A China Explicada Para Brasileiros

Wong K. Shin (wkshin@uol.com.br) aportou no Brasil com sete anos de idade, vindo da China, após uma passagem por Hong Kong. Logo que chegou, com seus pais e irmão, foi matriculado em escola primária no Rio de Janeiro, onde começou a aprender a falar a língua. Formou-se em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com cursos de aperfeiçoamento no exterior, Licenciatura em Inglês/Literatura americana pela Universidade Santa Úrsula. Lecionou matérias de Finanças e Administração em diversas universidades do Rio de Janeiro (Fundação Getulio Vargas, IBMEC, Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Trabalhou como executivo em bancos e indústrias no Brasil, especialmente na Copene (empresa petroquímica que serviu de base para a constituição da atual Braskem), onde foi diretor de finanças, tendo também sob sua responsabilidade as áreas administrativa, jurídica, tecnologia de informação e relações com investidores. Após o falecimento de sua mãe, em 2004, tomou a resolução de fazer uma viagem de “resgate das raízes”, física e principalmente mental. Estudou a língua chinesa (mandarim), e pesquisou  Economia, História, Política, Cultura e tudo mais que dizia respeito à China. Viajou para lá e, na volta, decidiu prosseguir na sua viagem mental e intelectual, através da feitura de um livro sobre a China.

Este livro, A China Explicada Para Brasileiros (Editora Atlas, 1ª edição (2008), 2ª Reimpressão, 230 páginas, Formato: 17X24; ISBN: 9788522451340, R$ 41,00) analisa e explica aspectos da China sob uma perspectiva brasileira. Enfoca temas como economia, negócios, meio-ambiente e cultura política, relacionados à nova superpotência mundial.

Para o crescente número de brasileiros que buscam conhecer a economia da China, especialmente nos aspectos que a ligam ao Brasil, este livro tem caráter totalmente inédito no mercado editorial brasileiro. A perspectiva de análise é de um brasileiro com raízes na China. O livro traz mapeamento completo e atualizado de todos os negócios existentes entre os dois países, e examina a influência da China na economia do Brasil.

Os capítulos do livro estão distribuídos em duas partes: A Parte I aborda os aspectos que vinculam diretamente a China à vida brasileira, fornecendo temas para aprofundamento. Por exemplo, as exportações de minério de ferro da Vale do Rio Doce para a China servem de gancho para analisar o setor siderúrgico chinês, responsável por um terço de todo o aço produzido no mundo.

A Parte II situa o contexto das questões da vida econômica chinesa que estão afetando o mundo e, particularmente, o Brasil, como a macro-economia, meio ambiente, energia, distribuição da renda, mercado financeiro e estrutura política.

Prefácio

Parte 1- Interações da China com o Brasil

1   Negócios do Brasil com a China

2   Produtos chineses à venda

3   Do minério brasileiro para o aço chinês

4   Fluxo comercial entre Brasil e China

5   A China e a macroeconomia do Brasil

Parte II – Explicando aspectos da China

6   Panorama da economia da China

7   A energia que alavanca o crescimento

8   Um difícil equilíbrio: crescimento e meio ambiente

9   Os ricos e os pobres

10   Mercado de ações e bancos

11   Estrutura e funcionamento do governo

Apêndice

Por exemplo, para todo analista brasileiro, é importante saber que das siderúrgicas chinesas sai mais de um terço de todo o aço produzido no mundo. De importadora até 2003 (34 milhões de toneladas) e 2004 (13 milhões de toneladas), a China equilibrou importação e exportação em 2005, produziu superávit de 35 milhões de toneladas no ano seguinte, aumentando-o para 43 milhões de toneladas em 2007, quando produziu 36% da produção mundial de aço de 1,34 bilhão de toneladas. Entre 2002 e 2007, ela, isoladamente,  adicionou algo equivalente a nove vezes a capacidade produtiva do Brasil.

Produzir muito aço é uma obsessão da China de longa data. Desde Mao, os chineses acreditavam que o aço é a base do crescimento econômico, já que permite construir infra-estrutura, fábrica e bens industriais. Eles também aprenderam que a tecnologia é tão importante quanto a força de mão de obra para alavancar o desenvolvimento. O país atingiu a posição de maior produtor de aço do mundo e, por decorrência, maior fabricante de manufaturas feitas a partir do aço. Wong Shin recorda essa história.

A Companhia Vale do Rio Doce vende seu minério para dezenas de países do mundo, mas sua maior fonte de crescimento nos últimos anos e maior mercado individual é, sem dúvida, a China. Em 2007, a Vale produziu e vendeu cerca de 300 milhões de toneladas de minério de ferro e pelotas. Desse total, 100 milhões de toneladas foram embarcadas para as siderúrgicas chinesas, representando um terço das vendas totais. As vendas feitas na China foram superiores às feitas dentro do Brasil, que é seu segundo mercado, representando 15%.

A Ásia, principalmente por causa da China, tornou-se a maior parceira comercial do Brasil, depois da crise de 2008. Tinha participação de 18,9% entre os principais mercados de destino das exportações em 2008, alcançou 27,9% em 2010. A América Latina e Caribe caíram de 25,9% para 23,8%, a União Europeia de 23,4% para 21,4% e os Estados Unidos, de 14,0% para 9,6%. Em 2000, a China era o 12o. maior cliente do Brasil e passou a ser o maior no fim da primeira década do novo século XXI.

Das exportações brasileiras para a China, em 2007, os dois principais produtos, minério de ferro (US$ 3,7 bilhões) e soja (US$ 2,8 bilhões de soja em grão e US$ 318 milhões de óleo de soja), representaram 64% do total. Outros produtos relevantes foram petróleo e derivados (US$ 840 milhões), couros e peles (US$ 492 milhões) e papel e celulose (US$ 445 milhões).

Quando se trata de minério de ferro, é fácil vender para a China, inclusive com preços crescentes. Porém, quando se tenta vender produtos industrializados, as empresas brasileiras encontram sérias dificuldades para exportar manufaturados para a China. Isso porque os chineses começam comprando, mas depois aprendem a produzir e então passam a exportar o produto que antes era importado.

Os produtos brasileiros enfrentam os chineses não somente no território brasileiro, mas principalmente na arena internacional. Com sua agressividade comercial através de preços imbatíveis, a China ocupou mercados antes dominados por outros países, devido à sua rápida evolução industrial e tecnológica. Como exemplo, já abalados pela moeda nacional apreciada, os setores de confecções, têxteis e calçados do Brasil foram ainda mais afetados pela avassaladora concorrência chinesa, tanto no mercado interno quanto em terceiros mercados.

À medida que a economia brasileira se aquecia e o real se apreciava, cresceu também a percepção de que a China é o lugar para se buscar fornecedores baratos e de qualidade. Isso fez com que as companhias tradings, que se responsabilizam pela operação logística das importações, fossem procuradas pelas empresas brasileiras para intermediar os negócios com a China. Buscaram insumos ou produtos acabados a preços mais competitivos, seja na área de construção civil, seja na de produtos eletro-eletrônicos, ou outras. As grandes tradings vêm atuando em grande escala na linha de produtos populares destinados às classes D e E, em que não há concorrência que possa bater os preços baixos das mercadorias chinesas.

Depois do minério de ferro, o produto brasileiro que gera mais receitas de exportação para a China é a soja. Curiosamente, a soja veio da China e agora viaja no sentido inverso. Há milhares de anos, os alimentos feitos a partir dela fazem parte da dieta básica dos chineses. Uma comida tradicional consumida na China é o “tofu”, preparado de várias formas, acompanhando sopas, em forma cozida ou frita, junto com carnes ou verduras. O molho de soja, conhecido nos restaurantes japoneses por shoyu (palavra em japonês derivada do chinês jiang you), é usado no preparo de quase todos os pratos de comida chinesa para dar o sabor salgado, em vez do sal marítimo usado no Ocidente.

Hoje, tanto na China quanto no Brasil, a soja é processada e consumida por pessoas e como ração animal, muito em função do seu rico teor de proteínas. A oleaginosa é rica em óleo, daí seu uso para fabricação de óleo de cozinha. As indústrias estão continuamente desenvolvendo novos produtos à base da soja, como a “carne vegetal”, na forma de bifes, salsichas ou hambúrgueres, e as bebidas de soja, com sabores de frutas. No Brasil, mas não na China, a soja é atualmente a principal matéria-prima para a fabricação do biodiesel para uso como combustível alternativo, com mistura obrigatória ao diesel.

Embora a soja tenha se originado da China, o Brasil hoje produz mais soja que seu país de origem. O Brasil é o segundo maior produtor mundial e a China, o quarto. A terra e o clima do Brasil favorecem seu cultivo. Ao contrário, a China possui um coeficiente pequeno de terras agricultáveis, situação agravada pelo intenso processo de urbanização, não conta com tanta abundância de água como no Brasil. O índice médio de chuva na China é de 6000 milímetros por ano, contra 1.500 milímetros no Brasil. Tudo isso faz com que o Brasil tenha vantagem competitiva inigualável, podendo até superar os Estados Unidos, nos próximos anos, como o maior produtor mundial de soja. Com seus planos para fabricar grandes volumes de etanol a partir do milho, os norte-americanos estão deslocando grandes áreas de plantação de soja para substituí-las pelo milho.

A China é uma grande produtor de soja, mas não produz o suficiente para abastecer todo o seu consumo interno, que tem se elevado muito em função do aumento da renda da população. Ela se tornou o maior importador mundial, com 40% do comércio global de soja em grão. Cerca de um terço da soja em grão que a China importa vem do Brasil. A China também compra dos Estados Unidos, o maior produtor mundial e seu maior supridor, e ainda da Argentina. Essa “OPEP da soja” controla 80% da produção mundial.

A China exportou deflação para o mundo. O fenômeno chamado de “preço China” (China price) jogou para baixo os preços de muitos produtos industriais e de consumo. Os fabricantes que tentaram fixar seus preços acima do “preço China” tiveram dificuldade para vender seus produtos e foram obrigados a remarcar suas tabelas. As importações, impulsionadas pelo efeito conjugado da apreciação da moeda nacional e preços baixos, explicaram parte da estabilização recente da inflação no Brasil .

Não somente produtos de consumo ganharam com os preços baixos dos importados chineses. Empresas brasileiras aproveitaram os preços baixos (e câmbio apreciado) de máquinas e equipamentos chineses para reequipar e modernizar suas fábricas a custo 30% a 40% menores do que os da concorrência nacional ou internacional.

Em contrapartida, a voraz demanda chinesa por matérias-primas ajudou a puxar, para níveis recordes, os preços internacionais do petróleo, aço, metais, commodities agrícolas, entre outros bens negociáveis. Os preços que aumentaram foram justamente os das commodities que o Brasil mais exporta para a China (minério de ferro, soja e petróleo) e as receitas cambiais geradas ajudaram a derrubar a cotação do dólar. Isso, por sua vez, levou a mais importação de insumos e produtos finais baratos, criando ciclo de inflação baixa.

A reforma da economia chinesa começou em 1978, com a morte de Mao, ocorrida dois anos antes. Trinta anos após a instituição do regime comunista em 1949, e com os poucos avanços econômicos obtidos desde então, os chineses iniciaram uma reforma econômica profunda e duradoura que viria posicionar a China como o país que mais cresce no mundo. Os chineses chamam de jing ji gai se (reforma econômica) o processo de mudanças econômicas e sociais ocorridas nas últimas duas décadas do século XX e que prossegue no século XXI. Os chineses consideram todas as mudanças que ocorreram e continuam a ocorrer como um processo único e contínuo, e não vários planos executados por diversos governos.

O “Império Chinês”, que foi um dos mais poderosos em séculos passados, antes da invasão estrangeira, especialmente a britânica no século XIX, renasceu com a exploração da globalização planejada pelo “socialismo de mercado”. As mudanças econômicas não foram acompanhadas por reformas políticas, tendo o Partido Comunista Chinês continuado a deter o poder político absoluto, mantendo a visão ideológica socialista para ser seguida pela sociedade chinesa. O aparente paradoxo de ter uma economia aberta convivendo com um regime político fechado é explicado pela regulação tanto do mercado quanto da liberdade.

Países estrangeiros forçaram a abertura comercial da China usando a força militar nos séculos XVIII e XIX, chegando a declarar guerras, em 1840 e 1856, para drogar os chineses de ópio e obrigá-los a comprar e vender produtos. Mais do que isso, tomaram partes do território chinês. Com esses antecedentes históricos, o mercado chinês esteve aberto para o mundo até a tomada do poder pelos comunistas em 1949, quando a China voltou a se isolar do resto do mundo por várias décadas. Com as reformas econômicas dos anos 80, a China começou gradualmente a retomar os negócios com o exterior.

A transformação da China em potência  manufatureira aproveitou sua massa de trabalhadores para a produção em grande escala. O ciclo baseado nas manufaturas abastecia a exportação, que gerava as divisas necessárias para pagar pela importação de tecnologia, equipamentos e matérias-primas. Como as receitas das exportações investidas em novos equipamentos e insumos, novos produtos são fabricados e exportados, alimentando o círculo virtuoso. O crescimento das fábricas e das produções permitiu retirar da pobreza milhões de chineses que viviam na área rural ou estavam subempregados nas cidades.

A grande escala de produção resulta em custos muito baixos. Além de abundantes e baratos, os operários chineses foram disciplinados pelos anos de revolução cultural, tornaram-se fáceis de ser treinados e com disposição de trabalhar longas jornadas sem ter muitos dias de folga. São apenas três feriados por ano que, com sistema de compensações, faz com que esses feriados estendam-se por uma semana. Embora a remuneração possa ser considerável miserável para os padrões ocidentais, com os benefícios concedidos como moradia, alimentação, cuidados médicos, etc., as vagas de trabalho são muito concorridas, havendo sempre extensas filas de candidatos.

Embora os chineses acreditem firmemente que vivem em regime de min zhu, traduzido como democracia, a percepção dos brasileiros é que a China está longe de ser uma democracia. De forma simplificadora, para os chineses, no min zhu o governo é do povo e age em nome dele, enquanto que os brasileiros geralmente associam democracia com eleições diretas e liberdade total de expressão, que não existem na China. Daí as dificuldades de entendimento provocadas por diferenças semânticas e culturais. A China ainda está longe de caminhar para processo de votação direta para a eleição de seus líderes, mas as decisões são tomadas depois de ouvir e considerar as opiniões de muitos representantes do povo.

Por exemplo, a doutrina da “Perspectiva Científica do Desenvolvimento”, que a partir de 2007 passou a fazer parte da Constituição do Partido Comunista, sintetiza a ideia de que o desenvolvimento da China deve observar certos princípios e prioridades. Engloba as questões referentes à diminuição das desigualdades entre ricos e pobres, entre cidades e campo, entre regiões do país, etc., bem como as de proteção do meio ambiente e de uso mais eficiente da energia. Assim, os líderes chineses definiram um rumo claro para a continuação sustentável do desenvolvimento do país, porém compatibilizando-a com as necessidades de se criar uma sociedade em harmonia, próspera, democrática (no conceito chinês), forte e culturalmente evoluída.

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