Mercado de Seguros

O passo seguinte na história financeira do mundo, contada por Niall Ferguson no livro “A Ascensão do Dinheiro”, é a história da administração do risco. Ela é a de uma longa luta entre nosso vão desejo de estar seguro financeiramente e a dura realidade de que não existe uma coisa como “o futuro”, no singular. Existem apenas múltiplos futuros imprevisíveis, que jamais perderão a capacidade de nos pegar de surpresa.

A questão-chave é: como podemos lidar com os riscos e as incertezas do futuro? O ônus para se garantir contra o infortúnio cai sobre o indivíduo? Ou deveríamos confiar na caridade voluntária dos seres humanos, nossos semelhantes, quando as coisas dessem horrivelmente errado? Ou deveríamos ser capazes de contar com o Estado – em outras palavras, nas contribuições compulsórias dos contribuintes, nossos semelhantes – para socorrer quando alguma calamidade acontecer?

Os desastres naturais deixam claro os defeitos de um sistema de seguro que divide as responsabilidades entre companhias privadas de seguros, que oferecem proteção contra danos, e o governo federal, que oferece defesa civil. Nesses momentos de aflição, o trabalho das companhias de seguro deixa de ser ajudar os donos de apólices desalojados, mas sim o de evitar pagá-los, asseverando que os danos que suas propriedades tenham sofrido foram devido à calamidade natural não coberta. Inclusive passam a classificar a região como “zona não assegurável”.

Isso é sintomático de um Complexo do Capitalismo de Desastre disfuncional, que gera lucros privados para alguns, mas deixa o pagamento dos verdadeiros custos da catástrofe para os contribuintes. Diante dessas contas ruinosas, quando o seguro falha, a única alternativa com efeito é nacionalizar todos os desastres naturais, criando um imenso risco sem fundo para os governos?

Os desastres podem ser pequenos negócios privados, como também grandes e públicos. Todos os dias, as pessoas ficam doentes, ou são feridas ou acidentadas, e não podem trabalhar. Todos nós envelhecemos e perdemos nossa força de trabalho. Desafortunados já nascem incapazes de se manter. E mais cedo ou mais tarde todos nós morremos, frequentemente deixando dependentes sem apoio.

O ponto-chave é que poucas dessas calamidades são eventos aleatórios. Como existem dados em longo prazo, que demonstram certa regularidade, é possível vincular probabilidades à incidência e à escala dos desastres, embora apreciações diferentes indicam que eles podem pertencer mais à esfera das incertezas do que à dos riscos adequadamente compreendidos.

Essas probabilidades podem ser calculadas com maior precisão para a maioria dos outros riscos que as pessoas enfrentam, sobretudo porque eles são mais fáceis de reconhecer. Durante o tempo médio de vida, o risco de morte devido à exposição às forças da natureza, incluindo todos os tipos de desastres naturais, é similar ao de morte devida a incêndio em um prédio. As chances de um cidadão médio ser morto a tiros podem ser dez vezes maiores. Mas é trinta vezes mais provável ainda que cometa suicídio. Mais provável ainda é que morra em acidente rodoviário fatal. Mas, entre todas as possibilidades, que morra de câncer é a mais esperada, ou seja, uma em cada cinco pessoas morre dessa doença.

Nas sociedades agrícolas pré-modernas, quase todos corriam riscos substanciais de morte prematura devido à má nutrição ou doença, para não mencionar guerras. Só lentamente os homens começaram a avaliar o significado das regularidades mensuráveis no tempo, na produção de safras e nas infecções. Nos séculos XVIII e XIX, começaram a registrar sistematicamente a incidência de chuvas, das safras e da mortalidade de uma maneira que possibilitou o cálculo probabilístico. Mas, muito antes de fazê-lo, eles compreenderam a sabedoria de economizar para enfrentar os infortúnios.

Poupar antes de uma provável adversidade futura permanece o princípio fundamental do seguro, seja contra a morte, os efeitos da velhice, da doença ou de acidente. O desafio é saber o quanto investir e o que fazer com esses investimentos financeiros.

Os primeiros arranjos de seguros tinham o caráter de empréstimos condicionais a mercadores que seriam cancelados no caso de um acidente, infortúnio, revés. Nos anos 1350 que os primeiros contratos reais de seguro começaram a aparecer, com prêmios que variavam entre 15% e 20% da soma assegurada, caindo para menos de 10% no século XV. Gradualmente, esses contratos se tornaram padronizados. No final do século XVII, algo parecido com um mercado dedicado ao seguro começou a se formar em Londres, depois do Grande Incêndio de 1666.

Os riscos dos seguradores eram ilimitados. Os arranjos financeiros eram do tipo “pague enquanto está indo ou fazendo”, ou seja, o objetivo era coletar prêmios suficientes, em qualquer ano, para cobrir os pagamentos dos sinistros daquele ano e deixar uma margem de lucro. Os riscos limitados chegaram ao negócio dos seguros no início do século XVIII. Mas todas as formas de seguro eram ainda uma forma de jogo de azar. Não existia uma base teórica adequada para a avaliação dos riscos que estavam sendo cobertos.

Então, começando por volta de 1660, aquela base teórica foi sendo criada. Essencialmente, houve seis rupturas cruciais que constituíram as pedras fundamentais da matemática atuarial.

  1. A primeira foi a probabilidade, com o insight de Blaise Pascal de que “o medo do dano deve ser proporcional não meramente à gravidade do dano, mas também à probabilidade do evento”.
  2. O cálculo da expectativa de vida buscava estimar a possibilidade de morrer de determinada causa, tomando como base as estatísticas oficiais de mortalidade, deduzindo as probabilidades de não morrer em um determinado ano.
  3. A dedução da certeza através da Lei dos Grandes Números de Jacob Bernoulli, em 1705, propôs que, “sob circunstâncias similares, a ocorrência (ou não ocorrência) de um evento no futuro seguirá o mesmo padrão que foi observado no passado”.
  4. A curva do sino expressa a distribuição normal, isto é, que os resultados de qualquer tipo de processo repetido poderiam ser distribuídos ao longo de uma curva, de acordo com sua variação em torno do desvio médio ou padrão. Assim, as irregularidades não trarão nenhuma desproporção à recorrência das grandes probabilidades.
  5. Em 1738, o matemático suíço Daniel Bernoulli propôs que “a utilidade resultante de qualquer pequeno aumento na riqueza será inversamente proporcional à quantidade de bens previamente possuídos”.
  6. Finalmente, em 1764, Thomas Bayes antecipa a formulação moderna da inferência, propondo que a utilidade esperada é a probabilidade de um evento multiplicado pelo pagamento  recebido no caso daquele evento.

Em resumo, não foram os comerciantes, mas os matemáticos os verdadeiros progenitores do seguro moderno.

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