Economia Em 10 Lições – Terceira Lição

TERCEIRA LIÇÃO

MERCADO DE ATIVOS E NÍVEL DOS PREÇOS

Auri sacra fames!

[Execrável fome do ouro!]

 

3.1.     Diálogo bancário – banqueiro

–                “O que você vai ser, quando crescer”?

–                Banqueiro ou especulador internacional!

–                Auri sacra fames! Já não se tem leitores com as fantasias de antigamente… Bom, uma razão para estudar Economia é que você pode falar sobre capital, mesmo não tendo nenhum. Vamos assumir, nesta lição, tais papéis: você, o de banqueiro; eu, o de bancário, no caso, assessor da direção do banco. Você sabe que “um banqueiro é o homem que nos empresta um guarda-chuva, quando o tempo está bom, e retira-o de nós quando chove”?

–                A transmutação é o sonho dos alquimistas; o meu é o do Rei de Midas: tudo que tocar virar ouro! Primeira pergunta: devo entesourar ouro?

–                Auri sacra fames…  Lembramo-nos do conselho profissional de Galbraith: “nunca se deve dar conselhos aos outros sobre os seus investimentos – a não ser com remuneração. Se o investimento der certo, acham que foi sua própria sabedoria; se der errado, lembram-se logo de quem lhes deu o mau conselho”[i]. O verbo entesourar significa juntar, ajuntar, acumular, amontoar (dinheiro, riqueza, etc.). Deriva-se de tesouro, que é um depósito antigo de moedas ou de coisas preciosas (inclusive em ouro), enterrado ou oculto, e de cujo possuidor não há memórias.

–                Ei, eu, como banqueiro, não quero só deitar na cama, também quero fama, deixar memórias! Por que ainda se dá relevância ao ouro?

–                Outra boutade do Galbraith: quando lhe foi feita pergunta semelhante, ele disse que John Maynard Keynes achava que havia uma profunda afinidade entre o homem e o ouro com insinuações de sexo. Comentou, então: “para mim, isso sempre me pareceu um tanto imaginoso. Tenho um respeito étnico arraigado por todas as formas de dinheiro e sempre fui apreciador de lindas mulheres. Existe uma relação antiga entre as duas coisas, mas encontro dificuldade em pensar em ambas exatamente nos mesmos termos”[ii].

O fato histórico é que, no dia 15 de agosto de 1971, o presidente dos Estados Unidos, Richard  Nixon, acabou com a obrigação que seu país havia assumido em Bretton Woods, após a II Guerra Mundial, de converter em ouro, ao preço fixo de US$ 35 a onça, os dólares em poder das autoridades monetárias estrangeiras. Aí, então, completou-se a transição entre o padrão ouro e o padrão dólar, em que o mundo vive, hoje. Mais do que isso, findou a idéia de a moeda ser uma mercadoria ou ter que estar vinculada, direta ou indiretamente, a uma mercadoria. Reconhece-se, enfim, que as diversas formas de moeda não necessitam ter valor intrínseco algum, como tem uma mercadoria.

–                Antigamente, pensava-se assim?

–                Por mais surpreendente que hoje possa parecer, quase todas as teorias monetárias, sejam as que buscam explicar o valor da moeda pela quantidade oferecida face à demanda existente (tal como o princípio da escassez de uma mercadoria comum), sejam as que justificam seu valor (“natural”) pela teoria do valor-trabalho (tal como a ricardiana ou a marxista), têm, explícita ou implicitamente, esta concepção de moeda mercadoria. Mas há autores contemporâneos que aceitam que não se pode falar de uma moeda “invisível”, escritural (contábil) e/ou “eletrônica” (registrada em computadores) como se analisasse um bem material. Aceitam que a moeda é um símbolo, um mito, e que seu valor depende do poder aquisitivo que lhe atribuem, na compra de outras riquezas ou ativos.

–                Gosto de mitos. Conte-me o da moeda.

–                Um mito é uma forma de pensamento oposta à do pensamento lógico e científico. No entanto, pode-se fazer a exposição de uma doutrina ou de uma idéia sob forma imaginativa, em que a fantasia sugere e simboliza a verdade que deve ser transmitida, como p. ex., no mito da moeda. Podemos lhe resumir uma excelente história, contada por Milton Friedman, a da Ilha da Pedra-Moeda[iii].

Na virada do século, os cerca de 5.000 a 6.000 habitantes da ilha Yap, na Micronésia, adotavam moedas de pedras, feitas de calcário encontrado numa ilha que fica a uns 640 quilômetros de distância. Elas eram extraídas, moldadas e levadas, para Yap, em canoas ou balsas. Tinham a forma de círculo, para que um eixo as atravessasse e facilitasse o transporte. Sim, quanto maiores fossem, maior era considerado seu valor. As trocas eram baseadas na confiança mútua: depois de fazer um grande negócio, a dificuldade do transporte da moeda levava a que o dono aceitasse o mero reconhecimento da propriedade da pedra-moeda, sem nem mesmo uma marca para indicar a troca, deixando-a no mesmo lugar.

Assim, havia uma família cuja riqueza era indiscutível, reconhecida por todos. Sua fortuna baseava-se em uma pedra-moeda enorme, que jazia no fundo do mar, onde caíra, durante seu transporte para Yap, devido a uma tempestade. O acidente não deu má sorte à família, pois todos os companheiros de viagem testemunharam que a magnífica moeda se perdera sem que o proprietário tivesse qualquer grau de culpa.

Outro evento digno de nota ocorreu quando os alemães colonizadores  impuseram uma multa aos nativos por desobediência à ordem de manutenção das estradas em boas condições. A multa foi cobrada, marcando um certo número das pedras-moedas mais valiosas com uma cruz, com tinta preta, para mostrar os direitos do governo alemão sobre elas. O povo, tristemente empobrecido assim, reparou as estradas. Então, o governo apagou as cruzes. Pronto! Os cidadãos retomaram a posse de seu capital… e viveram felizes para sempre!

–                Legal, mas inacreditável…

–                Você acreditará se contarmos uma história semelhante, ocorrida na economia ocidental? Em 1933, o Banco da França, temendo que os Estados Unidos não fossem manter a mesma paridade dólar-ouro, pediu ao Federal Reserve (banco central norte-americano) que convertesse em ouro a maior parte dos ativos em dólares que ele detinha, nos Estados Unidos. Para evitar a necessidade de despachar o ouro para a França, o Fed, simplesmente, colocou um selo com a marca francesa nas gavetas de seu cofre-forte que continham a quantidade de lingotes de ouro pertencente aos franceses. O fato foi tal como os alemães tinham marcado as pedras-moedas. A repercussão da chamada “drenagem de ouro dos Estados Unidos pela França” foi um dos fatores que acabaram por levar ao pânico bancário de 1933.

Friedman, corretamente, pergunta: há, realmente, alguma diferença entre o Fed se sentir numa posição monetária mais frágil por causa de algumas marcas em gavetas situadas nos seus porões, e a reação dos ilhéus de Yap às marcas em algumas de suas pedras-moedas? Ou entre a crença do Banco da França de que estava numa situação monetária mais forte por causa dessas marcas em gavetas situadas num porão, a mais de 4.800 quilômetros de distância, e a crença da família de Yap que era rica devido a uma pedra no fundo do mar, aliás, a uma distância muito menor? Será que a prática de extrair um metal das profundezas do solo, moldá-lo, transportá-lo e enterrá-lo outra vez em profundos cofres-fortes, é mais racional do que a prática dos ilhéus de Yap? O mundo “civilizado” assim se comportou, durante mais de um século…

Esta história verídica ilustra “o quanto a aparência, ou a ilusão, ou o ´mito´, dada uma crença inconteste, fica importante em questões monetárias”[iv].

–                Incrível! Mas, pensando bem, no meu banco, só tenho papéis e registros eletrônicos. São marcas simbólicas. Todos os lançamentos, numa conta bancária,  todas as propriedades, estão atestadas por pedaços de papel, por testemunhos, numa palavra, por confiança! Estou gostando desse papel de banqueiro! Pode me explicar mais a respeito dele? Não é muito complexo? Eu posso entender esta economia monetária ou financeira?

–                Um provérbio popular, na profissão, diz: “Você pode transformar um papagaio num culto economista. Basta ensinar-lhe duas palavras: oferta e demanda”! Acreditamos, de fato, que, na base da lei da oferta e da demanda, erguem-se (quase) todas as teorias econômicas. Gostaríamos de defender esta “tese”. Por ora, podemos escolher alguns assuntos, na área monetária e financeira, para tratar. Quais você prioriza?

–                Tenho várias dúvidas, entre elas: o que é, exatamente, dinheiro? Eu, como banqueiro, posso criá-lo? Por que o governo, que é “o dono da Casa da Moeda”, não pode, simplesmente, emitir moeda, para pagar seus gastos? Se há excesso de oferta de moeda, ela se desvaloriza e provoca inflação? Por que, periodicamente, ocorrem crashes, nas bolsas de valores, e que importância isso tem, para a economia?

–                Podemos tratar desses temas, na seguinte ordem: primeiro, conversamos sobre a seleção da carteira de ativos, de maneira geral, inclusive apresentando as instituições financeiras, criadoras de ativos. Depois, focalizamos a questão do desequilíbrio  monetário. É uma boa “ponte” para analisar se a inflação resume-se a um fenômeno monetário. Finalmente, podemos analisar as crises financeiras, ou, se quiser, a inflação e a deflação dos ativos.

Leia maisFernando Nogueira da Costa Economia em 10 Lições LIÇÃO3


[i]           GALBRAITH, J. K. & SALINGER, N.. A Economia ao alcance de (quase) todos. São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1985. p. 79.

[ii]           Idem; ibidem; p. 78.

[iii]           FRIEDMAN, Milton. Episódios da história monetária. Rio de Janeiro, Record, 1994. Cap. 1.

[iv]          Idem; ibidem; p. 20.

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