Economia Em 10 Lições – Oitava Lição

OITAVA LIÇÃO

MERCADO DE CÂMBIO E BALANÇO DE PAGAMENTOS

Mutatis mutandis

[mudando o que deve ser mudado]

8.1. Diálogo especulador – assessor

–       Você sugeriu, na Terceira Lição, que, para seu sonho se realizar mesmo, você deseja ser um especulador internacional. Pois bem, agora eu quero ser seu assessor nesse mister. E, depois, na próxima Lição, quando você for Presidente da República, quero o cargo de Presidente do Banco Central!

–       Ok, mister. Sobre o que vamos especular?

–       O interessante que especular é referente a, ou próprio de espelho, ou seja, diz-se de uma superfície refletora. Veremos que a idéia principal da teoria da reflexividade de George Soros – o famoso megaespeculador internacional – é que a compreensão do mundo no qual vivemos é essencialmente imperfeita[i]. As situações cujos agentes precisam entender para chegar às suas decisões são afetadas pelas próprias decisões. Há, portanto, uma divergência inata – em diferentes dimensões – entre as expectativas dos agentes econômicos participantes de determinadas situações e o resultado real dessas situações. A realidade pode ser mirada como um “alvo móvel”, sendo atingida pelas tentativas de antecipá-la, com múltiplos agentes tomando ativamente decisões com base em previsões não necessariamente convergentes. Mutatis mutandis, especular não te faz refletir sobre a relação entre o narciso e o espelho?

–       Você está brincando ou especulando?

–       Especulando, no bom sentido de examinar com atenção; averiguar minuciosamente; observar; indagar; pesquisar; informar-se minuciosamente de algo; meditar, raciocinar, refletir, considerar.   Logo, não com o sentido de valer-se de certa posição, de circunstância, de qualquer coisa, para auferir vantagens; explorar. Neste caso, trata-se de meter-se em negócios mirando lucros; agenciar, traficar, negociar. É mais próximo do entendimento do economista: operar na bolsa, apostando na alta ou na baixa das cotações. Aqui, estaremos conversando sobre outro mercado de ativos, o de divisas e/ou de moedas estrangeiras.

–       Nós já conversamos sobre moeda. Não foi suficiente?

–       Moeda estrangeira não é um ativo monetário que atua como dinheiro, no nosso país. É melhor encará-la como um ativo que, aqui, é somente reserva de valor – em hiperinflação, torna-se unidade de conta. Só atua como meio de pagamento (caso tenha aceitação universal como o dólar) no comércio externo e nas finanças internacionais. Mas não se exaure, falando de moeda. “Muitas das coisas da vida – amantes, câncer, automóveis – são importantes somente para os que as possuem. O dinheiro, ao contrário, é importante para os que têm e os que não têm”, diz Galbraith. Vamos abandonar as penas do amor e da dor e falar dessas últimas coisas: automóveis e moedas. Você gosta de carro?

–       Ei, por que não falar do amor? Economista não ama?

–       Um economista é alguém  que conhece 100 maneiras de fazer amor, mas não conhece nenhuma mulher… De fato, com a descoberta da inteligência emocional, as firmas estão avaliando seus executivos sob um novo critério: o dom de administrar bem sua própria saúde; só assim, sem stress, trabalharão na sua capacidade máxima. Isso significa encontrar um equilíbrio entre trabalho, família, férias; entre trabalhar e dormir. Perceber o “óbvio ululante”: há vida fora do trabalho! “Enfrente a doença emocional e espiritual do coração – solidão e isolamento. Ame mais e seja feliz – esta é a chave para ter melhor saúde”, recomendam os RH das firmas. Você gostaria mesmo de ler sobre uma interpretação de economista a respeito da paixão, do casamento e do amor[ii]?

–       Quero expiar meus pecados, vamos a ela…

–       A paixão é ver-se bem, vivo, belo e inteligente, nos olhos do outro. É uma experiência narcísea de êxtase, de gozo, emocional, com quem “abre nossos olhos”. O casamento é o desejo de enclausurar a paixão, sob o medo de perder esse momento divino, em que nós sentimos como deuses. A razão sabe que a paixão não é eterna. Para tê-la eternamente, os apaixonados tentam impedir sua fuga, através do casamento.

Os apaixonados querem se casar; lamentavelmente, os casados querem se apaixonar. Na visão pragmática de um economista, o casamento é um contrato prático, que estabelece uma obrigação recíproca, para troca de serviços por tempo indeterminado…

O problema da paixão é o tempo. Não se pode ficar apaixonado todo o tempo, pois paixão significa perda da razão, o que se choca com a necessidade econômica de sobrevivência cotidiana. Se as ações diárias tornarem-se dependentes das emoções estarão sujeitas a uma instabilidade imobilizadora. O casamento baseado só na paixão seria frágil. O casamento é o túmulo da paixão.

O casamento é uma instituição da ordem social, ou seja, um comportamento humano baseado no dever. Subordinado ao dever (conjugal), torna-se estável. À mercê do sentimento da paixão seria pleno de incertezas. Isto seria prejudicial à divisão de tarefas que propicia uma vida melhor, mais produtiva, a dois. A tragédia do casamento é ocupar-se somente do útil e não do dito fútil. Ele necessita do deixar fluir, do deleite com a arte de falar e escutar. Quando a sedução é pelas palavras, o amor não termina nunca. O casamento amoroso exige conversar: falar-e-ouvir.

A paixão é ideal; o casamento, real. A confusão entre o real e o ideal nunca fica impune.

–       Cruz credo! O economista sugere que essa união marital não só é gratíssima à sociedade como utilíssima para a vida! Aplica a teoria do valor-utilidade? A divisão conjugal de tarefas aumenta a produtividade familiar?

–       Na realidade, um contrato de casamento que se estabelece como perpétuo é contra a natureza, e por essa razão sofre freqüentes infrações. O fardo do casamento pesa tanto que é necessário que sejam dois a carregá-lo, e às vezes mesmo três. Um casal feliz seria formado por um marido surdo e uma mulher cega. O casamento inicia como um romance, continua como um drama, termina como uma tragédia, é lembrado como uma comédia.

–       Chega de especular. Isso é aplicação de teoria econômica?

–       Economista faz teoria sobre todo comportamento humano que imagina racional. Mas há até teoria econômica sobre o crime, o suicídio, inclusive elaborada por ganhador de Prêmio Nobel (Gary Becker). Não vamos cometer uma teoria econômica sobre o casamento[iii]… Vamos falar sobre um bem econômico: o automóvel, ou melhor, vamos distinguir dois tipos de automóveis: o de câmbio mecânico e o de câmbio automático.

–       Não conheço nada sobre carros. De que se trata?

–       Em engenharia mecânica, câmbio é uma peça de metal utilizada pelo motorista para alternar as marchas do veículo. Assim, com a alavanca de câmbio ou de mudança seleciona-se o número de rotações do motor em relação às rodas, alterando sua velocidade. Graças a uma simples alavanca é possível deslocar uma grande carga com um pequeno esforço. As engrenagens do veículo funcionam como uma série de alavancas sucessivas.

–       Isto é Física!

–       Mutatis mutandis, é Economia. Queremos usar a diferença entre o câmbio mecânico e o automático como uma metáfora – uma relação de semelhança subentendida entre o sentido próprio e o figurado – explicativa da diferença entre câmbio fixo e câmbio flutuante. Uma transmissão automática seleciona e muda, por pressão hidráulica, as diferentes marchas do automóvel hidramático (PRND – parking, ré, neutro, drive), conforme necessário, sem intervenção do motorista. Quer dizer: para conduzir um automóvel com comando automático de mudanças, basta selecionar o movimento para a frente ou para trás e acelerar. Num automóvel com este sistema de mudanças existem, portanto, apenas dois pedais, um para acelerar  e o outro para frear. Assim como os motoristas se dividem com relação à preferência por carro com câmbio automático (direção em rush)  ou com câmbio mecânico (direção esportiva), os economistas têm suas preferências em relação ao regime de câmbio flutuante e ao de câmbio fixo. Mutatis mutandis, pode se fazer uma analogia entre o automatismo do primeiro – o governo-motorista deixa a troca de câmbio para o mercado – e a discricionariedade do segundo – há intervenção governamental ou do motorista – e as trocas de marchas dos automóveis.

–       Entendi a metáfora. Quero saber mais sobre isso, afinal vou especular contra as taxas de câmbio!

–       Vamos com calma: nem euforia, nem pânico de investidor de 1ª hora… O que você quer saber?

–        O que é o mercado de câmbio? Quais são os conceitos e definições da taxa de câmbio? Como cobrir o risco de câmbio? Quais são os determinantes das taxas de câmbio? O que é um “ataque especulativo”? Qual é a diferença para “bolha especulativa”? Por fim, gostaria que você também fizesse uma análise econômica do balanço de pagamentos, apresentando seus fatores determinantes e mecanismos de ajustamento às variações da taxa de câmbio.

Leia mais: Fernando Nogueira da Costa Economia em 10 Lições LIÇÃO8


[i]           SOROS, George. A Alquimia das Finanças. RJ, Nova Fronteira, 1996 (original de 1987).

[ii]           ALVES, Rubem. Conferência sobre “Paixão e Casamento”. Campinas, 13 de abril de 1996.

[iii]           McCRATE, Elaine. Trade, Merger and Employment: Economic Theory on Marriage. Review of Radical Political Economics. Vol. 19(1): 73-89, 1987.

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