Chimérica I

Niall Ferguson, no livro “A Ascensão do Dinheiro” sobre a história financeira do mundo, afirma que “houve um tempo em que crise americana como esta que vivemos teria afundado o resto do sistema financeiro mundial em uma recessão, se não em uma depressão”, mas a hipótese atual de alguns analistas de cenário é que “o resto do mundo, liderado pela China, está se descolando da economia norte-americana”. Se essa hipótese se confirmar, estaremos vivendo de maneira pacífica uma das mais assombrosas guinadas que jamais houve no equilíbrio global do poder financeiro: o fim de uma era, que se estende por mais de dois séculos, quando o ritmo financeiro da economia do mundo era definido por gente de fala inglesa, primeiro na Grã-Bretanha, depois na América.

A previsão anterior era que a China ultrapassaria os Estados Unidos por volta de 2040. Entretanto, as estimativas mais recentes trouxeram a data para 2027. Os economistas previsores não ignoram os desafios que a China enfrenta, dos quais os menores são as consequências demográficas implantadas pela política totalitária de um único filho e os desastres ambientais da revolução industrial acelerada do Leste da Ásia. Estão também conscientes das pressões inflacionárias na China, dado o repentino aumento nos preços dos alimentos em 2008. Porém, todos reconhecem que a história mudou de direção durante nossa geração.

Embora, durante séculos, Beijing (ou Pequim) tenha sido a maior cidade do mundo, capital da civilização chinesa da era Ming, entre 1700 e 1950, houve grande divergência de padrões de vida entre o Oriente e o Ocidente. Enquanto a China sofreu um absoluto declínio da renda per capita naquele período, as sociedade do Norte ocidental – em particular, a Grã-Bretanha e suas colônias – experimentaram um crescimento sem precedente, graças, em grande parte, ao impacto da revolução industrial.

A China perdeu dois importantes acasos felizes que foram indispensáveis à decolagem do século do século XVIII no Norte Ocidental. O primeiro acaso foi a conquista das Américas e, particularmente, a conversão das ilhas do Caribe em colônias produtoras de açúcar que aliviaram a pressão sobre o sistema agrícola, evitando seus rendimentos decrescentes ao estilo chinês de então. A expansão imperial inglês propiciou alimentos e matérias primas baratas, além de encorajar o desenvolvimento de tecnologias militares úteis como relógios, armas, lentes e instrumentos de navegação, que influenciaram o desenvolvimento do maquinário industrial.

Os problemas da China foram tanto financeiros quanto de recursos de base. O caráter unitário do Império chinês impediu a competição fiscal, que provou ser impulso para a inovação financeira, na Europa do Renascimento, via mercado de títulos. A facilidade com que o Império chinês podia financiar seus gastos imprimindo dinheiro desencorajou a emergência de mercado de capitais ao estilo europeu. A cunhagem de moeda lastreada foi disponibilizada mais rapidamente na Europa, enquanto o saldo comercial negativo da China com o Ocidente não disponibilizava lastro em ouro. Enfim, lá se teve muito menos incentivos para desenvolver notas comerciais, títulos financeiros e ações.

Quando as instituições financeiras modernas finalmente chegaram à China, no final do século XIX, elas chegaram como parte do pacote do imperialismo ocidental. Ficaram, então, vulneráveis aos ataques (seguidos de recuos) patrióticos contra a influência estrangeira.

A globalização não é fenômeno novo, seja em termos de comércio externo, seja em migração internacional e fluxo de capital. Em meados do século XIX, as tecnologias-chave da revolução industrial puderam ser transferidas para todos os lugares. Os atrasos nas comunicações foram reduzidos graças à rede internacional de cabos telegráficos submarinos. Entretanto, a promessa da globalização vitoriana permaneceu em muito não realizada na maior parte da Ásia. Tão profunda foi a reação, em meados do século XX, contra a globalização, classificada como exploração colonial, que os dois países mais populosos da Ásia acabaram se isolando do mercado global dos anos 1950 até os anos 1970.

A deflagração da I Guerra Mundial, seguida de hiperinflação na derrotada Alemanha, Grande Depressão, ascensão do nazi-fascismo e II Guerra Mundial, pode ser compreendida como uma espécie de reação (ou fechamento) contra aquela globalização, inclusive por parte das elites agrárias europeias, cuja posição social fora minada por décadas de declínio dos preços agrícolas e pela emigração da mão de obra rural excedente para o Novo Mundo, isto é, as Américas. Será que haverão reações imprevistas similares, na atual geopolítica mundial, devido à última versão da globalização comandada pelos Estados Unidos?

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