Chamada de Margem: Para Apreciar o Filme “Margin Call — O Dia Antes do Fim”

Elaine Guerini (Valor, 02/12/11) escreve sobre o filme a respeito da crise financeira de 2008, que foi aguardado ansiosamente por especialistas, “Margin Call — O Dia Antes do Fim”. Em operações com ações a futuro, as “chamadas de margem” são operações bastante comuns nas carteiras dos traders. As câmaras de compensação pedem margem [de segurança] e a não observação delas pode trazer muitos prejuízos. Exemplos destas operações são os termos, o aluguel de papéis para venda a descoberta de ações, travas de baixas e outras.

A margem é solicitada pela câmara de compensação tendo o objetivo de garantir que todas as operações vão ser realizadas sem problemas de entrega de papel ou de saldo financeiro nas carteiras. O problema de bancarrota ocorre quando os valores de mercado despencam, em direção contrária à da aposta, e os acionistas controladores do  banco de investimentos extremamente alavancado não possui capital próprio suficiente para cobrir as crescentes chamadas de margem.

O objetivo principal do ajuste de fechamento é a manutenção, a cada dia, dos valores das posições compradas e vendidas de qualquer contrato nos exatos níveis em que foram negociados. Aquele que se beneficia de movimento de preços a favor de sua posição – na alta, se comprado, na baixa, se vendido – recebe crédito; daquele que sofre movimento contrário cobra-se débito. É como fosse seguro de automóvel, caso este fosse sempre cotado a preço de mercado. A diferença é que, no caso do seguro de automóvel realizado pelo valor de mercado, o prêmio é reajustado mensalmente, e não diariamente, como na chamada de margem no mercado de futuros.

Oliver Stone recorreu à crise financeira mundial para revisitar um de seus personagens mais lendários, o yuppie da Bolsa vivido por Michael Douglas, em “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” (2010). Já Charles Ferguson preferiu dissecar as causas e os culpados pela Grande Recessão em documentário, “Trabalho Promíscuo” (2010). O que ainda faltava, na visão do cineasta J.C. Chandor, era uma abordagem mais intimista da crise econômica que estourou em 2008.

É exatamente o que ele propõe. O filme retrata as artimanhas nos bastidores, dando rosto às pessoas que escolheram  salvar a pele e a fortuna ao perceber a quebradeira que viria pela frente — mesmo sabendo que suas ações só acionariam o botão para a crise.

“Sempre me perguntei como as pessoas que empurraram o mundo na direção do abismo conseguiam viver com suas escolhas”, disse Chandor, estreante em longa-metragem. O roteiro que ele escreveu acompanha, em período de 24 horas, as decisões de executivos e funcionários de um banco de investimentos, assim que eles se dão conta de que algo está errado.

“Como meu pai trabalhou por quase 40 anos para a Merrill Lynch [banco de investimentos adquirido pelo Bank of America], esse mundo das finanças nunca foi totalmente estranho para mim”, contou o diretor de 37 anos. Ele assegurou ainda mais a autenticidade da obra ao usar o pai e alguns de seus colegas aposentados como consultores do filme.

Kevin Spacey, cujo personagem é designado para fazer o papel de operar as negociações, declarou: “Fui atraído por seu dilema moral. Ele sabe que não é a coisa certa a fazer e se tortura por isso, mas não pode perder o emprego”. Sem vida pessoal, o único afeto parece ter sido com sua cadela em fase terminal. Afinal, reconhece que, apesar de já ter acumulado fortuna, depende ainda daquele dinheiro, provavelmente para pagar pensão para ex-mulher e filhos.

Margin Call — O Dia Antes do Fim” tem início com a demissão de um analista de risco, interpretado por Stanley Tucci, com mais de 20 anos de serviços prestados ao banco. Antes de abandonar o posto, ele deixa um pen drive com um de seus pupilos (Zachary Pinto), pedindo para ele analisar o modelo arquivado.

Depois de muitos cálculos, o rapaz percebe que os produtos financeiros da empresa apontam para perdas superiores ao valor total do capital do banco. Assim que o jovem comunica a descoberta aos seus superiores (Paul Bettany e Kevin Spacey), não demora muito para toda a cúpula do banco ser acionada, em plena madrugada, para fazer reunião de emergência. A equipe inclui dois executivos (Simon Baker e Demi Moore) e o CEO da companhia (Jeremy Irons), cuja chegada de helicóptero para tomar a decisão que desencadeará a crise é comparada com “o ataque da Sétima Cavalaria”.

“Como homem de negócios que é, meu personagem vê a situação como um problema matemático a ser resolvido. Ele não se considera uma pessoa má, apesar do que faz”, contou Jeremy Irons, vencedor do Oscar pelo desempenho em “O Reverso da Fortuna” (1990), referindo-se à escolha do CEO de vender os produtos antes que o mercado financeiro perceba que não têm valor algum. Seu personagem explica a decisão com a frase: “Há três maneiras de ganhar a vida nesse negócio: ser o primeiro, ser o mais inteligente, ou trapacear”. Como trapacear a firma rejeita, aparentemente, o mais inteligente reconhece que não é, o único jeito de não deixar a sua empresa ir à falência é o CEO dar a ordem de vender primeiro algo que sabe que nada valerá logo depois. Romperá todos os laços de confiança com a clientela formada por outros investidores. Desencadeará impacto histórico na economia mundial e na vida de milhões de pessoas que ele destruirá.

O trabalho de negociação cai nas mãos do chefe do “trading floor” da empresa (Spacey), o homem que mandará seus subordinados venderem os ativos pelo preço mais elevado possível. Obviamente, os operadores precisarão omitir a verdade aos seus clientes, oferecendo os “produtos tóxicos” como oportunidade. “Fui atraído pelo dilema moral do meu personagem, para quem tudo parece dar errado na vida”, afirmou Spacey, premiado com dois Oscars (com “Beleza Americana” e “Os Suspeitos”). “Ele sabe que não é a coisa certa a fazer e se tortura por isso, mas não pode se dar ao luxo de perder o emprego. Assim como muitos funcionários de bancos na vida real, ele participou da engenharia do desastre simplesmente por estar cumprindo ordens.”

Foi esse aspecto humano que instigou Zachary a participar do filme, selecionado também para o Festival de Sundance deste ano. Ficou conhecido como a versão jovem de Mr. Spock em “Star Trek” (2009). No Margin Call, ele acumula a função de ator com a de produtor. “O olhar de Chandor não julga os seus personagens. Até mesmo os mais impiedosos. O espectador apenas os acompanha, vendo de perto o preço que eles pagam por suas ações, ainda que eles mesmos não percebam isso na hora.”

Para Paul Bettany, o público se acostumou a pensar em Wall Street como um conjunto de arranha-céus, mostrado continuamente em vista aérea. “Como se fosse uma máquina que funcionasse sozinha. Mas há emoções ali dentro, pessoas que lidam com seus medos, suas frustrações e culpas. O fato de muitos profissionais de Wall Street terem saído ilesos, pulando fora antes de o barco afundar, não quer dizer que eles não tenham sofrido com um ônus emocional”, disse o ator. Este é muito lembrado pelos papéis do monge da Opus Dei de “O Código Da Vinci” (2006) e do fantasma que atormenta o matemático John Cash de “Uma Mente Brilhante” (2001).

A proposta de Chandor não foi execrar, entender ou mesmo desculpar os homens que orquestraram a crise. “Queria mergulhar na vida interior dessas pessoas.” A cena de Demi Moore vendo o dia amanhecer pela janela de vidro do seu escritório é uma de suas favoritas. “Gosto da ironia do momento, ao ver uma mulher tão poderosa num momento de grande fragilidade. Dá para imaginar o turbilhão que estava na sua cabeça”, comentou o diretor. Aliás, o sucesso do filme se dá em função da extraordinária interpretação emocional dos excelentes atores, desde o iniciante ambicioso de 23 anos, que pergunta o tempo todo quanto os outros ganham, até o CEO.

A opção de rodar praticamente todo o filme no 47o. andar de um prédio de Nova York contribuiu para a abordagem mais pessoal. “Os atores não tinham para onde correr. Pode parecer brincadeira, mas o fato de o elenco não se esconder no trailer no intervalo das filmagens sempre cria uma atmosfera mais intimista.” E o conceito do filme casou-se perfeitamente com o seu orçamento, de apenas US$ 3 milhões. “O filme tipo submarino, quando todos os atores ficam trancafiados no mesmo cenário, é sempre o mais barato.”

Se quisesse, o cineasta poderia alcançar orçamento mais generoso, buscando mais investidores para o título, basta ver que a bilheteria logo alcançou US$ 8,2 milhões. “Mas achei que perderia crédito se, ao mesmo tempo em que tratasse da irresponsabilidade no mundo dos negócios no filme, eu estivesse fazendo algo parecido com a minha carreira. Afinal, este é o meu primeiro longa.”

Chandor espera ver mais obras sobre a crise financeira mundial nos cinemas. “Precisamos de múltiplas visões sobre o tema por ele ainda promover um debate muito pertinente. Até porque estamos no meio do processo. Ninguém sabe ainda como essa história vai acabar.”

Leia mais (texto enviado por meu ex-orientando Giovanni Damiano, que trabalha com “Chamada de Margem”, e deu-me a dica a respeito do filme):

What Really Killed MF Global

By Tim Beyers and Matt Koppenheffer | More Articles
December 1, 2011 | Comments (2)

No one doubts that former New Jersey governor Jon Corzine helped destroy MF Global (OTC: MFGLQ). But if you think that his strategy to transform the futures and commodities broker into an investment bank was stupid, you’re wrong.

Don’t believe us? Look at the data:

Company

Operating Income Margin

Net Income Margin

Return on Equity

MF Global 7.9% 3.2% NM
INTL FCStone (Nasdaq: INTL  ) 5.8% 3.7% 1.5%
Penson Worldwide (Nasdaq: PNSN  ) 14.4% 8.4% 10.3%

Source: S&P Capital IQ. MF Global data for March fiscal years ending 2006 to 2008. MF Global return on equity has been excluded because it was a public company for only one reporting period covered; pre-IPO shareholders’ equity does not reflect the capital requirements of the stand-alone company. FCStone data for September fiscal years ending 2005 to 2007. Penson Worldwide data for December fiscal years ending 2005 to 2007.

Now look at the same figures for some of the major investment banks:

Company

Operating Income Margin

Net Income Margin

Return on Equity

Goldman Sachs (NYSE: GS  ) 36.6% 24.3% 24.7%
Morgan Stanley (NYSE: MS  ) 22.1% 19.4% 14%
JPMorgan Chase (NYSE: JPM  ) 34.3% 21.4% 11%

Source: S&P Capital IQ.

Why wouldn’t Corzine want what his former firm, Goldman Sachs, had? Any sane evaluation of the environment in which MF Global was operating shows that brokers were getting pinched by cutthroat competition. Corzine’s best bet for growing earnings was to return to the investment banking model he grew up with.

Here’s how he explained the rationale at a Sandler O’Neill investment conference in June 2010: “I think we have missed a significant opportunity to deepen our relationships with our clients because we’re not in the principal risk-taking activity in a market-making sense, not in a proprietary book sense, but in a market-making sense with respect to our clients.”

He followed up a year later at the same Sandler O’Neill conference, saying:

We have been transitioning over these 14 months into a broker dealer, and we have every intent on [becoming] an investment bank in due course. … I think actually this diversification is showing that we are actually building multiple streams of income, which actually makes us less risky. That’s one man’s opinion.

Bet big or go home
There’s no mistaking Corzine’s thinking. He believed remaking MF Global into a principal-risk-taking investment bank in the image of Goldman Sachs would be safer. Former MF Global employees we’ve spoken with agree the firm had little choice but to diversify, though for the sake of profit rather than risk reduction.

Reporting by The Wall Street Journal corroborates this view. In a piece published earlier today, the newspaper quotes anonymous sources who point out that Corzine viewed big bets from a principal trading desk as the key to returning MF Global to profitability following years of losses.

But unlike larger peers, MF Global under Corzine lacked a series of checks on the CEO’s bets. Only the board had oversight. Chief Risk Officer Michael Stockman, meanwhile, played the role of helping Corzine present his trading strategy to the board, the Journal reports.

Could it be he was swayed by the math behind the new business model? Corzine described the profit opportunity in detail at the June 2010 Sandler confab:

You look at principal transactions [that] are only 14% and we do that mostly unmatched. You find the buyer and the seller, put them together and that’s a principal transaction. If we run trading books, that 14% could easily be one-third of our earnings. I think [if you] look at some of the bulge bracket firms [they put up] significantly higher numbers, [there is] plenty of room for growth there.

In other words, based on what he knew about the trading operations of big investment banks, Corzine rightly saw a potential windfall within MF Global’s grasp. He crafted a strategy to take advantage.

Executed by execution
Yet even good strategy coupled with poor execution will always produce poor results, and that seems to be what happened here.

Again, consider oversight. The systems and culture for properly balancing risk and reward at an investment bank take time to develop, and judging by the Journal‘s reporting, MF Global never took the steps needed to create the sorts of controls common to larger peers — including Corzine’s former employer, Goldman Sachs.

Corzine had to know this was an issue. He spoke publicly of the need for tight controls at MF Global after joining the firm in March 2010: “Making certain that you don’t have the kind of car crash that this organization experienced back three or four years ago is essential by having tight controls, tight compliance, and making it part of the culture. And that’s the kind of people we’re hiring, and that’s the kind of culture we’re building.”

The quote seems to refer to a $141.5 million loss incurred in February 2008, when a so-called rogue trader named Evan Dooley made a bad bet on wheat futures. Was Corzine’s thinly vetted bet on European debt really so different? Systematic oversight appears to have been lacking in both instances.

A cold cup of comfort
Corzine’s desire to turn MF Global into an investment bank made sense on several levels. But he was rash about the process. Checks and balances were pushed aside when he became CEO, big-money trader, and risk manager.

It’s as if hubris on a Greek scale allowed Corzine to believe he could make the shift happen more quickly than history and his own experience as an investment banker would suggest. Yet the board, regulators, auditors, and fellow executives did nothing to stop it. Shame on Corzine, but shame on them, too.

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