Entrevista de Fernando Limongi sobre Política Brasileira

Maria Cristina Fernandes (Valor – Eu & Fim de Semana, 05/08/2011) entrevistou Fernando Limongi, 53 anos, Professor Titular de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que presidiu de 2001 a 2005. Ele levanta hipóteses originais para o debate político, contrariando o lugar-comum. No tempo em que se dizia que o país precisava de reforma política para se tornar governável, Fernando Limongi publicou o livro – “Executivo e Legislativo na Nova Ordem Constitucional” (1999) – mostrando voto a voto que o Executivo não tinha embaraços em formar maioria. Quando o debate passou a ser dominado pela fisiologia paralisante das comissões de Orçamento, novo livro, também em parceria com Argelina Figueiredo – “Política Orçamentária no Presidencialismo de Coalizão” (2008) – mostrava que as emendas comprometem migalhas do investimento e que, ao rifá-las da lei orçamentária, se arriscava a empobrecer a representação. Agora, Limongi não aceita a tese de que a amplitude da base aliada é a raiz dos problemas da presidente Dilma Rousseff nem que seu governo começa sob mais turbulência que os precedentes.

Em entrevista ao Valor, afirma que a maior novidade da conjuntura política brasileira é a unidade do PMDB, mas ainda se confessa aturdido pela tendência de fragmentação do quadro partidário que acreditava estar em processo de reversão. Diz que a crise política por que passa o governo Barack Obama revela uma crise decisória no sistema político americano que não deveria servir de inspiração para nenhuma das democracias emergentes. Lança uma provocação aos compatriotas que não conseguem enxergar nenhum outro país mais corrupto que o Brasil: “Não há como medir a corrupção. Todos os indicadores são baseados em percepção que é um nome bonito para ‘pré-conceito‘. É possível obter uma correlação quase perfeita entre índices desse tipo e pigmentação da pele. Os países africanos em geral aparecem como os mais corruptos e os escandinavos como os menos”.

Por sua importância para o debate, e para conhecimento de quem não tem acesso ao Valor, a seguir, a entrevista na íntegra:

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Saul Steinberg: As Aventuras da Linha

Passei um tempo bem divertido quando visitei, no Centro Cultural do Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro, a exposição Saul Steinberg: as aventuras da linha, com 111 desenhos do consagrado artista gráfico, a maior parte deles pertencentes ao acervo da The Saul Steinberg Foundation. A mostra, organizada em parceria com a Pinacoteca do Estado de São Paulo, tem curadoria da historiadora Roberta Saraiva e apresenta obras produzidas por Steinberg entre as décadas de 1940 e 1960. Para essa exposição, 43 trabalhos foram restaurados.

Veja em Saul Steinberg: As Aventuras da Linha (tela cheia) obras que destacam o momento em que Steinberg se torna um artista internacional. Para isso, foram escolhidos trabalhos que fizeram parte de três importantes exposições: a primeira, Fourteen Americans, coletiva organizada pelo MoMA, em 1946; a segunda, uma mostra individual inaugurada em Nova York, em 1952, nas galerias Sidney Janis e Betty Parsons; e a terceira, uma exposição montada pelo Museu de Arte de São Paulo (Masp), também em 1952. Segundo a curadora Roberta Saraiva, “Aqueles que só conhecem o Steinberg da New Yorker ficarão surpresos com a exposição”.

Saul Steinberg ficou conhecido por, usando às vezes uma única linha, questionar em seus desenhos o papel das rotinas, a vida que levamos. A exposição revela ainda um pouco da lógica do trabalho do artista: o aspecto “serial” de sua criação. “Steinberg costumava trabalhar um tema ou motivo até esgotá-lo, produzindo longas séries de variações gráficas”, explica Roberta Saraiva. A mostra reúne, portanto, um número expressivo de cowboys, trens, monumentos fictícios, pássaros, gatos e bichos sem nome, mulheres em casacos de pele, desfiles, desenhos de arquitetura, bombardeios e falsos documentos (passaportes e diplomas com assinaturas ilegíveis, selos e carimbos que Steinberg colecionava).

Em Saul Steinberg: as aventuras da linha, também são expostos os desenhos murais que o artista criou para a Trienal da Milão, de 1954. São quatro desenhos em rolos de papel em formato ousado e proporções arquitetônicas que até então nunca foram expostos em conjunto: A linha, com 10 metros de comprimento, Tipos de arquitetura, com 7 metros, Litorais do Mediterrâneo, com 5 metros, e Cidades da Itália, com 3 metros. Todos possuem cerca de 45 cm de altura. Também integram a mostra dois trabalhos com inspiração brasileira: Pernambuco, uma mistura de personagens, bichos e motivos locais; e Grande Hotel de Belém, ambos realizados não propriamente no Brasil, mas a partir de desenhos de anotação e de cartões-postais colecionados por Steinberg durante uma viagem pelo país em 1952.

A exposição Saul Steinberg: as aventuras da linha ficará aberta ao público no IMS-RJ até 21 de agosto de 2011 e, no dia 3 de setembro, seguirá para a Pinacoteca do Estado de São Paulo.

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As Praias de Agnès

Assisti, no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro,  um belo filme biográfico, quer dizer, autobiográfico, da artista plástica e cineasta Agnès Varda, cujos filmes raramente são exibidos no circuito nacional. Além de dirigir o documentário, ela faz montagens maravilhosas e fala de sua vida em As praias de Agnès.

Esse é seu segundo filme biográfico exibido no Brasil. O primeiro foi Jane B. por Agnès V., exibido na Maison de France no Festival do Rio 2007. No seu novo trabalho, ela define-se e apresenta sua autobiografia documental:  “Se você abrir uma pessoa, irá achar paisagens. Se me abrir, irá achar praias”.

Através das praias que tanto marcaram sua vida, Varda revisita seu passado e mostra também os seus dias atuais.  Na sua linha do tempo vemos: a infância, o período como fotógrafa, o casamento com Jacques Demy (diretor e roteirista francês, p.ex., de Le Parapluies de Cherbourg), as lutas sociais dos anos 60’s, inclusive o antirracismo e o feminismo, as viagens, a família e os filmes da Nouvelle Vague. Com entrevistas, fotografias, reportagens e trechos de suas obras, ela nos leva a passeio afetivo pela história pessoal (e cultural) da cineasta que, aos oitenta anos, mantém sua curiosidade de jovem em relação ao mundo, além da solidariedade e afetividade com os velhos amigos. Varda recorda enquanto vive.

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