Manifesto da Tropicalização Antropofágica Miscigenada

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Jacaré come garça. Caiu na rede, tucano é peixe.

Única lei do mundo. Sem uma única lei econômica. Desenvolvido é uma coisa. Subdesenvolvido é outra coisa.

Abstração: teoremas de validez universal. Hipótese racionalista: todos se beneficiam dos atos voluntários de intercâmbio econômico. Caso contrário, não os executariam.

Falseamento da hipótese de que “nem louco rasga dinheiro”. Atos involuntários no livre mercado. Compulsórios. Necessidade, não oportunidade. Sem liberdade de escolha.

Comportamentos erráticos. Direito à repetição de erros. E a cometer novos erros. Futuro imprevisível.

Quem disse que não se pode comer manga com leite?!

Contra “dever de casa”! A favor da jabuticaba! Rechaço da monoeconomia.

Afirmação do benefício mútuo. Não à autarquia. Sim à soberania.

A imagem do nosso futuro não está espelhada no presente dos outros. Autoimagem é poder, se querer.

Por ódio ao passado o Brasil ganhou o presente e não comprometeu o futuro.

O país da gente é superior a todos os demais. Simplesmente, porque aqui nascemos.

Patriota não é idiota. Idiota acha superior o país dos outros.

A burrice no Brasil tem um passado glorioso, mas não tem um futuro promissor.

Não há limite para a inteligência. Há limite para a burrice.

Estrutura política e econômica da periferia: diferente da implantada pelo centro. Aqui foi explorado por lá. Desenvolvimento não seguirá a mesma experiência de lá.

Economia impura. Outras ciências. História. Instituições. Poder. Variáveis econômicas dependentes de parâmetros não-econômicos.

Sem automatismos das livres forças do mercado. Caracterização das estruturas e das instituições. Identificação dos agentes significativos. Interações entre decisões destes limitadas por aquelas estruturas e instituições. Futuro incerto, embora planejado.

Diferenças persistentes entre instituições, sistemas, regimes, modelos. Subversão de qualquer visão homogeneizante. Capitalismo competitivo submetido à competição entre capitalismos. Pluralidade de capitalismos. Variedade de capitalismos. Coexistência permanente.

Nacionalismo metodológico. Nível nacional de agregação territorial. Cada Nação, um estilo. Cada Povo, uma cultura. Configuração de autoridade e de poder. Criação e operação de instituições próprias, mesmo que não apropriadas.

Configuração particular de mercado, Estado e outras instituições. Coordenação e governança distintas. Particularizar (não privatizar) cada capitalismo. Nacional e/ou étnico.

Capitalismo mundial. Combinado e desigual. Diferenças nacionais, territoriais, temporais e institucionais. Comparáveis. Mais abstrato: capitalismo mundial. Menos abstrato: capitalismos financeiros datados e localizados.

Distintos mercados de capitais. Mercado de ações, bancos privados e bancos públicos: diferentes instituições financeiras das Nações-Estados. Missão: dar saltos de etapas na história já vivida por outros. Tirar a defasagem. Tirar vantagem do atraso histórico.

“Renunciam os selvagens ao arco e à flecha e tomam imediatamente o fuzil”. Sem necessidade de reinventar a pólvora.

Nem fim, nem reinício da História.

Distintas forças produtivas em cada momento. Diferentes bases técnicas. Necessidade de dar salto para a fronteira tecnológica. Enfrentamento da descontinuidade tecnológica: problemas de escala, dimensão, mobilização e concentração de capital.

Brasil dos bancos, dos brancos e dos negros, de toda a raça humana. Raça de animais racionais, porém muito emocionais. E emotivos. Sociedade democrática multiétnica: Tropicalização Antropofágica Miscigenada.

Crédito público insuficiente. Crédito privado incipiente. Mercado de capitais raquítico. Caracteres não plenamente desenvolvidos dos três modelos de financiamento. Desafio: miscigenação entre mercado de crédito e  mercado de capitais.

Privatização paraestatal a la brasileira: Capitalismo de Estado Neocorporativista no Brasil.  República Federalista Sindicalista, Patronal e Patrimonialista.

Não é Estados Unidos do Brasil. Brasil põe e repõe ideias de fora do lugar. Sempre em sentido impróprio à ortodoxia. Tropicalização Antropofágica Miscigenada: adequação de políticas e instituições ao ambiente nacional.

Primeira das Leis da Tropicalização Antropofágica Miscigenada: “independentemente dos homens e de suas intenções, sempre que o Banco Central se entrega à austeridade financeira, os Bancos Federais escancaram os cofres, com a inevitabilidade quase de uma lei natural”.

Ocorrência infalível em nossa história econômica. Para cada presidente monetarista do Banco Central do Brasil existem iguais e opostos presidentes desenvolvimentistas dos Bancos Públicos.

Não interpretar essa lei no sentido negativo: “os bancos públicos inviabilizam a política monetária”. Muito antes pelo contrário. Primeiro, a dosagem de suas operações é instrumento básico de política monetária. Segundo, o direcionamento setorial do crédito dá-lhe flexibilidade. No final das contas, controlar com uma mão, liberar com outra, assim aqui funciona.

Crédito direcionado a setores prioritários: “amortecedor” de recessão provocada pela ânsia de controle monetário geral por parte da autoridade monetária. Anti paranoia anti-inflacionária.

Absurdo seria imaginar que os bancos públicos pudessem ter orientação divergente do Governo, sendo dele peças integrantes. Segunda Lei da Tropicalização Antropofágica Miscigenada: “o comportamento dos bancos públicos é, por definição, o desejado pelo Governo da ocasião, seja ele monetarista, seja desenvolvimentista, ou, quase sempre, apenas pragmático”.

Contra a fobia à intervenção direta do Estado. Dizer não ao Estado interventor, para dizer sim apenas ao Estado indutor e regulador?! Não à retórica contemporizadora que substitui o Estado produtor pelo Estado estratégico restrito à concessão de incentivos ao setor privado.

Reversão do predomínio de O Mercado sobre O Estado. Incentivo e regulação dos competidores estratégicos dentro de determinado Projeto Nacional: o sonho e a utopia de todo desenvolvimentista. Estabelecimento de direitos civilizatórios. Fim do silêncio a respeito das palavrinhas Povo e Nação. Não à pretensa coesão social baseada apenas em pacto entre elites. Pacto nacional-popular: composição múltipla de classes sociais e coalizão política.

Coalizão partidária junta gente incapaz com gente capaz de tudo!

Sem medo da política. Ação coletiva com determinado propósito estratégico nacional. Estado gerador de externalidades para investimento privado. Define fronteiras de expansão. Projeto nacional em longo prazo não é política econômica baseada em instrumentos de curto prazo.

Coordenação da capacidade de investir das empresas controladas pelos poderes públicos. Formação de nova cultura de governo. Planejamento da realocação de capital. Superação do debate restrito aos ajustes macroeconômicos anti-inflacionários e da pregação monocórdia de reformas microeconômicas. Conciliação entre a retomada do dinamismo econômico e a redução das desigualdades sociais.

Brasil: décadas de acumulação de capacitação tecnológica. TerraMareAr: a conquista do cerrado, a exploração de petróleo em águas profundas, e o pleno voo no mercado aeronáutico mundial.

Revolução socialista sino-brasileira na sociedade de consumo massivo: barateamento dos bens de luxo os transformam em bens-salário. Aumento do poder aquisitivo real. Elevação do poder de consumo dos pobres em todo o mundo. Melhor ainda, aumento do poder dos pobres de eleger – e de serem eleitos.

Atraso de direitos mais longo que atraso econômico. Direitos civis à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante à lei: um século de atraso. Direitos políticos: eleger o destino da sociedade, votar, ser votado, associar-se em sindicatos e partidos: mais um século. Depois, direitos sociais à educação, à saúde, à aposentadoria, à segurança pública. Aqui e agora, a hora e a vez de direitos econômicos: ao trabalho, ao salário justo, a uma renda mínima, acesso aos bancos, a crédito e produtos financeiros. Direito de todos os trabalhadores também serem “rentistas”… e bem se aposentarem!

Brasil: estratégia face sua condição de superdotado em recursos naturais.  Aceitar Nova Divisão Internacional do Trabalho?! China: o eixo industrial. Índia: a principal fonte fornecedora de serviços. Rússia: a produtora de energia (petróleo e gás). Brasil: o grande provedor de alimentos.

Contraposição “a fazenda do mundo” (Brasil) contra “a fábrica do mundo” (China): não tem sentido nas condições contemporâneas brasileiras!

Brasil. Acentuar a sua condição de potência agrícola. Candidatar-se a elevar peso no conjunto inter-relacionado de atividades industriais e de serviços. Buscar o nível de sofisticação tecnológica já alcançado na própria agricultura. Vocação agrícola?! Coisa do passado. Voltar-se ao futuro.

Diversidade industrial brasileira só tem paralelo sino-indiano entre emergentes. Investimento prioritário em infraestrutura no País: petróleo e gás, energia elétrica e bioenergia, transporte e logística, telecomunicações e saneamento, moradia popular e mobilidade urbana. Efeito multiplicador sobre indústria. Extrai, transforma e utiliza. Presta serviço de utilidade pública.

Petrobras é nossa, Petrobrax seria deles!

Ai, que preguiça…

A partir de OSWALD DE ANDRADE. Manifesto Antropófago. Em Pindorama, Ano 463 da Deglutição do Bispo Sardinha.

Oswald de Andrade alude, ironicamente, ao episódio da história do Brasil: o naufrágio do navio em que viajava um bispo português, seguido da sua morte, devorado por índios antropófagos.

O Manifesto Antropófago, escrito por Oswald de Andrade (1890 – 1954), é publicado em maio de 1928, no primeiro número da recém-fundada Revista de Antropofagia, veículo de difusão do movimento antropofágico brasileiro. Em linguagem metafórica cheia de aforismos poéticos repletos de humor, o Manifesto torna-se o cerne teórico desse movimento que pretende repensar a questão da dependência cultural no Brasil.

Ápice do primeiro tempo modernista, inaugurado oficialmente com a Semana de Arte Moderna de 1922, a etapa antropofágica realça a contradição violenta entre duas culturas: a primitiva (ameríndia e africana) e a latina (de herança cultural europeia), que formam a base da cultura brasileira, mediante a transformação do elemento selvagem em instrumento agressivo.

Não se trata mais de um processo de assimilação harmoniosa e espontânea entre os dois polos, como de certa forma o autor pregava no Manifesto da Poesia Pau-Brasil de 1924. Agora o primitivismo aparece como signo de deglutição crítica do outro, o moderno e civilizado.

O pau-brasil foi o primeiro item da nossa pauta de exportações, ainda na condição desfavorável de simples matéria-prima dos produtos acabados feitos lá fora e que depois voltavam como itens da nossa, já naquela época, onerosa pauta de importações. O segundo Manifesto (da Antropofagia de 1928) é mais virulento, assumindo de forma decidida a “herança” da antropofagia. O título, por exemplo, abandona o elemento inicial da prática colonizadora – o pau-brasil – e assume um componente definidor da especificidade brasílica – a antropofagia.

O caráter assistemático e o estilo telegráfico utilizados pelo escritor para dar forma a seu ideário antropofágico de certo modo contribuem para a ocorrência de uma série de mal-entendidos. No entanto, a multiplicidade de interpretações proporcionada pela justaposição de imagens e conceitos é coerente com a aversão de Oswald de Andrade ao discurso lógico-linear herdado da colonização europeia. Sua trajetória artística indica que há coerência na loucura antropofágica – e sentido em seu não-senso.

Oswald de Andrade propôs a deglutição (daí o caráter metafórico da palavra “antropofágico”) da cultura do outro externo (como a norte americana e europeia) e do outro interno (a cultura dos ameríndios, dos afrodescendentes, dos eurodescendentes, dos descendentes de orientais). Não se deve negar a cultura estrangeira, mas ela não deve ser imitada. A intenção era criar uma produção literária e artista brasileira e exportar essa produção.

Palavras de ordem: “alimentar-se de tudo o que o estrangeiro traz para o Brasil, sugar-lhe todas as ideias e uni-las às brasileiras, realizando assim uma produção artística e cultural rica, criativa, única e própria”.

Estória:

Certa noite, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade “resolveram levar o grupo que freqüentava o solar [de Tarsila] a um restaurante situado nas bandas de Santa Ana”, especializado em rãs. À chegada do prato, “entre aplausos”, “Oswald levantou-se e começou afazer o elogio da rã, explicando, com uma alta percentagem de burla, a teoria da evolução das espécies.” Citando autores imaginários, “os ovistas holandeses, a teoria dos ‘homúnculos’, os espermatistas, etc.”, Oswald provou “que a linha da evolução biológica do homem, na sua longa fase pré-antropóide, passava pela rã”. Ao que Tarsila do Amaral, no clima jocoso da explicação, comentou: “ – Em resumo, isso significa que, teoricamente, deglutindo rãs, somos uns… quase antropófagos.

Comenta então Raul Bopp, participante do grupo: A tese, com um forte tempero de blague, tomou amplitude. Deu lugar a jogo divertido de idéias. Citou-se logo o velho Staden e outros clássicos da Antropofagia: “Lá vem a nossa comida pulando”.

[A citação do “velho Staden” em – “Lá vem a nossa comida pulando.” – evocava um dos suplícios a que Hans Staden fora submetido, e que, a despeito disso, chegava a ser cômico. Staden, tendo as pernas amarradas em três lugares, era obrigado a caminhar pela choça aos pulos, causando riso nos que o observavam. O comentário dos indígenas, à visão do pobre Staden esforçando-se para não cair, era vazado no mais legítimo humor negro: “Aí vem pulando o nosso manjar!”]

Ali mesmo, Oswald de Andrade, “no seu malabarismo de ideias e palavras, proclamou: “Tupy or not tupy , that is the question”. Alguns dias depois da noite das rãs, Tarsila do Amaral oferecia, para batismo pelo grupo, um quadro novo, chamado precisamente O Antropófago (ou Abaporu, em tupi-guarani). Oswald de Andrade propôs, então, “desencadear um movimento de reação, genuinamente brasileiro”, para o qual redigiu um “Manifesto”, o Antropófago

Nota Explicativa:

Esta Minuta do Manifesto da Tropicalização Antropofágica Miscigenada, em sua primeira versão, é obra coletiva em construção, aberta a receber comentários e sugestões, seja de cortes, seja de acréscimos.

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