Chimérica II

Para muitos intérpretes de longas ondas, após breve século de interregno, a história financeira retoma o desdobramento da história antiga da China imperial. O mercado teria memória curta. Os anos recentes de boom na riqueza, com inflação de preços de todos os ativos, ocorreram em contexto com disparidade de juros, desequilíbrios comerciais e riscos políticos em regiões produtoras de petróleo. A chave dessa aparente contradição residiu na China. Ela não só ultrapassou a derrocada de seu passado imperial como também conseguiu evitar o tipo de crise que, periodicamente, explode em outros mercados emergentes.

Quando os chineses quiseram atrair o capital estrangeiro, insistiram que este tomasse a forma de investimento direto. Em vez de tomar empréstimos nos bancos ocidentais para financiar seu desenvolvimento industrial, como muitos outros mercados emergentes fizeram, eles barganharam com sua escala que os estrangeiros construíssem fábricas, ou seja, ativos que não podem ser retirados durante uma crise.

O ponto crucial, entretanto, é que a parte principal e volumosa do investimento chinês foi financiada com o funding gerado na própria China. Em contraste com os ocidentais, as famílias chinesas não contam com regime de previdência social. Reduziram suas despesas, devido à política de filho único, e educam-no para que ele lhe dê suporte financeiro na fase de vida inativa. As corporações chinesas recorrem bastante à retenção dos lucros, para autofinanciamento, não os distribuindo via bônus e dividendos, tal como ocorre nos Estados Unidos. Os superávits comerciais se avolumaram tanto que propiciaram seguidos superávits no balanço de transações correntes. Consequentemente, cresceram as reservas cambiais aplicadas em ativos dolarizados.

A melhor maneira para a China empregar sua imensa população economicamente ativa era produzir em grande escala (e com alta produtividade) e exportar manufaturas baratas para os consumidores do resto do mundo, particularmente para os norte-americanos. Todos os países com essas importações refrearam os índices de custo de vida. Para assegurar que essas exportações fossem irresistivelmente baratas, a China teve que lutar contra a tendência da moeda chinesa ser apreciada face ao dólar. Adquiriu, então, trilhões de dólares nos mercados do mundo.

Por um lado, ao “terceirizar a fabricação” para a China – em 2000, os Estados Unidos respondiam por 26,6% e a China por 6,6% do total do valor adicionado gerado pela indústria mundial; em 2009, os números modificaram-se para 18,9% e 15,6%, respectivamente, ou seja, os dois países em conjunto, praticamente, mantiveram a participação (de 33,2% para 34,5%), evidenciando a extensão com que se deu a transferência de atividade industrial dos Estados Unidos para a China –, as corporações norte-americanas se aproveitaram do custo da mão de obra chinesa. Por outro lado, ao vender trilhões de títulos financeiros dolarizados ao Banco da China, os Estados Unidos conseguiram usufruir de taxa de juros significativamente mais baixa do que teria sido o caso na ausência deste.

Niall Ferguson batiza este “país dual” de “Chimérica” – China mais América –, que possui pouco mais de um décimo da superfície da Terra, um quarto de sua população, um terço de sua produção econômica e mais da metade do crescimento econômico global nos últimos oito anos. O equilíbrio instável era suportado por chimericanos ocidentais que consumiam e chimericanos orientais que os financiavam. As importações vindas do Oriente mantinham a inflação norte-americana baixa. As reservas chinesas resultavam em taxas de juros atraentes nos Estados Unidos. A mão de obra chinesa competia rebaixando os custos dos salários norte-americanos. Era extraordinariamente barato realizar “o sonho americano” para velhos e novos ricos: dinheiro farto e barato, lucros, dividendos e bônus em profusão, efeito riqueza devido à alta nos mercados imobiliário e de ações.

Qual foi a “pegadinha”? Quanto mais a China se dispunha a financiar aos Estados Unidos, mais norte-americanos se dispunham a tomar empréstimos. A Chimérica, em outras palavras, foi a causa subjacente de abundantes empréstimos bancários, emissões de títulos financeiros e derivativos criados pelo Planeta Finanças a partir do Novo Milênio. Foi o fundamento para a criação de fundos hedge e os financiamentos para aquisição do controle de empresas alavancadas. O “dinheiro fácil” permitia aos “subprime” conseguirem uma hipoteca de 100% da casa sem renda, sem emprego e sem patrimônio!

Como, então, sacrificá-los como “bode expiatório” da crise ocorrida no mercado imobiliário? Por que não os chineses e sim os habitantes pobres da própria América? Poucos norte-americanos compreenderam que o não pagamento das hipotecas subprime poderia destruir o valor dos novos instrumentos exóticos garantidos por ativos, como as “obrigações de dívida colaterizada”. Não anteciparam que, quando as perdas se acumulassem, o mercado interbancário paralisaria, travando todos os empréstimos ao setor privado. Ninguém esperava corrida bancária nessa altura dos acontecimentos históricos.

O surgimento dos fundos hedge foi apenas uma parte da história da reorientação pós 1998 das finanças globais. Ainda mais importante foi o crescimento dos fundos soberanos, entidades criadas pelos países com grandes saldos comerciais, para administrar sua riqueza acumulada. Esses fundos soberanos tinham sob sua administração muito mais do que todos os fundos hedge do mundo, e não muito atrás dos fundos de pensão estatais e das reservas administradas por Bancos Centrais. Apesar do alardeado “fundamentalismo de mercado”, curiosamente, entre os maiores vencedores do último boom e, talvez, do pós crash, estão essas entidades de origem estatal. O Estado, mais uma vez, subjugou O Mercado?

A distorção da imagem da realidade de acordo com cada ideologia classista e/ou interesse nacional leva à tensão política detectável na relação simbiótica da Chimérica. Os ideólogos do fundamentalismo conservador norte-americano repugnam o que é apresentado por eles como competição injusta e manipulação cambial da parceira. Os ideólogos do socialismo de mercado chinês criticam o afrouxamento monetário nos Estados Unidos que equivale à versão a la americana de manipulação da moeda.

Como essa guerra cambial rebateu no mercado futuro, e coincidiu com as pressões simultâneas de oferta e demanda em quase todos os mercados por commodities, o resultado tem sido a alta de preços dos alimentos, do petróleo e das matérias-primas. O aumento dos preços das commodities, por sua vez, está intensificando as pressões inflacionárias, inclusive na China. Encoraja sua extraordinária escalada pelos recursos naturais da África e da América Latina, vista pelos concorrentes como expansão imperialista.

A Chimérica diminui a distância entre a simbiose e a rivalidade. A deterioração das relações geopolíticas entre a China e a América poderá disparar outra quebradeira da globalização, como a que aconteceu em 1914? As origens sistêmicas daquela I Guerra Mundial estiveram no colapso do comércio externo, na competição por recursos naturais e no embate de civilizações. A atual elevação dos preços das commodities reflete antecipação realizada pelo mercado de um conflito que se aproxima? Ou o fim desta era de hegemonia de gente de fala inglesa e a transição para nova ordem internacional se darão de maneira pacífica e ordeira?

 

2 thoughts on “Chimérica II

  1. Brasil e China são grandes parceiros comerciais e ambos possuem muitas oportunidades de negócios. Para aproveitar da melhor forma possível esta troca de informação, é necessário conhecer muito bem a língua, a cultura e as formas de negociação que cada país apresenta. Sou brasileiro e atuo como intérprete de mandarim (Chines) – português – inglês, atendendo empresários brasileiros que vêm à china para participar de feiras (canton fair – feira de cantão) ou visitar fábricas e fornecedores. Moro na China há 3 anos e tenho um vasto conhecimento na geografia física e econômica da china, trabalho com importação e exportação, auxilio brasileiros que queiram fazer negócios com empresas chinesas. Sou certificado com o teste de proficiência de chinês com ênfase em vendas e negociação, estou utilizando a fluência em chines para estar aplicando no meu trabalho. Faço pesquisas para achar fornecedores, auditoria de fábricas, controle de qualidade, inspeção de embarques e sourcing de produtos diversos.
    • Assessoria para negócios internacionais
    • Representação de empresas internacionais
    • Prospecção de fornecedores
    • Assessorias acompanhamento de todo o processo de importação e exportação
    • Participação de feiras internacionais
    • Acompanhamentos viagem de negócios, visitação aos fornecedores e fábricas
    • Negociação em Chinês (Mandarim), Português e Inglês
    • Serviço de Tradução e Intérprete na China

    Estou a sua disposição e pronto para começar uma parceria de sucesso. Para melhores informações entre em contato comigo ou acesse o site.

    Theo Paul Santana (张飞)
    Telefone: +86 1500-399-2705
    E-mail:theops2@gmail.com – Skype: theops2
    http://imandarim.blogspot.com/
    http://imandarim.tumblr.com/

    • Irei abrir uma exceção à regra deste blog ser “amador”, não visando tirar proveito profissional, devido à alegria pela quebra do recorde de visitas diárias ontem, dia 21 de maio de 2012: 3006 visitas!
      E por ter recebido visita até da China!
      att.

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