Enfiei a Cara nos Livros

Literalmente, enfiei a cara nos livros! Só que havia uma porta de vidro entre ela e eles… Com a cara cortada, ontem, de madrugada, tive de ser removido de ambulância para o Centro Médico de Campinas. Cheio de pontos e curativos, com desvio de septo nasal, o que me impede de respirar pelo nariz, resta-me outra “cara e coragem”.

Eu nunca tinha sofrido de sonambulismo, ou seja, como as pessoas que, durante o sono, levantam-se, andam e falam. Eu não sou noctâmbulo, talvez insone. Estou com a péssima sensação de ter agido de modo mecânico, automático, sem demonstrar consciência ou compreensão do que fiz e de por que fiz.

Acidentes domésticos ocorrem com muita frequência. Podem ser fatais.

Dormindo na minha cama, parecia ser o lugar mais seguro do mundo. Pois é, tinha uma estante de livros com portas de vidro ao seu lado…

Minha lembrança nebulosa é que estava sonhando com um jogo de futebol de salão, esporte que deixei de praticar há 34 anos, quando tive ruptura dos ligamentos do joelho direito. Antes de dormir, li notícias pessimistas sobre o time de futebol que torço, o Cruzeiro, em dificuldades inéditas. Talvez influenciado por elas, eu me esforçava o máximo, pois estava em jogo sua classificação. Cai na quadra, tentei me esforçar para, mesmo deitado, dar uma assistência para o gol. Foi quando senti que algo tinha quebrado e senti o sangue jorrar no meu rosto.

Bem, o que eu iria falar hoje na Palestra sobre o Professor Castro está, grosso modo, na Apresentação Antônio Barros de Castro  já colocada no post anterior. Estava com muita vontade de fazê-la, presencialmente, inclusive porque a enviei antes para a Professora Ana Célia Castro, sua viúva, e ela me respondeu muito gentilmente:

Fernando mineiro, como ele gostava de chamar você, a quem admirava muito pela inteligência e sensibilidade. Fiquei muito emocionada e muito feliz com a homenagem, você captou com uma interpretação sua, mas com a qual concordo, o que eu chamo de pensamento futuro do Castro. Eu vou fazer tudo para estar na homenagem, tenho de ver um avião que me permita sair no inicio da tarde, porém dou aula nesse dia o dia inteiro.

Veja por favor o site Institute for Brazil-Chine Studies pois há muito sobre o nosso IBRACH. Penso que temos de associar o IBRACH e o Centro da UNICAMP. Temos tudo a ver e devemos unir esforços. Há muita coisa deixada pelo Castro que pode servir a ambos centros. O CABC (leia-se Centro Antônio Barros de Castro) também cabe, porque como você muito bem mostrou na sua apresentação cabe quase tudo na obra do Castro. Ele pertence ao IBRACH e ao MINDS, do qual era presidente. Veja também o site New Economic Thinking, Teaching and Policy Perspectives – A Brazilian Perspective within a Global Dialogue  e venha ao evento.

Grande abraço, Ana

Em breve síntese da importância da contribuição do Professor Castro no debate sobre a relação Brasil-China, eu diria o seguinte.

Na época do regime militar e da luta armada, Castro escreveu uma crítica ao vanguardismo e/ou ao voluntarismo intelectual. Destacou que plano executável não nasce do iluminismo. A elaboração de um plano não é fruto de uma mente intelectualmente privilegiada. Todas as opções e decisões que impliquem em mudança de rota histórica, que procurem novos caminhos para a história, só ganham existência real na medida em que são formuladas e socialmente reconhecidas como próprias de um “sujeito coletivo” (grupo, classe social) que tenha inserção no sistema, força, influência, etc.

O momento em que se coloca essas opções também é chave, pois a resistência à introdução de mudanças é mais tênue nas encruzilhadas históricas. Estas são atingidas somente quando a evolução da história cruza os problemas sociais com os problemas econômicos. Lembremos da minha primeira lição com o mestre recém falecido: “só completaram o difícil trajeto que vai do papel à realidade aqueles programas e proposições sugeridos pelas próprias dificuldades encontradas pelo sistema econômico em evolução” (Castro, 1969).

O Brasil tem de traçar sua estratégia face sua condição de superdotado em recursos naturais. Não pode aceitar, passivamente, nova Divisão Internacional do Trabalho, onde a China se tornaria o eixo industrial, a Índia, a principal fonte fornecedora de serviços, a Rússia, a produtora de energia (petróleo e gás), e ao nosso País restaria ser o grande provedor de alimentos.

Pela ótica da dotação do fator terra, não parece ser absurda a ideia de que o Brasil, com cerca de 90 milhões de hectares de terras agricultáveis, deveria assumir-se como “fazenda do mundo”. Estaria em contraposição à “fábrica do mundo” em que a China veio a converter-se, pois 97% das exportações chinesas são de produtos industrializados.

Mas a contraposição fazenda X fábrica não tem sentido nas condições contemporâneas brasileiras. O Brasil, na medida em que venha a acentuar a sua condição de potência agrícola, deve também ser considerado candidato a uma posição de peso no conjunto de atividades industriais (e de serviços), no nível de sofisticação em que a agricultura vem sendo praticada no país. Sua eficiência é potenciada por insumos, máquinas e equipamentos, concebidos e desenvolvidos para as condições peculiares ao país. A terra, em si, é apenas um suporte da produção – e a agricultura, especialmente o agronegócio, tem
múltiplos engates com a indústria.

A economia brasileira dispõe de sistema industrial cuja diversidade só tem paralelo, entre as economias emergentes, na China e na Índia. Em diversos ramos isto permitiu que pelo menos as maiores e melhores empresas, reconhecidamente, atingissem o estado das artes internacional.

Na perspectiva da alocação de recursos, o País tem infraestrutura sofrível, cuja reconstituição é prioritária. Está, no entanto, genérica e comparativamente, bem colocado no que toca ao patrimônio de competências. Superada a fragilidade macroeconômica, predominante nos anos 80 e 90, é necessário ir além da reatividade:  com essas competências, e mais tecnologia de informações, é possível fazer planos para, no futuro, se criar nova identidade nacional.

O destaque do Brasil, integrando grupo constituído pelos outros BRICs e mais os Estados Unidos, é a farta dotação de recursos naturais de grande valor no quinto maior território, a quinta massa populacional do mundo, cuja sétima maior renda nacional, distribuída com menor desigualdade, potencializa o quinto maior mercado interno nacional. Esses cinco países aparecem em todos os rankings dos dez maiores em território, população, renda e mercado interno. Em outras palavras, a geografia conta, mas a demografia e a diversificação econômica também são muito importantes no cenário atual.

O crescimento industrial passa a ser prerrogativa das nações dotadas de grandes contingentes populacionais que atraem empresas multinacionais para assumir posições no mercado doméstico, acentuando a atratividade da economia. Os baixos preços das manufaturas procedentes da China, mais o acesso popular ao crédito e as políticas sociais do governo, todos esses fatores ampliam as escalas nos mercados de consumo popular. Essa atração de investidores permite desenhar “frentes estratégicas”. Por exemplo, a especialização industrial próxima à fronteira das técnicas, como demonstra o caso dos biocombustíveis e sua cadeia, é uma possibilidade estratégica. Cabe também discutir o custo do ingresso, ou seja, a cobrança da contrapartida em absorção de tecnologia.

4 thoughts on “Enfiei a Cara nos Livros

  1. Caro amigo. Espero que você se recupere prontamente. Coisas da vida. Quanto ao nosso estrelado, dias melhores virão… abs, Giuliano

    1. Prezado André,
      o coitado do Galôôô está em pior situação do que a Raposa e eu… Desejo-lhe também boa recuperação, deixando inclusive uma margem para ele perder o último jogo. Senão, a Raposa vai lhe despachar!
      Abs

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