Economia em 10 Lições – Introdução

Existem somente os indivíduos: tudo o mais –
as nacionalidades e as classes sociais – é mera comodidade intelectual

(Jorge Luís Borges, 1973)

O homem não é nem um átomo nem um rato de laboratório. Embora, repetidamente, nos sintamos alvos de experiências de cientistas sociais, temos algo que nos distingue das cobaias: a racionalidade individual. Ela nos permite unir com nossos semelhantes e reagir, defensivamente, mudando nosso comportamento coletivo. Quebrada a regularidade da maneira de nós comportarmos, fracassam os testes das leis sociais. Obrigamos os cientistas sociais – entre eles, os economistas – a repensarem, periodicamente, o conjunto de atitudes e reações do indivíduo em face do meio social.

Assim como nada pode surgir do nada: o ambiente sócio-econômico resulta de nossos distintos procedimentos.  Os cientistas sociais consideram nossas condutas individuais como um ponto de partida da mesma forma que os laboratoristas consideram os átomos. A etimologia da palavra átomo diz que ela deriva do grego, com o sentido de “indivisível”. É uma coisa pequeníssima, insignificante, uma partícula mínima de matéria, antes considerada indivisível. Todas as substâncias são formadas de átomos, que se podem agrupar, formando moléculas. Existe, na sociedade, uma infinidade de “átomos” diferentes. Combinados, eles podem dar origem a corpos sociais os mais diversos.

Devemos levantar uma questão famosa dentro da filosofia das ciências sociais: a do monismo metodológico. Existe um método científico aplicável a todas as ciências, independentemente  de seu campo de estudo, ou a ciência social deve empregar uma lógica de investigação própria? “Existem muitos cientistas sociais que buscam na filosofia da ciência melhores maneiras de imitar a física, a química e a biologia; porém, também existem alguns convencidos de que a ciência social possui uma compreensão intuitiva de seu campo de estudo que de alguma forma é negada aos cientistas da área física”[i].

Foi Karl Popper quem anunciou a doutrina do monismo metodológico – “todas as ciências teóricas ou gerais devem usar o mesmo método, sejam ciências naturais ou ciências sociais” – e prescreveu um princípio de individualismo metodológico para as ciências sociais: “a tarefa da teoria social é construir e analisar cuidadosamente nossos modelos sociológicos em termos descritivos ou nominalistas; isso quer dizer, em termos de indivíduos, de suas atitudes, expectativas, relações, etc.”[ii]. O leitor principiante não deve se sentir confuso com isso.

Por trás  do movimento dos átomos não há determinada “intenção”. Ao contrário dos agentes econômicos racionais, os átomos não têm consciência, um atributo altamente desenvolvido na espécie humana e que se define por uma oposição básica: é o atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo (e, posteriormente, em relação aos chamados estados interiores, subjetivos) aquela distância em que se cria a possibilidade de níveis mais altos de integração. Os cientistas sociais buscam o conhecimento desse atributo: a faculdade humana de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados, o conhecimento imediato da sua própria atividade psíquica.

Os homens têm conhecimento, noção, idéia da economia social, demonstrada pelo cuidado com que executam um trabalho, cumprem um dever, pelo senso de responsabilidade que apresentam. Enfim, são virtudes humanas a honradez, a retidão, a probidade. A consciência moral é a faculdade de distinguir o bem do mal, de que resulta o sentimento do dever ou da interdição de se praticarem determinados atos, e a aprovação ou o remorso por havê-los praticado. Porém, a ciência social pesquisa a consciência coletiva: o conjunto de representações, de sentimentos ou de tendências não explicáveis pela psicologia do indivíduo, mas pelo fato de haver agrupamento de indivíduos em sociedade. Infelizmente, em sociedade, certos indivíduos podem pôr a consciência à venda: oferecê-la a quem der a mais alta recompensa…

Ler maisFernando Nogueira da Costa Economia em 10 Lições Introdução


[i]            BLAUG, Mark. A metodologia da Economia. São Paulo, Edusp, 1993. p.85.

[ii]           POPPER, Karl. The poverty of historicism. London, Routledge & Kegan Paul, 1957. p. 130.

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