Ascensão do Dinheiro (segundo Niall Ferguson)

É possível assistir, no YouTube, à toda a série de seis episódios de “A Ascensão do Dinheiro“, com o professor de Harvard, Niall Ferguson, baseado em seu livro. São belas imagens locais, filmadas em diversos países, para ilustrar a História das Finanças. Ela não é cronológica, mas sim temática, voltada para o presente, explicando a genealogia dos elementos da crise financeira atual. É ganhador do Prêmio Emmy 2009 como o Melhor Documentário do Ano. Em termos amplos, trata-se de documentário sobre o capitalismo. Nunca vi imagens tão interessantes ilustrando Economia. Pela edição ágil, escapa do aforismo: “ser academicista é acreditar que acúmulo é aprofundamento e que chatice é precisão”.

Dinheiro Ideal?!

A jornalista Carolina Matos (Folha de S. Paulo, 12/09/11) viajou a convite dos organizadores do “4º Encontro de Ciências Econômicas de Lindau”, Alemanha, e entrevistou John Nash, a maior celebridade entre os economistas presentes em evento que reuniu em Lindau, na Alemanha, outros 16 premiados com o Nobel de Economia. Talvez por ter se tornado mais popular do que a maioria dos premiados, após sua história ser retratada no filme “Uma Mente Brilhante” (Ron Howard, 2001), que mostrou sua luta contra a esquizofrenia, o matemático foi o mais assediado por jovens economistas. A eles o formulador mais conhecido da Teoria dos Jogos, que introduziu na Economia a relevância da interação de dois ou mais indivíduos na tomada de decisões, exibe paciência ímpar para fotos, autógrafos e abraços. À jornalista, em entrevista exclusiva, ele explica seu conceito de “dinheiro ideal“, moeda indexada para estabilizar a “moeda internacional”. Ele alerta que é simples exercício teórico, mas ela leva a sério a proposta – e ele acaba demonstrando que também crê nela, como já acreditou em outras coisas inverossímeis.

Aos 83 anos, John Nash, ganhador do Nobel de Economia em 1994, é simples e direto ao falar sobre dinheiro. O matemático americano enxerga uma dependência tamanha do dinheiro que as pessoas “deixaram de raciocinar” sobre sua eficiência. Contra esse processo, ele propõe a criação do “dinheiro ideal”. Obviamente, é apenas algo idealizado, não cabe achar que o padrão monetário hegemônico no mundo, o dólar, será substituído pela razão. A “violência da moeda” relaciona-se sempre com a correlação de forças e não com estratégia racional de jogo.

Continue reading “Dinheiro Ideal?!”

Bitcoins, “saberes”, “talentos” e “alegrias”: moedas relativas a intangíveis

Com todas as grandes moedas sob olhares desconfiados, não falta quem aponte a solução para o sistema monetário fora do quadro de referência tradicional. O impasse europeu, por exemplo, poderia ter saída razoavelmente simples, segundo Bernard Lietaer, que participou da criação da moeda única quando era diretor do Banco Central belga, nos anos 1990. Nem seria preciso manter o euro em bases artificiais, como tem sido desde sua entrada em vigor, nem países como Grécia, Itália, Portugal e Espanha teriam de abandoná-lo em nome, respectivamente, do dracma, da lira, do escudo e das peseta. “Por que não ambos?”, provoca Lietaer, lembrando que muitos estabelecimentos do Reino Unido aceitam pagamentos em euro, embora façam a contabilidade em libras. Ele parece desconhecer a Lei de Gresham…

Continue reading “Bitcoins, “saberes”, “talentos” e “alegrias”: moedas relativas a intangíveis”

Inversão da Lei de Gresham

Diego Viana (Valor – Eu & Fim de Semana, 26/08/11) escreveu matéria jornalística muito boa sobre as diversas formas da moeda contemporânea e intitulou  “dinheiro bom é para poucos”. É a inversão da Lei de Gresham, que se resume na seguinte oração: “A má moeda tende a expulsar do mercado a boa moeda“. Refere-se ao princípio econômico que diz que “moedas que têm valor pleno, em termos de metal precioso, tendem a desaparecer quando circulam em sistema monetário depreciado”. De acordo com esta lei, as boas moedas são exportadas (ou derretidas caso fossem em metal precioso) para se capitalizar o seu valor de mercado mais alto no câmbio estrangeiro (ou no mercado de ouro ou joias). Em sistema pluri-monetário, os agentes racionais guardam a “moeda boa” e colocam para circular as “má(s) moeda(s)”.

A Lei de Gresham foi atribuída, originalmente, a Sir Thomas Gresham, conselheiro da Rainha Isabel I de Inglaterra, que afirmou em 1558 que “a moeda má expulsa a moeda boa”. Tal frase, proferida quando o valor da moeda era determinado pelo seu peso em metal precioso, significava que se o Estado decidisse cunhar novas moedas com o mesmo valor facial, mas com menos conteúdo de metal precioso (ouro, prata ou cobre), os agentes económicos tenderiam a entesourar a moeda mais pesada (“a moeda boa”) e a fazer circular apenas a nova moeda mais leve (“a moeda má”). Pouco a pouco, toda a moeda boa acabaria por ser substituída pela moeda má.

Esta Lei foi generalizada com o significado de que, quando os agentes econômicos suspeitam de qualquer componente da oferta de moeda, tenderão a entesourar a “moeda boa” e a desfazer-se da “moeda má”, passando-a aos outros. O efeito de gradual substituição da “moeda boa” pela “moeda má” é, portanto, semelhante.

Como gosto do assunto, pois fui professor de Teoria Monetária e autor de Tese de Livre-Docência na matéria, cujo título era Por Uma Teoria Alternativa da Moeda: a Outra Face da (Teoria da) Moeda (veja entre as Categorias na coluna da direita deste blog), vou divulgar a matéria do Diego Viana em dois posts. A segunda parte virá em seguida.

Continue reading “Inversão da Lei de Gresham”

O que é moeda? É distinta de dinheiro?

As diversas formas de moeda e o que determina o seu poder de compra – sua aceitabilidade mercantil – constituem problema analítico, para a teoria monetária, e não simplesmente questão de “fatos históricos”.

Vários autores resumem a história monetária em função das características essenciais ou dos requisitos físicos da moeda-mercadoria:

  1. indestrutibilidade e inalterabilidade (que evita falsificações);
  2. divisibilidade (que permite múltiplos e submúltiplos);
  3. transferibilidade (ao portador);
  4. facilidade de manuseio e transporte (quando pequena quantidade corresponde a grande valor).

Essa visão liberal da história monetária enxerga a moeda apenas como uma mercadoria, escolhida segundo critério de comodidade e/ou segurança por um sistema econômico auto-regulável, sem a arbitrária intervenção estatal. Essa imagem idílica escamoteia a violência da história monetária. Basta dizer que a soberania do Estado nacional tem dois pilares básicos: o poder militar, dado pelo monopólio oficial da violência, e o poder de gasto, dado pelo monopólio da emissão da moeda.

Continue reading “O que é moeda? É distinta de dinheiro?”