IDH Ajustado à Desigualdade

Thiago Resende (Valor, 03/11/11) dá informação de maneira não esclarecedora para o leitor. Afirma que a desigualdade de renda e no acesso à saúde e à educação piorou sensivelmente o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil (IDH) neste ano. O país despencou 13 posições no ranking do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) entre 2010 e 2011 quando se consideram as diferenças de acesso e distribuição dessas três variáveis – no ranking tradicional do PNUD, o Brasil atingiu, em 2011, IDH de 0,718, índice que cai para 0,519, ao ser ajustado pela desigualdade.

No final de sua matéria, porém, pode-se ler que, “neste ano, o levantamento teve 18 países a mais que em 2010, e abrangeu quase que 99% da população mundial. Entre todas as nações pesquisadas, 72 apresentaram elevação no ranking de desenvolvimento humano no período. Três países – Malásia, Turquia e Ucrânia – se destacaram por subir três posições. Por outro lado, a Líbia, por exemplo, caiu dez colocações, mas ainda se mantém à frente do Brasil no 64º lugar”. Só então que o leitor deduz que não houve nenhum outro motivo para “a piora sensível do IDH do Brasil” senão a mudança relativa, devido à entrada de outros 18 países no ranking. Isto serve, mais uma vez, para demonstrar a relatividade dos rankings de qualidade de vida. Esta importa em termos absolutos. Não devemos nos consolar (ou nos orgulhar) por viver melhor do que outros. E, ao contrário, não devemos nos arrasar por viver, relativamente, pior.

No ranking tradicional, o Brasil cresceu uma posição e está no 84º lugar. Aí, então, o jornalista escreve que, “considerando o IDH “normal” [?], o Brasil ficou com o 60º melhor resultado entre 134 nações selecionadas. Quando a lista é refeita com base no IDHAD (ajustado pela desigualdade), o país cai para a 73ª posição. Os dois índices variam de zero a um, sendo que quanto mais próximo de um, mais desenvolvida é classificada a nação”. Na verdade, a tal queda em 13 posições, de um ano para outro, foi no mesmo IDHAD, e não comparativamente com aquele que classifica como “normal”.

O IDHAD é uma proposta recente de cálculo e foi criada após diversas críticas de que o IDH geral, medido pela expectativa de vida, anos de escolaridade, e renda nacional bruta per capita, não retratava a realidade. Apenas combinava indicadores de, respectivamente, saúde, educação e renda. “A depreciação [expressão inadequada do jornalista] entre o índice geral brasileiro e o ajustado é puxada principalmente pela irregular distribuição de renda, de acordo com dados do Relatório do Desenvolvimento Humano de 2011 divulgado ontem em todo o mundo. O segundo pior resultado é na educação”.

Quando o ranking é ajustado à desigualdade, a China (“socialismo de mercado”) supera o Brasil. O mesmo acontece com países como Armênia, Turquia, Tunísia, Sri Lanka, Gabão e Uzbequistão. Na avaliação de especialistas, segundo o jornalista, “é evidente que o indicador sobre oferta de condições de infraestrutura e serviços básicos para a população sofreria com o ajuste”. Rigorosamente, o IDH não indica nada a respeito de infraestrutura, mas sim de serviços educacionais e de saúde. Evidentemente, por toda a herança histórica, o Brasil ainda é muito desigual, embora essa lacuna venha diminuindo nos últimos anos.

O aumento sustentável do salário mínimo e as políticas sociais do governo vão se somando, se acumulando, e a perspectiva é de um cenário positivo, se houver continuidade, em longo prazo. O Indicador de Desenvolvimento Humano não é o melhor parâmetro para avaliar uma política pública em curto prazo. Espera-se que entre cinco e dez anos tenhamos, sim, um impacto das políticas de transferência de renda no índice.

Entre os Brics, grupo de países emergentes, a Rússia sobe sete posições no ranking com o ajuste; China perde uma; Índia sobe uma; e a África do Sul não foi incluída nesta parte da pesquisa. A desigualdade também provoca um deslize de 19 colocações dos Estados Unidos; de 17 posições da Coreia do Sul e de 24 lugares da Colômbia. Suécia e Finlândia, por exemplo, sobem na lista, pois a desigualdade dessas nações é menor que a registrada em outros países.

No IDH básico, o que não considera variáveis de desigualdade, o indicador brasileiro avançou de 0,715 em 2010 para 0,718 em 2011. Com isso, no ranking global que considera 187 nações, o país subiu da 85ª posição para o 84º lugar. O coeficiente nacional continua inferior à média para países de alto desenvolvimento humano, que é de 0,741. O número também ficou abaixo da média da América Latina e Caribe, que foi de 0,731. O Brasil perde da Venezuela (73º lugar), Costa Rica (69º), Argentina (45º) e Chile (44º), por exemplo, mas ganha da Colômbia (87º), El Salvador (105º), Bolívia (108º), entre outros latino-americanos. Bem, e daí? O relevante não é a mudança de posição relativa, mas sim o avanço absoluto! A Teoria da Relatividade não é absoluta…

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