Economia Em 10 Lições – Sexta Lição

SEXTA LIÇÃO

DECISÃO DE GASTAR

Modus vivendi
[maneira de viver]

6.1. Diálogo repórter – economista consultor

–       Bom dia…

–       Ei, ministro, aonde o senhor vai? Venha aqui dar uma declaração para nossos leitores. A economia vai bem, ministro?

–       A economia vai indo, mas o povo vai passando… mal. Porém, eu não sei mais de nada, sou apenas um ex-ministro da Fazenda, fui professor há muito tempo, estou desatualizado, e agora só atendo umas consultinhas de meus clientes. Na verdade, comecei a responder só porque você perguntou, não porque eu saiba a resposta.

–       Eu estou aqui a serviço da opinião pública, quero entrevistá-lo, temos a missão de orientar e esclarecer as multidões!

–       Ai, meu Deus, vivemos sob o governo de jornais matutinos… Tá bom, mas lembre-se da advertência de Mark Twain, “primeiro obtenha os fatos, depois pode torcê-los tanto quanto quiser”. O que você quer saber?

–       No papel de repórter, quero representar os interesses do cidadão que tem vida econômica, aquele que pode ser consumidor, investidor, empreendedor, contribuinte, exportador, importador… Vamos fazer uma entrevista a respeito das informações que a opinião especializada pode fornecer à opinião pública, isto é, o saber específico do economista que devemos socializar, prestando um serviço de utilidade pública.

–       Bem… é somente isto que você deseja saber?! É simples, você pode transformar um papagaio em um douto economista, basta ensiná-lo duas palavras – oferta e demanda. A Economia se reduz a isso… É suficiente, portanto, saber os determinantes dos seus agregados. Quanto à oferta agregada, sabemos que, na concepção clássica, ela depende do estoque de capital (capacidade produtiva), das condições do mercado de trabalho (determinantes do nível do salário real) e da tecnologia (produtividade). Veja que todas os fatores que afetam a oferta agregada, segundo essa abordagem, são variáveis reais, ou seja, o nível do produto e do emprego independem de variáveis monetárias.

–       Essas variáveis monetárias afetam, então, o outro lado, o da demanda?

–       Sim. Economia convencional é o reino da simetria, do equilíbrio, da moderação. Vê como é fácil? De fato, definindo-se a demanda agregada como a multiplicação da quantidade demandada de bens e serviços pelo nível de preços, ela é derivada, na ortodoxia, a partir da Teoria Quantitativa da Moeda. Em outras palavras, dadas a oferta de moeda (Ms) e a velocidade de circulação da moeda (V), quanto maior o nível de preços (P), menor o estoque real de moeda (Ms / P), para atender a demanda por moeda por motivo de transações. Conseqüentemente, menor a quantidade de bens e serviços (Y) a ser demandada. A Equação das Trocas apresenta a formulação do problema: Ms . V = P . Y

–       Entendi: se a representação gráfica da oferta agregada é feita através de uma curva positivamente inclinada – a quantidade ofertada de bens e serviços acompanha certa faixa de variações de preços –, a da demanda agregada o é por uma curva de inclinação negativa! É uma dedução óbvia: se os preços sobem, eu demando menos bens e serviços.

–       Isso mesmo, como vimos, as condições de oferta determinam o nível do produto, e a demanda “monetizada” determina o nível de preços. Na abordagem clássica, se a oferta de moeda aumenta e todos se dispõem a gastar mais dinheiro, deslocando a curva da demanda, face a uma oferta de produtos constante, os preços sobem. O movimento que você citou é uma variação na curva e não da curva. Sutil, não?

–       Realmente, é bastante sutil. Por que os macroeconomistas trabalham com agregados?

–       Simples! A macroeconomia, como vimos, é o estudo do comportamento agregado de uma economia, isto é, analisa as conseqüências globais da pluralidade de ações isoladas, realizadas pelos agentes econômicos. Permite, então, a compreensão da mudança no nível geral de preços e/ou no nível da atividade econômica através da análise de uma resultante média ponderada das milhares de alterações individuais.

A abordagem básica da macroeconomia vai no sentido de observar as tendências gerais da economia e não a de cada agente, isoladamente. Para isso, usa as medidas agregadas ou a contabilidade social. Portanto, ela estuda as grandes questões que afetam o ambiente econômico sem o excesso de detalhes individuais ou setoriais. Inclui o estudo das alterações do contexto econômico provocadas pelas políticas governamentais.

A macroeconomia moderna é construída sobre microfundamentos. Estabelece uma relação com a microeconomia, que estuda as decisões isoladas dos agentes econômicos em interação mútua, nos mercados.

Os passos da macroeconomia moderna do mainstream[i] [corrente principal] são:

  1. compreensão, em nível de teoria pura, dos processos de decisão dos agentes econômicos. Adota-se uma hipótese extremamente simplificadora: a de que há, na economia, um agente representativo, ou seja, um tipo médio, cabendo à teoria microeconômica fazer a análise da racionalidade de seu comportamento sob diferentes circunstâncias econômicas.
  2. explicação do comportamento geral da economia através da agregação de todas as decisões microeconômicas. A descoberta de relações regulares entre os dados agregados permite previsão. As teorias macroeconômicas, portanto, tentam interpretar o comportamento predominante, regularmente. Quando os agentes econômicos escapam dessa regularidade, as previsões não se confirmam, na realidade.
  3. teste da validade de uma relação teórica proposta. É a evidência empírica, buscada pela econometria, com a finalidade de explicar o passado, medir (quantitativamente)  uma relação e apoiar alguma previsão econômica.

–       Este é, como você disse, o procedimento habitual dos economistas do mainstream. E os economistas heterodoxos, como eles procedem?

–       A heterodoxia contemporânea não só busca analisar os microfundamentos da macroeconomia através das teorias das decisões básicas dos agentes econômicos (ou firmas) como também examinar os macrofundamentos da microeconomia através das teorias dos principais problemas resultantes sistêmicos (inflação, desemprego, ciclo econômico e crise cambial) e das relações internacionais entre as decisões de políticas macroeconômicas, em economia aberta. Em outras palavras, quer informar sobre o contexto macroeconômico das decisões particulares. Entendo que esta seja uma boa maneira de se organizar um livro de Introdução à Economia.

–       Bem, ambas as correntes trabalham com oferta e demanda agregada, não?

–       Sim, como ponto de partida da análise macroeconômica. Porém, a heterodoxia não tem uma abordagem puramente monetária da demanda agregada. Ela discrimina os comportamentos dos componentes dessa demanda.

Numa economia fechada, a demanda agregada – a quantidade total de bens e serviços demandados pelos residentes a um determinado nível de preços – resulta da soma das demandas de consumo (C), investimento (I) e gastos governamentais (G). Numa economia aberta, a demanda agregada – a quantidade total de bens e serviços domésticos demandados tanto pelos agentes locais quanto pelos  não domésticos, a um determinado nível de preços – acrescenta à soma da demanda local de consumo (C), investimento (I) e gastos governamentais (G), as exportações líquidas (X – M).

O nível de preços e da produção, no mercado de bens e serviços, é representado, graficamente, pela interseção da curva decrescente da demanda agregada com a curva crescente de oferta agregada.

Um choque na demanda agregada, devido a uma expansão na política fiscal ou na política monetária, é analisado dentro das seguintes possibilidades:

  • caso clássico:  como a oferta agregada é vertical (situação de pleno emprego), o deslocamento da demanda agregada produz todo efeito sobre o nível de preços e não tem efeito sobre o nível da produção;
  • caso keynesiano intermediário:  a oferta agregada tem inclinação crescente (devido a pontos de estrangulamentos setoriais); com isto, a expansão da demanda agregada resulta tanto em aumento no nível de preços quanto no nível da produção;
  • caso keynesiano extremo: a curva de oferta agregada é horizontal – em condições de capacidade ociosa generalizada, devido à recessão –, a expansão da demanda agregada tem então todo efeito na produção e nenhum efeito no nível de preços.

Um choque de oferta positivo (devido, por exemplo, a um avanço tecnológico ou uma queda de preços dos insumos) provoca variações na quantidade de produção oferecida a um determinado preço. Trata-se de um deslocamento da curva de oferta agregada:

  • caso clássico: verticalmente para a direita;
  • caso keynesiano intermediário: para baixo e para a direita;
  • caso keynesiano extremo: horizontalmente para baixo.

Observe que, nestes três casos, o resultado qualitativo é o mesmo: aumento na produção e diminuição no nível de preços, apesar dos valores diferirem.

–       Posso entrevistá-lo, então, a respeito dessas proposições keynesianas?

–       Não, vamos ampliar o leque de nossa conversa. A síntese neoclássica-keynesiana deturpou muitas colocações originais de Keynes. Os pós-keynesianos preferem fazer uma síntese keynesiana-kaleckiana. Neste sentido, vamos usar mais a visão do economista polonês Michal Kalecki (1899-1970). Mas completaremos sua visão sobre ciclo de investimentos e tendência de crescimento a longo prazo com observações neo-schumpeterianas – advindas de discípulos do economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) – sobre inovações tecnológicas.

–       Minha pergunta inicial é: o que um economista faz?

–       Demasiado no curto prazo, quase nada no longo prazo…

–       Agora, seriamente, diga-me a respeito de algumas das principais questões estudadas por essa visão heterodoxa de macroeconomia.

–       A macroeconomia dinâmica é o estudo do comportamento de variáveis-chave – tais como nível geral de preços, de produção, de emprego, de comércio internacional, etc. – no tempo: passado, presente e futuro. Discrimina as expectativas, das quais dependem as decisões pertinentes à atividade econômica, entre as de curto prazo e as de longo prazo.

EXPECTATIVAS A CURTO PRAZO

EXPECTATIVAS A LONGO PRAZO

Relacionam-se com o preço que um fabricante pode esperar obter pela sua produção “acabada”, no momento em que se compromete a iniciar o processo de produção. São expectativas relativas ao custo da produção, em diversas escalas, e ao produto da venda desta produção. Referem-se ao que o empresário pode esperar ganhar sob a forma de rendimentos futuros, no caso de comprar produtos “acabados” para os adicionar a seu equipamento de capital. Não faz parte da natureza delas poderem ser revistas a curtos intervalos de tempo à luz dos resultados realizados.

Uma simples mudança de expectativa é capaz, no decorrer do período em que a mesma se verifica, de provocar uma oscilação comparável à de um movimento cíclico. O emprego atual é governado pelas expectativas correntes, consideradas juntamente com o equipamento de capital disponível hoje. As expectativas a longo prazo estão sujeitas a revisões imprevistas, mas não são eliminadas pelos resultados realizados, na produção corrente.

O leitor já leu a respeito de questões-chaves, em macrodinâmica. Na Terceira Lição, viu os determinantes da taxa de inflação, medida pela alteração percentual do nível médio de preços da economia: se ela é correlacionada à expansão monetária, se é causa ou efeito desta. Na Quinta Lição, estudou os movimentos a curto prazo da taxa de desemprego relacionados às flutuações dos ciclos de negócios.

–       Que tal agora, aprofundarmos essa análise das flutuações a curto prazo do nível de atividades?

–       Sim, vamos conversar sobre o ciclo de negócios, no qual o pico é o momento de expansão máxima da produção e o vale é o nível mais baixo. Um ciclo completo vai de um vale ao seguinte, passando por um pico.

Na próxima parte, o leitor terá uma exposição a respeito das mudanças do balanço de pagamentos, ocorridas devido aos fluxos comerciais e financeiros internacionais. A relação do desequilíbrio na conta de transações correntes (comercial e de serviços) e com a conta de capital é o foco de macroeconomia aberta, pois o fluxo comercial e o de capitais são uma influência dominante da economia nacional. Hoje, os destinos macroeconômicos das várias nações estão interligados.

–       Ok. Mas vamos agrupar essas questões, ordenadamente, de acordo com as diversas influências nos componentes da demanda agregada. Quero entrevistá-lo, perguntando, basicamente: qual é a Teoria do Consumidor? Quais são os determinantes do ciclo de investimentos? Como as inovações determinam a tendência de crescimento a longo prazo? A intervenção governamental e o superávit do comércio exterior  são necessários à recuperação econômica?

Leia mais: Fernando Nogueira da Costa Economia em 10 Lições LIÇÃO6


[i]            SACHS & LARRAIN. Macroeconomia. São Paulo, Makron Books, 1995.

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