Metamorfose Ambulante: A Pele Que Habito do Pigmaleão Almodóvar

Já expressei, neste blog, minha admiração pela obra de Pedro Almodóvar – e Las Canciones de Almodóvar. É o meu preferido entre os cineastas vivos. Em entrevista recente, ao mencionar outros, fez juras de admiração aos norte-americanos Terrence Malick (“A Árvore da Vida”), Martin Scorsese (“Os Infiltrados”), Quentin Tarantino (“Bastardos Inglórios”) e Todd Haynes (“Não Estou Lá”). Curiosamente, não citou Clint Eastwood (“Os Imperdoáveis”), ator “machão” que demonstrou grande sensibilidade em sua obra como diretor. Citou como exemplos de Cinema de Autor (filmes com marca pessoal) os trabalhos de Ingmar Bergman, Alfred Hitchcock, John Cassavetes, além do italiano Bernardo Bertolucci.

Ele afirma: “Acho que a criatividade é mais excitante quanto mais conectada ela está com a realidade”. Nesse sentido, ele demonstra mais uma vez estar entre os maiores diretores da História do Cinema ao visitar outros gêneros em seu último filme (“A Pele Que Habito”): suspense, ficção científica, thriller.

A meu ver, ao contrário de que inúmeros críticos cinematográficos disseram – eu os li após assistir o filme –, este filme possui enorme coerência com sua obra, tratando de temas recorrentes, e com sua vida pessoal. Antes de dirigir filmes foi funcionário da companhia telefônica estatal, ator de teatro avant-garde e cantor de banda de rock, da qual participava travestido. Sendo homossexual assumido, seus filmes “não colocam no armário” a temática da sexualidade. Não é um filme menor, embora tenha aparência de um bom Filme B, e muito menos, “uma loucura”.

A expressão-chave é essa que destaquei: visitar outros gêneros. Nesse filme, ele vai fundo na ação de travestir ou vestir (alguém ou a si próprio) de modo a aparentar ser do outro sexo. Ele mostra um doutor-cientista, tipo Victor Frankenstein, aquele estudante de ciências naturais que constrói um monstro em seu laboratório. Este romance de terror gótico com inspirações do movimento romântico, Frankenstein ou o Moderno Prometeu, é de autoria de Mary Shelley, escritora nascida em Londres. Ela escreveu a história quando tinha apenas 19 anos, entre 1816 e 1817, e obteve grande sucesso. Gerou um novo gênero: o de Horror, inclusive adotado no Cinema.

Mas o Victor Frankenstein de Almodóvar não consegue ir além da alteração da aparência de um ser humano, a sua natureza sexual, torna-lo irreconhecível, falsificando-o. Ele não consegue modificar o seu caráter mais profundo, seu instinto de sobrevivência.

O criador busca controlar o instinto mais animal de sua criatura: o sexual. Como? Colocando o homem violentador no corpo de uma mulher violada. O gênero masculino visita o feminino. O homem primitivo que aplicou meios violentos e ameaçadores contra sua filha, para lhe vencer a resistência, coagir, constranger, forçar o sexo, cometeu estupro sem demonstrar a menor empatia com a vítima. Depois, no corpo de mulher, sente o que é ser estuprada, o ato de abrir a vagina à força, arrombar, forçar, violar.

O mito de Pigmaleão, como outros da Mitologia Grega reescrita por romanos, traduz um elemento do comportamento humano: a capacidade de determinar seus próprios rumos, concretizando planos e previsões particulares ou coletivas. Em Psicologia, deu-se o nome de Efeito Pigmaleão ao efeito de nossas expectativas e percepção da realidade na maneira como nos relacionamos com a mesma, como se realinhássemos a realidade de acordo com as nossas expectativas em relação a ela. Em Economia, pode-se classificar como Efeito Pigmaleão a chamada “profecia autorealizada“.

Pigmaleão era um escultor e rei de Chipre que se apaixonou por uma estátua que esculpira ao tentar reproduzir a mulher ideal. Na verdade, ele havia decidido viver em celibato na Ilha por não concordar com a atitude libertina das mulheres dali, que haviam dado fama à mesma como lugar de cortesãs. A deusa Afrodite, apiedando-se dele, e atendendo a um seu pedido, ao não encontrar na ilha uma mulher que chegasse aos pés da que Pigmaleão esculpira, em beleza e pudor, transformou a estátua em “mulher de carne e osso”, com quem Pigmaleão casou-se.

A versão mais antiga dessa lenda está em Ovídio, em sua obra Metamorfoses. A lenda de Pigmalião tem atraído vários artistas. Uma versão moderna da lenda é o filme musical My Fair Lady, em que, em vez de uma estátua transformada em mulher, vemos uma mulher do povo transformada em mulher da alta sociedade. Almodóvar cria outro mito parecido, uma criatura à semelhança da mulher falecida, pela qual o homem criador se apaixona, e com quem busca ter relações sexuais de maneira violenta, segregando-a da liberdade. Ele já tinha explorado essa ideia em Ata-me! e a da violentação em Kika, inclusive onde também há a personagem “cara-cortada” (interpretada por Victoria Abril), semelhante à do estuprador Zeca, criado em favela da Bahia.

A “mulher de carne e osso” está apenas na “pele que habita”, para Almodóvar. Sua superfície consegue seduzir seu criador, fragilizando suas defesas. Seu instinto de sobrevivência, no entanto, a leva a matar seus algozes: o médico e a mãe de dois monstros – “filhos de pais diferentes, mas semelhantes entre si, a ‘coisa ruim’ deve ter vindo dela”. A mesma alma pode ter duas caras, mas acaba se revelando unívoca.

O Dr Jekyll & Mr Hyde é outra lenda clássica de terror e suspense que gira sobre a dualidade da espécie humana e o aspecto mais sinistro da sociedade em época conservadora. O Doutor Henry Jekyll, grande cientista e conhecido por toda a comunidade científica, está a desenvolver uma fórmula que revolucionará a natureza humana, isolando os seus componentes criminais. Depois de experimentar em si mesmo e intoxicado pelo fármaco, ele sofre uma monstruosa transformação. Liberta-se dos convencionalismos da ordem social e do seu próprio código moral, adquirindo maldade eufórica e sem remorsos: o vilão Mr. Hyde. O que se segue é um terrível combate entre duas personalidades opostas que lutam pela alma de um homem… Almodóvar continua enfrentando seus fantasmas com brilhantismo; metamorfoseia, mas continua o mesmo ser profundo. Vale o  acompanhar.

2 thoughts on “Metamorfose Ambulante: A Pele Que Habito do Pigmaleão Almodóvar

  1. Fernando,
    Procuro dar continuidade à conversa de sábado, em minha varanda. Não sou fã Nº1 do Almodóvar, e dentre os vivos prefiro o Scorcese, que segue o mestre de todos, o Visconti, e adoro o Wong Kar-Wai, pela musicalidade e beleza de cenas. Entretanto, A Pele Que Habito é uma afirmação e mostra que o Almodóvar está entre os grandes, pois é um filme contemporâneo e, sobretudo, espanhol, estetica e socialmente. Ele quis dar seu recado, e deu, independente de alguns considerá-lo pretensioso. As referências lá estão: A maja desnuda, do Goya; A Vênus ao espelho, do Velázquez; o Jardim das Delícias, do Bosch, exposto em sala especial do Museu do Prado, e citado na cena do estupro no jardim da festa.
    A referência à Louise Borgeois é essencial, pois para ela a arte não é abstrata, assim como o desejo, precisam de um corpo. Não sei identificar os contemporâneos expostos na sala, nem os designs do mobiliário. Mas são todos espanhóis!!! A villa é espanhola, a festa é espanhola, a roupa é chique, mas espanhola; a alma dos personagens é espanhola, tudo muito carregado, pois ali, naquele pedaço de Europa, no meu modo de ver, nada é soft, não dá para ser.
    As referências aos clássicos da literatura também lá estão, e voce mostra isto muito bem, pois sem dúvida o filme trata da transmutação. Entretanto, para mim, ele vai ao cerne da questão: a vaidade, o poder, e a irresistível paixão que se estabelece entre criador e criatura. Como ambos são parte de uma mesma coisa, não há alternativa: ou sobreviveria o Dr. Robert ou o Vicente/Vera. A Marisa Paredes é a mãe, que protege, sempre presente nos filmes do Almodóvar.
    Gosto muito também dele ter tocado neste ponto da busca da perfeição, obsessivamente, pois muitos fazem plástica, seja para mudança de sexo, cada vez mais comum na Europa, assim como na Espanha, ou para correção estética, como no Brasil, do Rio de Janeiro ao Planalto Central, passando pelo Oiapoque ao Chuí, caindo no vizinho Paraguai, onde é perigoso, mas mais baratinho. Todos vaidosos se envolvem nisto e mostra como, tal como aqui, lá também a ética é jogada para baixo do tapete. O poder do dinheiro se sobrepõe aos limites dados pela ciência/Estado.
    O criador cede à sua paixão e obsessão pela criatura. Depois que o violador é violado, ou seja, paga pelo crime cometido contra sua filha, ele se iguala, pois também se torna um assassino. É Caim que mata Abel, ou, segundo a leitura do Saramago, o mal está com Abel e Caim se defende.
    Além de ser bom de ver, pois a fotografia é maravilhosa, creio que o Almodóvar não teve medo e explicitou sua loucura em A Pele Que habito, não mais necessitando de sátira ou humor. É agora um autor dos grandes. É a Espanha!!!! Lá onde o céu se colore de cores fortes antes e depois das tempestades; lá onde o puritanismo de Isabel de Castella e de Franco forçou o desejo a se esconder e a encontar subterfúgios; lá onde lá onde o “sangre” não é um filete, mas jorrou na expulsão dos mouros pelo cristianismo, na guerra civil onde todos lutaram contra todos, na arena das touradas e pela cama maravilhosa do filme.
    Antes de tudo, o Almodóvar me colocou para pensar na contemporaneidade, e gosto disto!
    Bjs, Glorinha Moraes.

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