Economia Em 10 Lições – Segunda Lição

SEGUNDA LIÇÃO

DECISÃO DE FICAR RICO

Self-made man

[Homem que se fez por si]

2.1. Diálogo estudante – professor

–       Por que você quer estudar Economia?

–       Para ficar rico!

–       Por essa reação você se tornou um homo economicus, que age estritamente dentro do princípio da obtenção da máxima “vantagem econômica”.

–       Homo economicus?! Isso me ofende, eu  quero ser um homo sapiens. Qual é a origem deste conceito?

–       Esse conceito foi divulgado pelos economistas neoclássicos. É uma noção abstrata e unidimensional do homem, segundo a qual o homem seria motivado exclusivamente por razões econômicas, preocupando-se em termos imediatos em obter um máximo de lucro com o mínimo de sacrifício. O homem econômico agiria racionalmente com o objetivo de maximizar sua riqueza, introduzindo novos métodos para enfrentar a concorrência no mercado. Ele é hedonista, isto é, partidário da doutrina que considera que o prazer individual e imediato é o único bem possível, princípio e fim da vida moral.

“Poucos livros-textos contêm um retrato direto do homem econômico racional. Ele é introduzido furtivamente e gradualmente (…). espreita por entre os pressupostos que levam uma vida esclarecida entre insumos e produção, estímulo e resposta. Não é alto nem baixo, gordo nem magro, casado ou solteiro. Não se esclarece se ele gosta do seu cachorro, espanca a mulher ou prefere o jogo de dardos à poesia [NT: comparação que contrasta o gosto popular – jogar dardos ao alvo – e o da elite – poesia]. Não sabemos o que deseja; mas sabemos que, o que quer que seja, ele maximizará impiedosamante para obtê-lo. Não sabemos o que compra, mas temos a certeza de que, quando os preços caem, ele ou redistribui seu consumo ou compra mais. Não podemos adivinhar o formato de sua cabeça, mas sabemos que suas curvas de indiferença [representa diferentes combinações de cestas de bens nas quais o consumidor atinge o mesmo grau de satisfação] são côncavas em relação à origem. Pois, em lugar de seu retrato, temos um retrato falado (com os traços gerais). Ele é filho do iluminismo e, portanto, o individualista em busca de proveito próprio da teoria da utilidade [doutrina segundo a qual toda a felicidade está na obtenção do útil, ou seja, no afastar-se da dor e aproximar-se o máximo possível do prazer]. É um maximizador. Como produtor maximiza sua fatia de mercado ou seu lucro. Como consumidor, maximiza a utilidade, por meio da comparação onisciente e improvável entre, por exemplo, morangos marginais e cimento marginal. (Ele é, por certo, também um minimizador; mas já que minimizar X é maximizar não-X, não há necessidade de nos preocuparmos com isso.) está sempre no ponto que considera ótimo, acreditando (por mais falsa que seja essa crença) que qualquer mudança marginal seria para pior. Da indiferença individual ao comércio internacional, está sempre alcançando os melhores equilíbrios subjetivos entre desincentivo e recompensa. Este é o primum mobile racional da economia neoclássica”[i].

É um homem de caráter perene. Não se modifica mesmo em diferentes épocas históricas e condições sociais.

–       Mas se eu tomar a decisão de ficar rico, o estudo da Economia me ajudará a atingir este objetivo?

–       A Economia mostra que você não pode ficar rico por conta própria, isoladamente, sem interagir com outros agentes econômicos. Há duas maneiras econômicas de enriquecer: ou cria-se um valor novo para vender, ou apropria-se um valor existente. Quando predomina a dedicação a essa segunda alternativa, conhecida como rent seeking [caça às rendas], a economia nem cria empregos novos nem agrega valor. De maneira ilusória, em termos da coletividade, a rent seeking promete a riqueza individual fácil, sem precisar desenvolver pesquisas, registrar patentes, montar empresas, produzir e vender.

Sobre a questão de “ficar rico”, não podemos nos furtar a citar o comentário (realizado em 1920) de H. L. Mencken – o mais famoso jornalista americano das décadas de 20 e 30 – a respeito[ii].

“Talvez a mais valiosa de todas as propriedades humanas, depois de um ar de empáfia e superioridade, seja a reputação de bem sucedido. Nenhuma outra coisa torna a vida mais fácil. Em 90% dos homens – e em 99% dos marxistas, que dão muito mais valor ao dinheiro do que ele merece e não param de pensar nele por um segundo –, existe um impulso irresistível para se ajoelhar aos pés da riqueza, submeter-se ao poder  que ela detém e enxergar toda espécie de superioridade nos ricos ou nos que se dizem ricos. É verdade que há sempre uma ponta de inveja junto com isto, mas é uma inveja expurgada de ameaça: o homem inferior, no fundo, teme fazer mal ao homem com dinheiro; tem medo até de pensar mal dele – pelo menos de uma forma patente e ofensiva. O que paralisa o ódio natural deste homem por seu superior é, digamos, a tímida esperança de que talvez lhe sobrem até alguns trocados se for bonzinho – e que lhe renderá mais soprar do que morder. Seja qual for o processo psicológico, chega-se sempre a uma grande afabilidade. Espalhe a notícia de que Fulano arrasou no mercado de ações, casou-se com uma viúva rica ou passou a perna no governo em alguma transação patriótica – e logo todos se convencem de que o desmazelo de Fulano pelas roupas é só uma excentricidade, que sua opinião sobre vinhos merece ser ouvida ou que suas alucinações políticas são dignas de atenção. O homem considerado pobre nunca tem a menor chance. Ninguém quer ouvi-lo. Ninguém dá a mínima para o que ele pensa, sabe ou sente. Ninguém tem paciência para suas lamentações. Aprendi isto cedo na vida e o pus em prática desde então. Já lucrei muito mais com homens (e mulheres) pela reputação de estar bem de vida do que por ter sido honesto com eles, ou por espantá-los com minha sagacidade, por dar duro no trabalho ou talvez por uma espécie de beleza singular e inefável”.

Este comentário é um exercício de ironia e de cinismo, mas, infelizmente, diz algo de verdade sobre nossa sociedade capitalista.

–       Quando você pergunta a um economista sobre qual é o significado da vida, o que ele responde?

–       Depende dos valores dos parâmetros[iii].

–       De fato, na Primeira Lição, quando lhe perguntei por que eu devo estudar Economia, você não respondeu que era para eu ficar rico… Como se acumula capital?

–       Eu respondi baseado na minha experiência pessoal. Agora, sobre a  acumulação de capital, a aprendizagem da Economia pode lhe ajudar. Por que você tem essa opção de estudar, o que, no nosso país, nem todo mundo tem?

–       Bem, se eu fosse rico, estudaria só por diletantismo. Parece-me que o capital se reproduz por si só. Quem nasce com ele, permanece com ele… a não ser se torrá-lo de maneira improdutiva!

–       Você está deduzindo que aqueles cujas famílias não dispõem de acumulação prévia necessitam trabalhar e possuem maior dificuldade inclusive de acumular “capital humano”.

–       Tenho várias perguntas para esta lição: como ocorreu essa acumulação prévia? O que é capital humano? Como acumular capital para investir? Se eu for um empresário, poderei fixar minha margem de lucro? Como se estrutura o mercado?

–       Para responder a todas, podemos dramatizá-las, assumindo vários papéis: inicialmente, você Robinson Crusoé, eu Sexta-feira – parece com you Jane, me Tarzan, não? Depois, voltamos a conversar como estudante e professor e, finalmente, como empresário e assessor. Vamos lá.


[i]           HOLLIS, Martin & NELL, Edward. O homem econômico racional: uma crítica filosófica da economia neoclássica. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1977. p. 79.

[ii]           MENCKEN, H. L.. Aquele que tem. O livro dos insultos. São Paulo, Companhia das Letras, 1988. p. 132/3.

[iii]           Todos elementos cuja variação de valor modifica a solução de um problema sem lhe modificar a natureza.

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