Sem Religião

Em discurso na última semana em Madri, o papa Bento 16 defendeu um “radicalismo cristão”, frente ao que ele considera uma “eclipse de Deus, um certo grau de amnésia, senão uma rejeição absoluta do cristianismo na sociedade”. “Diante do relativismo e da mediocridade, surge a necessidade deste radicalismo”, disse Bento 16 a jovens e professores universitários no Mosteiro de El Escorial. O papa ainda criticou a ciência sem limites e o totalitarismo político. Não auto criticou, na Igreja Católica, a riqueza e a pederastia, muito menos o fundamentalismo religioso. Por que?

No Rio de Janeiro, Estado que receberá em 2013 o papa na próxima edição da Jornada Mundial da Juventude, menos da metade da população (49,8%) se declara católica. É a segunda menor taxa em todo o Brasil, já que Roraima tem a menor, com 47%. O Rio apresenta também uma das maiores taxas de moradores sem religião (16%), atrás, de novo, apenas de Roraima (19%).

De 2003 a 2009, a queda na proporção de brasileiros que se dizem católicos, de 74% para 68%, ocorreu em todas as classes sociais. Ao mesmo tempo, aumentou a porcentagem dos sem religião em todos os grupos de renda. Esses são dados de estudo Novo Mapa das Religiões, divulgado pelo economista Marcelo Neri, da FGV, feito a partir da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), do IBGE.

A ascensão da nova classe média no país foi acompanhada pela redução do número de católicos, que chegou ao menor percentual já registrado no Brasil, e pelo crescimento dos evangélicos tradicionais, com o freio à ampliação dos pentecostais. De acordo com pesquisa elaborada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o catolicismo concentra-se nos extremos das classes sociais, entre os mais ricos e os mais pobres. Já os evangélicos estão, sobretudo, nas camadas intermediárias, nas classes C e D.

Segundo o estudo “Novo Mapa das Religiões“, feito pelo Centro de Políticas Sociais da FGV com dados do IBGE de 2009, o catolicismo continua como a religião predominante no país, seguida por 68,43% da população, cerca de 130 milhões de pessoas. O percentual, no entanto, revela que o número de católicos voltou a cair.

Em 1872, quase toda a população do Brasil declarava-se católica (99,72%). Esse percentual começou a se reduzir de forma significativa a partir da década de 70 até os anos 2000, quando chegou a 73,89%. A proporção de católicos manteve-se constante no início da década passada, mas caiu no fim da década. Segundo o estudo da FGV, a queda de 7,3% entre 2003 e 2009 foi combinada com o aumento dos evangélicos, que cresceram 13,13% nesse período. Eles passaram de 17,88% da população para 20,23%. Outro grupo que cresceu foi o dos que não seguem uma religião, que foram de 5,13% para 6,72%.

Houve também diminuição no ritmo de crescimento dos evangélicos pentecostais de igrejas como Assembleia de Deus, Universal do Reino de Deus ou Congregação Cristã do Brasil. No período analisado, a proporção de pentecostais variou de 12,5% para 12,8% no total da população.

A tendência da década passada só será mais bem conhecida quando o IBGE divulgar os dados do Censo de 2010 sobre religião. Para Neri, porém, a POF indica que os pentecostais, que na década de 90 praticamente dobraram de proporção, podem estar perdendo fôlego.

Segundo o economista, uma possível explicação para esse crescimento menor é o fato de o período entre 2003 e 2009 ter sido marcado por forte crescimento na renda, sobretudo dos mais pobres. Em pesquisas anteriores, verificou-se que os pentecostais cresciam principalmente em setores onde havia maior desemprego e menor renda. Como este período de 2003 a 2009 foi de crescimento a favor dos pobres, isto pode ter influenciado este crescimento menor.

Ao fazer a divisão por classes, o estudo da FGV mostra que os pentecostais estão mais concentrados nas classes C, D e E, com proporções que variam de 13% a 15%. Nas classes A e B, de renda domiciliar maior que R$ 6.745, a proporção deste grupo religioso cai para 6%. O inverso ocorre com os espíritas kardecistas. Nas classes D e E, com renda domiciliar inferior a R$ 1.200, eles são menos de 1%. No topo da distribuição de renda (classes A e B), representam 6% do total.

Hélio Schwartsman (Folha de S. Paulo, 24/08/11) destaca que “um dos grupos que mais têm crescido nas séries do IBGE é o dos sem religião. Nos anos 60 era uma categoria residual, com apenas 0,5% da população. Mas, de lá para cá, experimentou crescimento bastante significativo.

Pelos dados da POF, metodologicamente temerário misturá-los aos do Censo, os sem religião somavam 5,1% em 2003 e 6,7% em 2009. São quase 13 milhões de pessoas.

Embora o grupo seja em geral identificado com ateus e agnósticos, trata-se de uma rubrica bem mais ampla, que inclui quem migra de uma fé para outra ou criou seu próprio “blend” de crenças. Em comum, têm apenas o fato de não pertencer a nenhuma instituição e não ter medo de dizê-lo em alto e bom som.

O trabalho de Marcelo Neri reforça a tese da heterogeneidade dos sem religião ao mostrar que eles crescem nos extremos do espectro social.

Entre os brasileiros com menos de três anos de instrução, os irreligiosos são 7,3% (contra 6,7% na população). Já entre as pessoas com 12 ou mais anos de estudo, o número vai a 7,5%. O detalhe instigante é que, quando se consideram apenas mestres e doutores, a cifra salta para surpreendentes 17,4%.

Essa distribuição é compatível com um perfil de sem religião no qual ateus e agnósticos preponderariam nas camadas mais instruídas e pessoas com uma religiosidade indefinida e desinstitucionalizada reforçariam os estratos de menor escolaridade.

A correlação entre hiperinstrução e ateísmo está bem documentada em diversos trabalhos de diferentes países. Já o maior trânsito religioso é mais comum entre os menos escolarizados.

Até onde os sem religião podem crescer é uma incógnita. Se o Brasil seguir padrão próximo ao dos EUA, é razoável esperar que, nos próximos anos, o número se aproxime dos 15%. Se o modelo for mais próximo ao da Europa ocidental, aí as cifras podem exceder os 40%”.

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