Padrão de Vida da População Negra do País

 

Letícia Casado (Valor, 08/11/11) mostra que o crescimento da economia brasileira mudou o padrão de vida da população negra do país, que chegou a um novo patamar de compras: o de bens duráveis mais sofisticados. Estudo recente do Data Popular mostra que os negros aumentaram as compras de máquina de lavar, computador e carro.

Segundo Renato Meirelles, diretor do Data Popular, “o consumo do branco é para repor, enquanto o do negro, muitas vezes, é a primeira aquisição da casa”. Meirelles diz que a distribuição de renda dos últimos anos favoreceu o crescimento da classe média. Em 2004, 33,7% dos negros pertenciam à classe C; 51,9% à D; e 11% à E. O cenário mudou: em 2009, eram 44,9% na C; 43,5% na D; e 6,6% na E.

Para Athayde Motta, diretor executivo do Baobá, associação que defende a equidade racial, a migração da classe D para a C foi a maior surpresa do levantamento.

Entre os negros, 20% tinham carro próprio em 2009. A fatia dos não negros era de 41,4%. Os dois grupos usam o financiamento bancário como principal forma de pagamento. A diferença é maior quando o desembolso é à vista: os não negros (40,5%) prevalecem sobre os negros (32,7%). “É natural que os negros tenham acesso mais lento [a bens de consumo de maior valor agregado]. Carro não é barato e crédito não é imediato”.

De acordo com o Data Popular, os negros vão movimentar R$ 673 bilhões no Brasil em 2011 – um valor significativo. Em 2009, o valor ficou em R$ 584 bilhões, e em 2004, R$ 370 bilhões.

Mas as diferenças entre negros e brancos, em termos de rendimento salarial e educação, ainda fazem com que o padrão de consumo dos negros seja inferior. Em 2010, o rendimento médio do trabalhador negro foi de R$ 1.002 para homens e de R$ 672 para a mulheres, segundo dados do IBGE atualizados pelo Data Popular, que usou o INPC de setembro deste ano. A população não negra, que reúne brancos, amarelos, indígenas e aqueles que não declaram a cor da pele, registra rendimento bem maior: R$ 1.795 para homens e R$ 1.183 para mulheres.

Por pertencerem em maioria à classes C, D e E, os negros recebem salários menores e isso puxa a média salarial do grupo para baixo. “De fato, o negro ganha menos e o branco ganha mais.”

A educação é outro ponto importante. Meirelles diz que a qualidade do estudo está vinculada à classe social, assim como o acesso ao ensino superior – e os mais qualificados são aqueles que conseguem os melhores empregos. Por isso, acrescenta, “são muito importantes as ações afirmativas” como cotas raciais em universidades, por exemplo. “Ainda existe racismo no nosso país”, diz o diretor do Data Popular.

Meireles também sente falta de “estratégia de marketing” voltada para o consumidor negro. Mari Zampol, diretora geral de planejamento da agência de publicidade Talent, não concorda. Para ela, a abordagem por cor da pele só se justifica no caso dos produtos de beleza. Caso contrário, afirma, a propaganda vai excluir – e não incluir – o consumidor.

O levantamento do Data Popular considerou uma base de dados com 18 mil pessoas, em um universo de 99,8 milhões de brasileiros (51,7% da população), que se declararam negros ou pardos na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE em 2009.

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