Agentes de Microcrédito

Felipe Marques (Valor, 30/06/2011) informa que a busca dos bancos por microempreendedores no Sul e no Sudeste pode ajudar a transformar a geografia do microcrédito, hoje concentrada no Nordeste. Essa não deve ser, porém, a única mudança que o setor deve assistir nos próximos anos. Há a opinião de que a entrada de novos participantes vai dinamizar o mercado de microcrédito do Brasil. Entre os novos participantes que devem ingressar no mercado de microcrédito brasileiro está o Mibanco, do Peru. Com experiência em microfinanças no país andino, a instituição já pediu licença ao Banco Central para atuar no Brasil.

Os novos participantes são atraídos pelo potencial de crescimento do microcrédito no país. As aplicações totais para o pequeno empreendedor cresceram cerca de 45% entre abril de 2010 e 2011, mais ainda exibem saldo tímido, de R$ 1,1 bilhão, último dado do BC. O desembolso mensal vem aumentando progressivamente. Para se ter ideia, em abril de 2008 foram contratados R$ 92,6 milhões. Em abril de 2011, o valor desembolsado foi de R$ 255,4 milhões.

 

Outra mudança importante deverá vir da presença mais agressiva de bancos públicos, como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil, nos pequenos empréstimos, demanda direta da presidente Dilma Rousseff. A vitória do Banco do Brasil (BB) no leilão do Banco Postal, dos Correios, é importante ferramenta para essa expansão. O BB deve incorporar no Banco Postal a sua operação de microcrédito. É questão lógica, já que as agências dos Correios estão perto dos possíveis tomadores. O Banco do Brasil não quis comentar o assunto.

 

Além de incentivar a participação dos bancos estatais, o governo pode provocar outras mudanças no setor. Encontro no Banco Central reuniu reguladores com os representantes do setor de principais bancos do país. Na pauta estavam melhorias que poderiam ser feitas na regulamentação do microcrédito. Os participantes não entram em detalhes sobre a discussão, mas em linhas gerais diz que há a intenção de se criar modalidades diferentes para os pequenos financiamentos.

 

O próprio Santander já tem produto que pode dar ideia do que se planeja. É linha de crédito para pequenos empreendedores aplicarem exclusivamente em capital fixo.

 

A primeira coisa que Marcelo Lacerda, supervisor de agentes de microcrédito do Itaú, procura na hora de conceder empréstimo é a brochura de arame. “Eu sempre vou atrás do caderninho”, diz. “Quero ver se a pessoa controla o quanto vende e o quanto gasta com o negócio no mês. Eu sempre olho também o fiado.”

Buscar os caderninhos que fazem as vezes de contabilidade dos clientes é apenas um dos critérios que os bancos precisam adotar na hora de conceder empréstimos para microempreendedores. Com a alta informalidade dos negócios, fica difícil usar as ferramentas tradicionais para medir o risco de inadimplência. Por isso, mais do que olhar apenas o faturamento mensal, a concessão de microcrédito depende de critérios inventivos.

O agente de microcrédito precisa entender o cliente como pessoa, não apenas como representante do banco. Além de avaliar a contabilidade dos caderninhos e as notas fiscais dos fornecedores, outro expediente bastante utilizado é buscar opinião dos comerciantes vizinhos. Os agentes de crédito sempre vão ao sorveteiro e à pizzaria mais próxima perguntar se o cliente é bom pagador.

As visitas constantes ao próprio estabelecimento também entram na rotina do agente de crédito. Esse profissional acompanha os clientes de perto, desde a prospecção, a aprovação do crédito, até a pontualidade dos pagamentos. O objetivo é diferenciar os que querem dos que sabem empreender.

Diferentemente do que fazem com os financiamentos tradicionais, os bancos batem na porta do cliente que não paga algum empréstimo quase que imediatamente após o atraso. Às vezes, cobra até na véspera. Dívida cobrada antes é paga primeiro. Com esse tipo de prática, a inadimplência após 60 dias se limita a 1%, abaixo dos atrasos observados nas carteiras tradicionais de financiamento ao consumo.

O gerente da agência do Banco do Brasil em Paraisópolis diz que as operações de microcrédito exigem mais jogo de cintura. “Aqui em Paraisópolis, nós precisamos nos adaptar ao cliente”. Entre as adaptações, ele cita justamente o contato mais pessoal com o tomador. “Faz parte do nosso processo de avaliação de crédito tomar um café com o cliente ou almoçar no restaurante dele”.

O restaurante em questão fica logo em frente à agência de Paraisópolis, num espaço que Joel dos Santos montou com empréstimo que fez no banco. Antes de pegar o crédito, no valor de R$ 5 mil, Joel já era dono de um boteco. Hoje, é a filha, Joélia, quem cozinha e administra o restaurante enquanto ele e o filho, Joelson, cuidam do bar.

Joel veio de Pernambuco e está há 16 anos em Paraisópolis. Trabalhava na construção civil antes de descobrir o tino para os negócios. O plano agora é tomar mais um empréstimo para comprar a casa de trás e expandir o restaurante. “Meu sonho é abrir uma pizzaria para minha filha cuidar. A menina tem jeito pra negócios”, ele conta, todo orgulhoso.

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