Linha Oficial de Pobreza nos Estados Unidos

Alex Ribeiro (Valor, 11/11/11) mostra que, em fins da década de 1950, a estatística Mollie Orshansky calculou quanto uma família com quatro pessoas gasta com comida ao longo de um ano. Em seguida, multiplicou o número por três, assumindo a premissa de que a alimentação representa um terço do orçamento familiar típico. Essa é, desde então, a linha oficial de pobreza nos Estados Unidos. Em 1959, 22,4% da população americana estavam abaixo desse nível. Hoje, há um consenso entre os economistas de que os critérios para definir a pobreza estão defasados.

Os professores Bruce Meyer, da Universidade de Chicago, e James Sullivan, da Universidade de Notre Dame, defenderam a tese de que a linha oficial de pobreza subestima o progresso no combate à miséria, durante um seminário organizado pelo American Enterprise Institute (AEI), um importante centro de estudos conservador de Washington. “Ao contrário do que diz a sabedoria convencional, os pobres estão melhor hoje do que há 30 anos”, disse Sullivan. A renda aumentou, e o consumo, mais ainda, graças aos programas sociais. Mas ele reconhece que a situação não é para celebração. “É um pouco embaraçoso falar em progressos justamente agora, dada a situação econômica dos Estados Unidos.”

Há dois problemas principais com as estatísticas oficiais. Primeiro, usam índices de preços distorcidos para atualizar a linha de pobreza. Até a década de 1990, eram muito lentos para incorporar mudanças na cesta de consumo das famílias. Outro problema é que a linha oficial de pobreza é calculada antes do pagamento de impostos. Por esse critério, alguns importantes programas sociais são ignorados pelas estatísticas, como os cupons para compra de alimentos, conhecidos como “food stamps“, e alguns subsídios para moradia. Na prática, isso significa que o consumo dos pobres é maior do que a renda.

Meyer e Sullivan resolveram, então, olhar o padrão de vida dos mais pobres a partir do consumo, em vez da renda, baseando-se em números oficiais do Departamento do Trabalho. Também fizeram alguns ajustes, para compensar a defasagem nos índices de preços. A conclusão é de que o índice de pobreza nos Estados Unidos recuou de 13% da população, em 1980, para cerca de 3% em 2009.

Meyer e Sullivan chamam a atenção para uma pesquisa do Escritório do Censo que mostra que os 20% da população que estão na base da pirâmide de renda nos Estados Unidos vivem em casas com, em média, 5,7 cômodos e 155 metros quadrados. As residências estão, de forma geral, em boas condições e bem equipadas, mostra a pesquisa. Apenas 12% das casas apresentaram algum tipo de goteira no ano anterior à pesquisa e 83% eram equipadas com ar condicionado central ou individual. Uma outra pesquisa do Departamento do Trabalho mostra que, entre os 20% mais pobres, 76% têm pelo menos um carro.

Outros dois economistas, da Heritage Foundation, centro de estudos de linha conservadora de Washington, divulgaram recentemente resultados de uma pesquisa com os quais procuram demonstrar que os índices de pobreza são exagerados nas estatísticas oficiais dos Estados Unidos. “Apesar de a mídia publicar histórias alarmantes sobre fome severa e generalizada, a realidade é que a maior parte dos pobres não passa fome”, escreveram Robert Rector e Rachel Sheffield.

Segundo eles, 96% dos chefes de famílias pobres afirmaram em pesquisa do Departamento de Agricultura que suas crianças não passaram fome em nenhum momento de 2009. “As redes de televisão geralmente retratam os pobres como moradores de rua ou famílias destituídas que vivem em trailers”, afirmam no relatório Rector e Sheffield. Na verdade, argumentam, ao longo de um ano, 4% dos pobres ficaram sem teto. Apenas 9,5% dos pobres vivem em casas móveis.

O outro lado das estatisticas compiladas pela Heritage Foundation, porém, não é menos assustador. Os números significam que, entre 43,6 milhões de pobres estimados para 2009, 4% das crianças e 18% dos adultos passaram fome. Os 9,5% que vivem em trailers representam um número não desprezível de quase quatro milhões de pessoas.

O Escritório do Censo publicou uma medida alternativa de pobreza. Por essa metodologia, são considerados benefícios como os cupons de alimentação, mas também são incorporadas despesas antes subestimadas, como gastos com saúde, cujo peso no orçamento doméstico subiu muito nos últimos anos. Por essa medida alternativa, a taxa de pobreza sobe de 15,1% para 16% no país.

Adotado esse critério, os latinos são o grupo mais pobre nos Estados Unidos, com um índice de 28,2% (26,7% na medida anterior). O índice de pobreza entre os afrodescendentes cai de 27,6% para 25,4%. Os latinos têm menos acesso a programas sociais porque parte da comunidade é formada por imigrantes ilegais. Entre os que não são cidadãos americanos, o índice de pobreza é de 32,4%.

Mesmo assim, na média, a pobreza americana é bem menos intensa do que no resto do mundo. Com US$ 22,1 mil, linha oficial de pobreza nos Estados Unidos, uma família se estabelece muito bem na classe média brasileira. O valor equivale a mais de R$ 3 mil por mês.

“A pobreza absoluta é mais severa em países como o Brasil”, afirmou ao Valor Alan Berube, que estuda pobreza urbana no Brookings Institution, um centro de estudos de Washington. “Mas no país mais rico do mundo não é demais esperar que as famílias não estejam preocupadas em conseguir sua próxima refeição.”

A pobreza parece mais intensa também porque, nos últimos anos, os Estados Unidos se tornaram um país com mais desigualdade social. Os economistas Thomas Piketty, da Escola de Economia de Paris, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley, publicaram o mais consagrado estudo sobre concentração de renda.

Eles coletaram dados de declarações de imposto de renda para mostrar a evolução da renda dos 1% mais ricos da população em período de 95 anos. O resultado é uma enorme curva em formato de “U”. Até a recessão de 1929, 1% da população ficava com cerca de 18% da renda gerada nos Estados Unidos. A fatia dos super-ricos na renda nacional caiu para 8% no pós-Guerra e por aí ficou até fins da década de 1970. A partir de então, entrou em trajetória de alta, até chegar ao pico de 18% pouco antes do início da Grande Recessão.

Estudo divulgado recentemente pelo Escritório de Orçamento do Congresso, um orgão apartidário, mostra que a renda dos 1% mais ricos cresceu 275% entre 1979 e 2007. Para os outros 19% que compõem a faixa mais rica da população, o ganho foi de 65%. Os 60% que formam o bloco do meio da população ganharam 40% no período. Já os 20% com menor renda tiveram um ganho de 18%.

Várias teorias tentam explicar o aumento da desigualdade nos Estados Unidos. A esquerda afirma que ela é resultado da política de corte de impostos, desregulamentação e enfraquecimento dos sindicatos implementada a partir do governo Reagan. Alguns estudos, porém, ligam a concentração de renda ao surgimento de uma geração de superastros, que inclui não só atletas e artistas, mas também executivos que controlam enormes conglomerados financeiros e empresariais.

Tradicionalmente, os Estados Unidos sempre foram um país em que cada geração vivia melhor do que a anterior. Hoje, isso já não é mais verdade. Segundo dados do Escritório do Censo, em 2010, um trabalhador homem médio ganhava US$ 47.715 por ano, não muito acima dos US$ 47.550 recebidos em 1972, ajustados pela inflação. Muitos contestam esses dados, afirmando que, de novo, a inflação usada nessas estatísticas é superestimada e esconde o ganho de renda da classe média. Os mais dramáticos, porém, dizem que, do jeito que a coisa vai, este será um país sem classe média.

A desigualdade é um tema muito maior do que a pobreza“, afirma Berube, do Brookings Institute. “A pobreza afeta 15% da população, mas a desigualdade significa que dois terços da sociedade estão vendo sua fatia no bolo diminuir, seu padrão de vida diminuir, enquanto os que estão no topo só melhoram.”

2 thoughts on “Linha Oficial de Pobreza nos Estados Unidos

  1. Fernando:
    Muito bom seu estudo sobre a pobreza
    nos EE.UU., pois muitos pensam que
    não há pobres lá (apesar de você frisar
    que há menos pobres que em outros
    países.
    Poderia informar-me: quantos habitan
    tes havia nos EE.UU. apurado no
    Censo de 1959?
    Grato.
    Cid Velloso

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