Economia Em 10 Lições – Quinta Lição

QUINTA LIÇÃO

NÍVEL DE EMPREGO E MERCADO DE TRABALHO

Partis pris
[partido tomado]

5.1. Diálogo sindicalista – assessor sindical

–       Estou à disposição de Vossa Excelência, para prestar esclarecimentos em matéria econômica que porventura me couber…

–       O que é isso, companheiro? Cá entre nós reina a informalidade, a democracia de base. Deixa esse seu formalismo para o parlamento. Se eu tiver alguma dúvida, gritarei: questão de esclarecimento! Não necessitamos de doutores, precisamos de salários!

–       Salário tem sua etimologia latina em sal, aquela substância cristalina, branca, usada na alimentação, formada pela interação de um ácido e uma base – o cloreto de sódio. Antigamente, era a remuneração monetária recebida pelo trabalhador pela venda de sua força de trabalho. Mas nenhum homem precisa apenas de um pequeno salário.

–       Pois é, companheiro, veja a pauta de reivindicações dos Titãs[i]:

  1. “a gente não só quer comida, a gente quer comida, diversão e arte
  2. a gente quer saída para qualquer parte
  3. a gente quer bebida, diversão e balé
  4. a gente quer a vida como a vida quer
  5. a gente quer comer e fazer amor
  6. a gente quer prazer para aliviar a dor
  7. a gente quer dinheiro e felicidade
  8. a gente quer inteiro e não pela metade”.

A gente tem desejo, necessidade, vontade!

“Deus não condenou o homem ao trabalho: condenou-o a viver, concedendo-lhe o trabalho como circunstância atenuante” – eu aprecio esse pensamento. No entanto, chegamos a tal ponto de imbecilidade que consideramos o trabalho não só honroso, mas sagrado, quando não passa de uma triste necessidade.

–       Embora tenha havido trabalhadores assalariados em outros períodos da história, foi como o advento do capitalismo que o salário se tornou a forma dominante de pagamento da mão de obra. Para o desgraçado – aquele que não recebeu a graça “divina” de não ter de vender sua força de trabalho, para conseguir sobreviver –, o trabalho é o único remédio eficaz. Para o infeliz, o trabalho é o esquecimento conveniente. “Distrai-o da própria vida, desvia-o da visão assustadora de si mesmo; impede-o de olhar esse outro que é ele, e que lhe torna a solidão horrível”. É ainda a melhor maneira de escamotear a vida…

–       Companheiro-doutor, vou te contar uma história. Certa vez, encontrei três peões, numa obra. Perguntei a cada qual o que ele estava fazendo. O primeiro me respondeu: – “Estou quebrando parede”. O segundo ironizou: – “Passando o tempo, até arranjar melhor trabalho”. O terceiro disse-me: – “Estou construindo uma escola”! Este tinha consciência do valor de seu trabalho. Pela obra se conhece o trabalhador.

–       João Guimarães Rosa, em Tutaméia, refletiu: “trabalho não é vergonha, é só uma maldição”.

–       Um operário metalúrgico desempregado falou-me: – “Mais vale gastar-se do que enferrujar-se”…

–       Uns dizem que “o capital é trabalho roubado”. Outros sugerem que “o capital é trabalho acumulado”. Paul Lafitte, em 1869, completava: “é o trabalho de vários acumulado por um só. Corolário: o trabalho é capital que não se acumula”.

–       Uma piada polonesa, na época da URSS, perguntava: “Qual é a diferença entre capitalismo e comunismo?”. Em seguida, respondia: “O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O comunismo é o inverso”.

–       “Se você recolher um cachorro que morre de fome e o tornar próspero, ele não o morderá. É esta aí a diferença principal entre um cão e um homem”, escreveu Mark Twain. Mas chega de citações, pois até parece que o intelectual não passa de um mercador de idéias alheias. Você já ouviu falar da dialética senhor-escravo, formulada por Hegel?

–       O que é isso, companheiro?

–       Desejar significa desejar ser reconhecido. Mas se cada consciência individual quiser obter esse reconhecimento, o resultado será um conflito entre as diversas consciências, pois haverá uma exclusão mútua. Entretanto, se essa luta terminasse com a supressão das consciências de todos aqueles que não aceitam o reconhecimento da vitoriosa, a morte delas privaria essa vitória de sentido, uma vez que o vencedor não teria ninguém para reconhecê-lo. A imposição do vencedor deixa com vida o vencido em troca deste reconhecê-lo e de renunciar a ser reconhecido. Essa relação de dominação e de servidão é a relação entre o senhor e o escravo[ii].

Hegel não apresenta essa luta mortal entre o senhor e o escravo, entre opressores e oprimidos, como o fato real que se verifica ao longo da história, e que tem sua origem em contradições reais, concretas, mas sim sob a forma intertemporal e abstrata que corresponde ao movimento do espírito para alcançar seu pleno reconhecimento. Desse modo, justifica, ideologicamente, a servidão.

O senhor, segundo Hegel, é o homem que leva até o fim, arriscando sua vida, a luta pelo reconhecimento. O escravo é o homem que, por medo da morte, recua na luta e renuncia a ser reconhecido. Assim, o senhor fica num plano propriamente humano, verdadeiramente espiritual; o escravo, não, somente salva seu ser natural, biológico.

O senhor mantém uma superioridade não apenas espiritual, mas também real, material, pois uma vez reconhecido, põe o escravo a seu serviço, obriga-o a trabalhar e faz dele um uso material, efetivo. O trabalho é servidão, dependência em relação ao senhor, mas essa dependência acarreta – como atividade prática, real – a transformação da natureza e a criação de um produto. O subjetivo se torna objetivo no produto e, desse modo, cria um mundo próprio. É possível reconhecer-se nos produtos que se cria. Transformando a natureza, o escravo reconhece a sua própria natureza.

Esse reconhecimento de si em seus produtos é consciência de si como ser humano. Enquanto o senhor, por não criar, por não transformar coisas, não se transforma a si mesmo e não se eleva, portanto, como ser humano. O escravo se eleva como tal e adquire consciência de sua liberdade no processo de trabalho. Mas apenas se liberta idealmente, isto é, a realização da liberdade só ocorre no plano do Espírito.

–       Estou entendendo,  o trabalho é a melhor e a pior das coisas: a melhor, se é livre; a pior, se é escravo. O trabalho útil é, em si mesmo, um prazer, independentemente das vantagens que dele se tirarem. A maioria dos homens consome a maior parte do tempo no trabalho, para viver. O pouco de liberdade que lhes sobra angustia-os de tal forma que procuram todos os meios de se livrarem dela, através do tédio ou do vício. Um poeta russo já disse que é melhor morrer de vodka do que de tédio!

–       O trabalho, a atividade prática material produtiva se apresenta, portanto, num processo através do qual o sujeito vai se elevando até atingir sua plena consciência. A superioridade do escravo sobre o senhor reside no fato dele se haver inserido nesse movimento, enquanto que o senhor fica à margem do mesmo, não desenvolvendo seu Espírito. Não há homem completo à margem do trabalho criador, seja no ócio, seja em trabalho alienado, onde não há interesse pelo produto criado. O fato de que ele exista, objetivamente, não significa por si que exista para o sujeito trabalhador. Essa consciência é adquirida através de um longo processo teórico e prático de luta contra sua alienação e exploração. A concepção hegeliana do trabalho, embora tenha seu mérito obscurecido por uma concepção espiritualista, significa uma descoberta profunda: a do papel da praxis produtiva na formação e libertação do homem.

–       Eu fico cá comigo, pensando: porque tantos homens suportam às vezes um tirano só? Servidão, parece-me, só existe para um pela vontade de um outro: o escravo precede o senhor. Por que ele serve a quem só o faz padecer?

–       Em Discurso da Servidão Voluntária, editado pela primeira vez em 1553, seu autor – Etienne La Boétie – sugere que, uma vez instalado, o tirano detém a vontade e o poder de subjugar[iii]. Mas não se torna senhor por querer, e sim por ter ocupado um lugar já preparado, por ter respondido a uma demanda já formulada por aqueles, naqueles que domina: o povo. A cada momento de seu império, a tirania se engendra a partir da vontade de servir. A força da servidão não é, fundamentalmente, o medo. A servidão não nasce da covardia, assim como a liberdade não nasce da coragem. Aliás, como provam os combativos sindicalistas. O chocante da questão da servidão voluntária é a estranha vontade ou o estranho desejo de servir. Estranho também é La Boétie induzir seu leitor a buscar o sentido da amizade ao mesmo tempo que o da servidão. Entende-se, então, o desejo de ser amigo do rei.

Mas “amizade é igualdade”. A separação resultante de quando os amigos se esforçam para elevar um dos seus acima deles, quebra os laços da amizade, o viver junto, a partilha dos pensamentos e a igualdade das vontades. A amizade é destruída quando a semelhança entre pares é substituída pela hierarquia que separa superiores e inferiores.

–       Companheiro, tenho de fazer o elogio da filosofia. Jamais imaginei que um manuscrito de quase 5 séculos atrás dissesse tanto sobre a política nacional, hoje.

–       Li, num jornal[iv], que “o ato de viver é dispersivo, a experiência humana é diluída, as mais diferentes emoções e os mais diferentes sentimentos se acumulam. Mas, no livro, é possível ver um mundo organizado, captar uma parcela da realidade. Quando isso acontece, é uma revelação”.

Se alguém descobre a possibilidade de estar se dizendo num texto e trocar isso com os outros, vai entender que o livro é também um modo como alguém se disse, se contou. A leitura é a grande revolução que uma pessoa, no plano individual, pode sofrer. Quando você lê uma síntese de um aspecto da vida que lhe incomoda, é uma experiência inigualável, só comparável a um grande amor.

–       Companheiro, você sabe que usamos a leitura do decálogo para o peão adquirir consciência social?


O Decálogo do Capitalista

  1. Amar o capital sobre todas as coisas.
  2. Não invocar o poder do capital, teu Deus, em apoio a empreendimento não lucrativo.
  3. “Trabalharás durante seis dias, e neles farás todas as tuas obras; mas, no sétimo dia, que é o sábado do Senhor, teu Deus, não farás trabalho algum: tu, o teu filho ou tua filha, o teu escravo, macho ou fêmea, o teu boi, o teu jumento ou qualquer outro dos teus animais, o estrangeiro que está dentro das tuas portas, para que o teu servo e a tua serva descansem como tu” (DT – Deuteronômio – 5).
  4. Honrai teu mercado e tua aplicação.
  5. Não matarás teu cliente.
  6. Não cometerás conluio com teu concorrente.
  7. Não furtarás teu sócio.
  8. Não levantarás propaganda enganosa contra teu consumidor.
  9. Não cobiçarás o mercado do próximo.
  10. Não cobiçarás as propriedades alheias.

Originalmente, os dois últimos mandamentos dizem: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo, e não desejarás sua casa, nem seu campo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem nada que lhe pertença”

–       A dedução lógica é que o capital vive em pecado!

–       Estamos nos entendendo, companheiro. Os patrões têm seus especialistas em recursos humanos, nas mesas de negociação salarial. Temos dificuldade em reagir aos argumentos técnicos que eles levantam contra a reposição salarial. Você poderia nos ajudar na análise desse discurso, para não sermos enganados por ele?

–       Poderemos ver como os salários têm sido estudados desde os primórdios da Economia Política, ou seja, examinar o problema da determinação do salário, na economia, a partir das formulações das diversas correntes do pensamento econômico. Em seguida, cabe a apresentação de uma Teoria do Emprego que alerta contra os falsos remédios para o combate ao desemprego. A análise da especificidade do funcionamento do mercado de trabalho não-qualificado em economia atrasada, envolvendo o problema da superpopulação relativa e do excedente de mão de obra, também é pertinente. Por fim, que tal encerrarmos com o exame dos reflexos das transformações tecnológicas e econômico-financeiras recentes no mundo do trabalho?

–       Acato suas sugestões, companheiro. Por uma questão de ordem, nossa pauta de discussão pode ser assim estabelecida:

  1. Quais são as teorias da determinação do salário?
  2. Como se explica o desemprego?
  3. Como funciona o mercado de trabalho não-qualificado, em uma economia atrasada?
  4. Quais são os reflexos das transformações tecnológicas e econômico-financeiras recentes, no mundo do trabalho?
Leia maisFernando Nogueira da Costa Economia em 10 Lições LIÇÃO5


[i]           ANTUNES, A., FROMER, M. & BRITTO, S.. Comida. Titãs: Acústico. São Paulo, WEA, 1997.

[ii]           Sobre o conceito de reconhecimento e a luta do senhor com o escravo, na Fenomenologia do Espírito, escrito por G. W. Hegel, ver: VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Filosofia da Praxis. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968. p. 74.

[iii]           LA BOÉTIE, Etienne. Comentários de Claude Lefort, Pierre Clastres e Marilena Chauí. Discurso da Servidão Voluntária. São Paulo, Brasiliense, 1982.

[iv]          MARINHO, J. M.; CORTELLA, M. S.; VILLAS-BOAS, L.. Para você exercer os poderes de leitor. Folha de São Paulo, 17 de maio de 1999. p. 7.5.

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