajetória da dívida futura até o distante ano de 2011 seria declinante. Deve ter sido um dos textos mais contestados (e o mais lido) da sua carreira. Porém, com a mudança de governo, a economia brasileira teve década de sucesso econômico e a dívida declinou de 63%, no final de 2002, para em torno de 43% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2011.

Quando, em outubro de 2002, a taxa de câmbio chegou a cerca de US$ 4 por real, Goldfajn teve a coragem de projetar câmbio mais apreciado, manutenção dos superávits fiscais primários, crescimento razoável, e juros menores. Tudo mais ou menos em linha com o que ocorreria no Governo Lula.

Mesmo com esse sucesso, ele lamenta que os juros reais no Brasil ainda permanecem acima do padrão internacional, inclusive de países de similar desenvolvimento. Essa sua comparação entre territórios nacionais não deve deixar de perceber a dimensão da mudança temporal: os juros reais caíram muito em relação aos patamares do passado.

Continue reading “A longa travessia para a normalidade: juros reais no Brasil”