Pobreza nos Estados Unidos

 

Alex Ribeiro (Valor, 11/11/11) informa que não faltam sem-tetos nos Estados Unidos, mas, na média, a pobreza americana é menos intensa que no resto do mundo. Hoje, 15,1% da população americana são pobres. Cerca de 10 milhões caíram nessa condição de 2007 para cá, quando começou a Grande Recessão. Mas antes disso a coisa já vinha mal. Em 2007, um anos antes do estouro da crise, a taxa de pobreza se encontrava em substanciais 12,5%, pior do que os 12,1% registrados em fins da década de 1960, quando o então presidente Lyndon B. Johnson declarou guerra à pobreza, criando novos programas sociais. “Meus amigos, alguns anos atrás o governo federal declarou guerra à pobreza, e a pobreza venceu”, disse em 1988 o então presidente Ronald Reagan.

A cidade de Reading, no Estado da Pensilvânia, ainda conserva um pouco de seu orgulho industrial do passado, quando forneceu aço para o esforço de guerra nos dois grandes conflitos mundiais. As ruas são limpas e bem calçadas. Seus 88 mil habitantes vivem em sobradinhos geminados com varanda na porta. Só que milhares de casas estão abandonadas.

Uma creche de Reading que sempre teve fila de espera agora não consegue preencher as vagas porque as mães estão desempregadas. Albergues lotaram com famílias que ficaram sem teto pela primeira vez. Quase dobrou o volume de alimentos distribuídos pelo condado da região.

Há algumas semanas, a cidade ganhou o título de a mais pobre dos Estados Unidos e virou símbolo da tragédia humana causada pela Grande Recessão. Quatro em cada dez pessoas vivem abaixo da linha de pobreza em Reading, no país em que, segundo dados do Escritório do Censo, chegou-se à marca de 46,2 milhões de pobres em 2010, recorde histórico.

Quem trabalha em mercado nos subúrbios mais afluentes de Reading e ganha US$ 10 dólares por hora. Dentro da cidade, trabalhos semelhantes pagam o salário mínimo americano, de US$ 7,25 por hora. Com uma jornada de trabalho de oito horas por dia, o salário mínimo rende cerca de US$ 15 mil por ano. Esse rendimento nem sempre é suficiente para ultrapassar a linha oficial de pobreza. São consideradas pobres nos Estados Unidos as famílias com dois adultos e duas crianças que ganham menos de US$ 22,1 mil por ano. Ou famílias com um adulto e duas crianças com renda de até US$ 17,6 mil.

A decadência de Reading começou no pós-guerra, quando a indústria pesada abandonou a área e a classe média se mudou para os subúrbios. A população da cidade encolheu de 110 mil para 78 mil habitantes entre 1940 e 1990. O esvaziamento econômico e populacional fez o preço das casas cair e, nas últimas duas décadas, atraiu imigrantes latino-americanos que procuravam fugir do alto custo de vida de Nova York e Nova Jersey.

Uma casa pode custar apenas US$ 40 mil em Reading, uma pechincha para os padrões americanos. Muita gente dividiu imóveis em pequenos apartamentos para alugá-los, cobrando a partir de US$ 400 mensais. A população voltou a crescer, chegando aos 88 mil habitantes atuais. “Reading ficou conhecida como um dos melhores e mais baratos lugares dos Estados Unidos para criar a família”, afirma Michael Toledo, do Centro Hispano.

Hoje, os latino-americanos respondem por 58% da população de Reading, com uma grande colônia de porto-riquenhos. É uma concentração bem mais alta do que nos Estados Unidos como um todo, onde os hispânicos são 16,3% da população. O índice de pobreza entre os hispânicos é de 26,6%, quase três vezes o percentual de 9,9% observado entre os brancos. Entre a população afrodescendente, o índice de pobreza é ainda mais alto, com 27,4%.

A competição com a China e outros países com mão-de-obra barata drenou os empregos industriais de Reading. Em 2001, a cidade já era a 32ª mais pobre dos Estados Unidos e, em 2007, antes da crise econômica, estava na lista das dez mais pobres. “Quando esse tsunami econômico nos atingiu, fomos pegos numa situação já bastante difícil”, afirma Toledo.

Outro fator que empurra a cidade para a pobreza é o baixo nível de educação. Entre a população latina de Reading com 25 anos ou mais, cerca de 70% não conseguiram completar o ensino médio. Nos Estados Unidos, quem não conclui o ensino médio tem oito vezes mais chances de ser pobre do que os com diploma universitário.

Em meio à recessão, porém, ficou mais difícil para os pais manterem os filhos na escola. “Já vi crianças frequentando quatro escolas diferentes num mesmo ano letivo”, afirma Modesto Fiume, descendente de italianos que preside a Opportunity House, uma instituição de assistência social. “Os pais estão mudando de um lugar para outro para tentar achar emprego.” A taxa de desemprego na região metropolitana de Reading é de 8,6%, abaixo dos 9,1% observados nos Estados Unidos como um todo, mas para a parcela mais pobre da população é mais difícil conseguir trabalho.

Antes da crise, uma das principais demandas da comunidade eram vagas em creches. Havia 300 crianças matriculadas na escolinha e berçário da Opportunity House, que funciona 24 horas por dia, de segunda a domingo. Para atender as cerca de cem crianças que estavam na fila de espera, decidiu-se construir um novo prédio num lote doado da prefeitura, com US$ 3,5 milhões levantados em doações. Hoje, a nova creche está pronta, mas há apenas 230 crianças matriculadas. “Os empregos desapareceram”, explica Fiume.

Enquanto isso, a procura no albergue mantido pela associação se multiplicou. Hoje, todas as 75 vagas estão ocupadas, algo que só acontecia no período mais rigoroso de inverno. A maior parte dos admitidos está sem teto pela primeira vez na vida. Cerca de 25 pessoas vivem permanentemente nas ruas de Reading. Das 34 mil casas da cidade, mais de 4 mil estão desocupadas. “Algumas famílias que perderam a casa estão vivendo dentro de carros”, diz Fiume.

O volume de alimentos distribuídos pelo condado da região quase duplicou desde o estouro da crise, em 2007. Até a prefeitura de Reading enfrenta dificuldades. Para evitar a declaração de insolvência, o município entrou num programa de socorro oferecido pelo governo estadual.

“Antes, quem mais nos procurava eram imigrantes que não conseguiam se estabelecer na cidade e às vezes queriam uma passagem de volta para o país de origem”, afirma Luis Alier, assistente social que faz atendimento de cerca de 20 famílias por dia no Centro Hispânico. “Agora, são pessoas que tinham vida estruturada e estão perdendo tudo.”

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