Mercado de Ações

A sociedade anônima permite a milhares de indivíduos juntarem recursos para empreendimentos em longo prazo que exigem grande investimento de capital antes que se obtenha lucro. Depois do advento do mercado de crédito bancário e do mercado de títulos de dívida pública, o passo seguinte na história financeira do mundo, contada por Niall Ferguson no livro “A Ascensão do Dinheiro”, foi o aparecimento do mercado de ações.

O capital acionário da empresa é possuído conjuntamente por múltiplos investidores de risco limitado, porque a existência separada da empresa como “pessoa jurídica” protege os investidores de perder toda a sua riqueza caso o empreendimento fracasse. Seu risco é limitado ao dinheiro  que eles usaram para comprar determinada participação na companhia.

Na teoria, os administradores das companhias acionárias, cujos sócios majoritários os nomeiam, seriam supervisionados por acionistas que comparecem às Assembleias Gerais da Empresa. Na prática, a disciplina primária sobre elas é exercida pelas Bolsas de Valores, onde suas ações são compradas e vendidas todos os dias. As cotações são como referendos, a cada momento, sobre companhias cujas ações estão sendo negociadas. Os preços expressariam o contraste de opiniões a respeito do lucro esperado com ações de determinada empresa, ou seja, sobre as perspectivas de seu mercado.

Os acionistas são seres humanos e, como tal, propensos à miopia e a oscilações de humor. Quando os preços das ações nas Bolsas de Valores sobem, simultaneamente, os investidores estão em euforia coletiva e/ou “exuberância irracional”. Quando há súbita reversão de expectativas, a bolha inflada pela euforia anterior explode devido ao pânico conjunto.

Compradores otimistas de ações atacam como touros, de baixo para cima. Vendedores pessimistas atacam como ursos, de cima para baixo. Os investidores constituem espécie de rebanho eletrônico, com o estouro da boiada refletindo comportamento de manada. A Bolsa de Valores, no entanto, reflete a psique humana, sofrendo esgotamento ao ficar deprimida, podendo chegar ao colapso completo. Até que a esperança (ou a amnésia) vença a má experiência.

Nas bolhas de ações, seus preços disparam para níveis insustentáveis, para depois despencarem novamente. Repetidamente, nesse processo os insiders tentam lucrar à custa de neófitos ingênuos.

Esse padrão é destilado em cinco estágios.

Primeiro, há deslocamento, quando alguma mudança nas circunstâncias econômicas cria oportunidades lucrativas para determinadas companhias.

Segundo, o excesso de transações cria euforia com o processo de retroalimentação de lucros esperados sendo confirmados.

Terceiro, a mania leva à bolha, quando a perspectiva de lucros fáceis atrai investidores em sua primeira experiência e aqueles dispostos a despojá-los.

Quarto, aflição quando os insiders percebem que os lucros esperados não são fundamentos consistentes para justificarem os exorbitantes preços das ações e começam a vende-las antes do resto dos investidores.

Quinto, o descrédito surge na medida em que os preços das ações caem, todos os outsiders que tomaram crédito para suas compras correm em debandada para realizar suas vendas, provocando, simultaneamente, a explosão da bolha na Bolsa de Valores.

Essas bolhas, ainda segundo Niall Ferguson, possuem três outros tipos de características recorrentes.

A primeira é a assimetria de informações entre insiders e outsiders.

O segundo é o fluxo de capital que cruza fronteiras entre países e mercados. O especulador experiente estrangeiro não conhece os fundamentos da economia como os insiders, mas tem maior oportunismo do que os outsiders, sendo mais arisco para comprar e vender antes do estouro da manada dos ingênuos.

Finalmente, bolha é inflada pela criação fácil de crédito, sendo assim sancionada pela omissão dos Bancos Centrais no seu papel de supervisão.

A história repetida das bolhas da Bolsa de Valores demonstra como os seres humanos tem dificuldade em aprender com a história. Então, por que reconta-la?

O investimento em ações, durante longo prazo, está longe de ser uma panaceia universalmente aplicável. Entretanto, permanece verdadeiro que, na maioria dos países nos quais existem dados de longo prazo, as ações tiveram melhor desempenho do que os títulos financeiros – algo em torno de cinco vezes, ao longo do século XX. Mas que investidores permaneceram com elas, nesse longo prazo, sem realizar lucro ou prejuízo precocemente?

Os títulos de dívida pública não são mais do que promessas feitas por governos de pagar juros até amortizar o principal em determinado período de tempo. Seja via confisco, seja via depreciação da moeda nacional, muitos governos deixaram de cumprir essas promessas.

Em contraste, as ações são porções do capital de corporação que gera lucro. Se ela tem sucesso em seu empreendimento, haverá não apenas dividendos a ser distribuídos, mas também probabilidade significativa de ganho de capital.

Existem riscos maiores com ações. Seus retornos são menos previsíveis e mais voláteis do que os resultados sobre os títulos financeiros do Tesouro Nacional. Existe uma probabilidade significativamente maior de falência de uma corporação. Neste caso, os donos de seus títulos de dívida direta serão pagos primeiro pela massa falida. Os donos do patrimônio líquido, isto é, das ações, poderão acabar sem receber nada. Nesse sentido, os resultados superiores das ações são justificados pelo ágio de risco do patrimônio líquido. Porém, em certas circunstâncias, vale a pena assumi-lo.

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