Economia Em 10 Lições – Quarta Lição

QUARTA LIÇÃO

DECISÃO DE PRODUZIR

Sine qua non

[sem o (a) qual não]

4.1. Diálogo produtor – comerciante

–       Vamos negociar, mas desta vez não iremos fazer nossos negócios tradicionais de comprar ou vender, permutar bens e serviços, exercer o comércio.  Podemos manter relações para ajustar nosso conhecimento econômico. Que tal combinarmos a troca de idéias sobre Economia, verificando o que as diversas correntes de pensamento econômico podem nos informar de útil para nossos negócios – eu enquanto produtor, você como comerciante?

–       Ótimo, de todos os meios, o comércio é o mais rápido para adquirir fortuna. Basta seguir sua “lei de ouro”: comprar barato e vender caro, para poucos (os que podem pagar caro), ou barato, para muitos.

–       “O comércio é a arte de abusar de alguém que precisa de alguma coisa”… Não há delito social mais grave, porém legítimo, do que fazer estoque de mercadorias e esperar que encareçam, para revendê-las com lucro. Por outro lado, o comércio liga toda a humanidade através da mútua dependência e interesse. Os atos de comércio promovem a transferência de mercadorias entre os indivíduos, trazendo-as de onde são abundantes para onde não existem em quantidade suficiente para satisfazer o consumo, inclusive o consumo produtivo de matérias primas. Dessa forma, além de sua função econômica fundamental, o comércio estimula a expansão econômica dos meios de comunicação e transporte.

Socialmente, o comércio é uma condição sine qua non para tornar a troca possível, estimulando assim a produção e o consumo. A necessidade do comércio acompanha a diversificação da estrutura produtiva de uma sociedade. Quanto mais aprofundada for a divisão social do trabalho, mais necessária será a função mediadora do comércio.

Podemos começar nosso estudo por esse ponto: a divisão social do trabalho. Adam Smith, nos primórdios da Economia Política clássica inglesa, discutiu-a no primeiro capítulo de sua obra de 1776: A Riqueza das Nações: Investigação sobre sua Natureza e suas Causas.

–       Ok. Irei assumir tanto o papel de comerciante varejista, quando “venderei” as mercadorias diretamente ao consumidor, quanto o de atacadista, quando “comprarei” de você, o produtor, para vender aos varejistas. Eu gosto desse negócio de adquirir a mercadoria em grande quantidade, pagando menos por esse volume do que cobro para revendê-la em partidas menores. Você não poderá reclamar de meu papel de “atravessador”, pois se, por um lado, ele onera o preço a ser pago pelo consumidor, por outro, torna possível que você – produtor – escoe rapidamente o produto sem ter que negociar diretamente e com grande número de pequenos e médios varejistas. Quero tomar conhecimento da importância social da minha atividade. Ela absorve uma grande parcela da população economicamente ativa. Podemos verificar se ela contribui de modo significativo para o produto nacional?

–       Não se entusiasme tanto. Boa parte das atividades do comércio é considerada improdutiva de acordo com uma versão da teoria do valor-trabalho. Podemos discuti-la, depois do estudo sobre a divisão do trabalho. Acho melhor deixarmos a contabilidade social como o último ponto dessa Lição. Antes dela quero discutir a minha atividade: a produção, os diversos  conceitos neoclássicos de produtividade e de custos, a elasticidade da demanda do consumidor.

Posso ilustrar a importância de tomarmos conhecimento do trabalho de um economista especialista em produtividade, inclusive para não sermos enganados por ele, lendo um relatório[i].

Relatório de um especialista em Estudos de Tempos e Movimentos, após assistir um concerto sinfônico, no Teatro Municipal:

  1. Por consideráveis períodos de tempo os operadores do fagote e oboés não tiveram nada que fazer. Assim sendo, seu número poderá ser reduzido, com o trabalho diluído mais uniformemente no desenvolvimento do concerto, eliminando piques de atividade.
  2. Todos os violinistas tocavam notas idênticas, o que nos parece uma duplicação desnecessária. O pessoal desta seção poderá ser reduzido drasticamente. Caso um grande volume de som seja necessário, este poderá ser obtido por meio de equipamentos eletrônicos.
  3. Muito esforço é despendido para se tirar dos instrumentos meia-semicolcheias. Isto nos pareceu um refinamento excessivo. É recomendado que todas as notas sejam arredondadas para a semicolcheia mais próxima. Caso sito seja feito, será possível empregar, de um modo geral, aprendizes ou músicos com pouca experiência.
  4. Pareceu-nos haver muita repetição de algumas passagens da música. Estas passagens deverão ser cortadas, sumariamente. Aparentemente, não existe nenhum propósito útil de repetir com os trompetes um trecho já executado anteriormente pelas cordas. Estimamos que, se forem eliminadas todas as redundâncias, o tempo total do concerto de 2 horas poderá ser reduzido para 20 minutos, tornando o intervalo desnecessário.
  5. De um modo geral, o maestro concorda com estas recomendações, porém expressa a opinião de que poderá haver alguma queda na bilheteria. Caso este evento indesejável venha a ocorrer, será possível fechar certas seções do auditório, como as torrinhas. Este fechamento traria como conseqüência uma redução nas despesas administrativas, iluminação, serviços, etc., inclusive menor consumo de energia de equipamento de ar condicionado. Caso aconteça o pior, a falta total de assistentes, o público deverá ser deslocado para o concerto de jazz, no bar ao lado, e o teatro usado para outros fins lucrativos.
  6. Seguindo o princípio de que “sempre existe um outro método”, sentimos que maiores revisões devem ser feitas e que trarão benefícios adicionais. Por exemplo, consideramos que existe ainda um largo campo de pesquisas para ser aplicado em muitos dos métodos de operação dos instrumentos. Um ´Questionário de Atitudes´ deverá ser preparado, pois talvez venha a ser necessária uma revisão nos métodos tradicionais, que não são mudados há alguns séculos. Notamos que o pianista, além de executar a maior parte de seu trabalho com as duas mãos, usa também os dois pés no acionamento dos pedais. Ainda mais, ele procura, exaustivamente, algumas notas no piano, indicando ser provável que um redesenho do teclado, trazendo as notas mais prováveis para a área normal de trabalho, seria de grande vantagem para este operador. Em outros casos, os operadores estavam usando as duas mãos para segurar o instrumento quando poderia ser usado um dispositivo qualquer, deixando a mão inútil livre para outro trabalho.
  7. Foi notado também que um esforço excessivo é ocasionalmente empregado pelos operadores de sopro. Um compressor de ar poderia suprir o ar adequado para todos estes instrumentos em condições que permitiriam um controle mais preciso.
  8. A obsolescência do equipamento é um outro ponto no qual sugerimos uma investigação mais profunda. No programa do concerto está assinalado que o instrumento do primeiro violinista tem centenas de anos de idade. Aplicando taxas de depreciação normais, o valor deste instrumento estará reduzido a zero e é provável que deverá ser considerada a compra de um equipamento mais moderno”.


–       Isso é o downsizing dos neoliberais! Não faça isso comigo, não corte os salários de seus trabalhadores, eles são custos, para você – produtor –, mas demanda, para mim – comerciante. Aumentar a produtividade, desempregando… será que é racional, para a Teoria da Produção? De onde surgiu esta teoria?

–       A Teoria da Produção não existia antes da metade do século XVIII. O termo produção era previamente utilizado num sentido etimológico estreito (do latim producere: produzir; parir, dar à luz; causar) de dar nascimento a novos objetos materiais. Eles eram, normalmente, confinados aos frutos da terra. Alguns teóricos distinguiam os conceitos de produto como efeito da natureza e de manufatura como efeito do trabalho. Mais adiante, alguns economistas fizeram a distinção entre os conceitos de bem e de produto: enquanto os bens são objetos materiais destinados à satisfação de necessidades humanas, produto é o resultado geral da ação transformadora do homem sobre a natureza. Portanto, a distinção entre “aquilo que é produzido pela natureza” e “o resultado de qualquer atividade humana (física ou mental)” percorre a teoria econômica.

Com economistas franceses que o termo recebe um significado preciso. À primeira vista, a terminologia da corrente de pensamento econômico fisiocrata não é, particularmente, novidade. As palavras produção, produtividade, etc. eram cuidadosamente reservadas para agricultura; a manufatura, enquanto uma mera atividade de transformação, era considerada eminentemente estéril. Mas a inovação fundamental de François Quesnay se estabelece sobre a teoria por trás da terminologia: não é por causa de alguma propriedade física que a agricultura é dita ser produtiva, mas porque ela é a única  atividade capaz de geração de um produto líquido [produit net na expressão francesa e  net revenue na inglesa]. Isto porque a produção agrícola era a única onde o produto final superaria o consumo produtivo de insumos (ou o custo intermediário) necessário para sua realização. Assim, o lucro foi aceito como uma forma legítima de produto líquido, inclusive em outras atividades. Adam Smith reconhece isso.

A partir de então, a produção tornou-se um dos principais tópicos da Economia Política clássica. Na estrutura padrão adotada por livros-textos, a primeira seção, geralmente, é devotada à produção. Na Economia Marxista, a análise da produção adquiriu o status  de pedra fundamental da Teoria da Mudança Social. A produção capitalista explora (ao mesmo tempo que organiza) os trabalhadores, cujo trabalho é a única fonte de criação de valor.

Na segunda metade do século passado, como conseqüência da chamada revolução marginalista, o foco da teoria econômica tendeu a mudar da esfera da produção para a da troca. A Teoria da Produção ficou esmagada no quadro geral da alocação ótima de recursos escassos: um quadro originalmente desenvolvido para lidar com o problema da troca pura. A teoria originalmente brotada da semeadura de Quesnay, cerca de um século após seu nascimento, concluiu seu ciclo de vida própria.

–       Podemos, então, organizar esse nosso estudo em quatro tópicos de acordo com a seguinte cronologia da história do pensamento econômico. O primeiro sobre a teoria clássica da produção; o segundo sobre a teoria do valor-trabalho marxista; o terceiro sobre a teoria neoclássica da produção; finalmente, o quarto sobre a contabilidade social, seja a de origem keynesiana, seja a de origem no modelo de equilíbrio geral walrasiano, elaborada por Wassily Leontief, criador da análise de insumo-produto.

–       As perguntas-chave, que norteiam nossa Lição, são:

  1. Qual é a concepção clássica da divisão do trabalho e da produtividade?
  2. Qual é o significado da teoria do valor-trabalho?
  3. Quais são os fundamentos neoclássicos para a lei da oferta e da demanda?
  4. Quais são os fundamentos teóricos das Contas Nacionais modernas?
Leia maisFernando Nogueira da Costa Economia em 10 Lições LIÇÃO4


[i]           SANTOS, Renato Luiz de Castro. Comentários sobre o artigo de Delfim. Gazeta Mercantil, 25 de abril de 1996. p. A-6. DELFIM NETTO, Antônio. Slavo Sirks, Schubert e globalização. Gazeta Mercantil, 24 de abril de 1996. p. A-2.

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