Economia Em 10 Lições – Sétima Lição

SÉTIMA LIÇÃO

DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

De te fabula narratur

[de ti fala a história]

7.1. Diálogo estagiário(a) de economia – ex-funcionário internacional

–       Como a revolução francesa afetou o desenvolvimento econômico mundial?

–       É muito cedo para dizer…

Essa piada me lembra que “a história é sempre a mesma; os historiadores que são diferentes”. A teoria do desenvolvimento – “tentativa de explicação das transformações dos conjuntos econômicos complexos”[i] – demonstra isso.

Segundo Furtado, um dos primeiros frutos do avanço da teoria do desenvolvimento foi uma percepção mais lúcida da história econômica. Esta revelava a significação dos fatores não econômicos no funcionamento e na transformação dos sistemas econômicos, bem como a importância do grau de informação dos agentes responsáveis pelas decisões econômicas.

Um número crescente de decisões tende a ser programado. Na medida em que existe um sistema de valores, aceito ou imposto, em toda a ordenação econômica, verifica-se a influência do nãoeconômico na cadeia de decisões que levam à transformação dos conjuntos econômicos complexos.

“O crescimento econômico pode ocorrer espontaneamente pela interação das forças de mercado, mas o desenvolvimento social é fruto de uma ação política deliberada. Se as forças sociais dominantes são incapazes de promover essa política, o desenvolvimento se inviabiliza ou assume formas bastardas. O atraso político causado pelos vinte anos de ditadura explica a deterioração da máquina do Estado e a decadência da classe política brasileira”[ii].

O não-econômico traduz a capacidade do homem para criar a história e inovar.

–       Esse maior campo de possibilidades corresponde a espaço mais amplo para a ação do indivíduo ou apenas maiores exigências de ação coletiva?

–       Sua pergunta é muito complexa para ser elaborada por um(a) estagiário(a) de economia! Nem eu – que tive meus dias de glória lá no estranho caminho de Santiago[iii] – consigo te responder! É um problema ao qual talvez a psicologia social possa algum dia dar resposta.

O que eu posso é parafrasear Adam Ferguson, filósofo escocês que disse, em 1793: “o que acontece na história é o resultado da ação humana, mas não a execução de algum plano humano”.

–       Você perdeu a fé no planejamento econômico?

–       A convicção de que é necessário “tomar as rédeas da história” e reorientá-la de acordo com as “soluções que atendem objetivos superiores” é uma atitude que se caracteriza pela incapacidade de “entender o futuro como história”, isto é, como resultante de uma pluralidade de ações. A cadeia lógica das transformações econômicas se prolonga em direção ao futuro. O presente deve ser entendido como história e o futuro também.

Todas as opções e decisões que impliquem em mudança de rota histórica, que procurem novos caminhos para a história, só ganham existência real na medida em que são formuladas e socialmente reconhecidas como próprias de um “sujeito” (grupo, classe social) que tenha inserção no sistema, força, influência, etc.. O momento em que se coloca essas opções também é chave. A resistência à introdução de mudanças é mais tênue nas encruzilhadas históricas. Estas são atingidas somente quando a evolução histórica cruza os problemas sociais com os problemas econômicos. Infelizmente, os problemas sociais não têm impedido o funcionamento e a expansão do sistema capitalista.

“Só completaram o difícil trajeto que vai do papel à realidade aqueles programas e proposições sugeridos pelas próprias dificuldades encontradas pelo sistema econômico em evolução”[iv].

Essa sensação de impotência é dolorosa, para os técnicos e intelectuais do desenvolvimento que já levaram tanta fé no seu ofício…

–       Ânimo, mestre, agora o senhor está livre de responsabilidades executivas pela primeira vez em muitos anos, pode revisar e desenvolver sistematicamente seu pensamento, pensar como a fantasia foi organizada e desfeita.

–       Sim, você tem razão. Veja o esforço de balanço realizado pelos grandes teóricos do desenvolvimento: Raul Prebisch, Albert Hirschman, Celso Furtado[v].

Porém, como observador e antigo participante não posso deixar de sentir que a antiga vitalidade já não é encontrada na teoria do desenvolvimento, cada vez é mais difícil encontrar idéias novas e, o que mais me incomoda, essa teoria não está se reproduzindo, adequadamente, por sua incapacidade para atrair talentos jovens. É como Hirschman constatou, tristemente:

“Em sua época de efervescência [anos 40 e 50], a economia do desenvolvimento se desenvolveu muito melhor que o objeto de seu estudo, o desenvolvimento econômico das regiões mais pobres do mundo (…). Nas últimas décadas, parece que essa brecha vem se estreitando, infelizmente, não tanto pelo efeito de uma aceleração repentina do desenvolvimento econômico, mas sim porque o avanço de nossa sub-disciplina [economia do desenvolvimento] se freiou, notavelmente”[vi].

–       De fato, o virtual desaparecimento do interesse pela teoria do ciclo econômico pode até ser justificado pela ausência de flutuações nos “anos dourados” da expansão contínua do capitalismo, a partir do término da II Guerra Mundial até meados dos anos 70. Mas, por que não se fala mais tanto na teoria do desenvolvimento, se os problemas da pobreza do Terceiro Mundo permanecem sem solução?

–       Talvez pelo argumento contrário a esse: o descobrimento decepcionante de que não existe uma solução imediata. No entanto, há, em muitos lugares, progressos animadores, que o estudo do desenvolvimento poderia sistematizá-los, para espraiá-los. No fundo, a economia do desenvolvimento, no passado, se iludiu com esperanças e ambições exageradas, que acabaram em decepções.

–       Eu ouvi falar, na minha escola, que há uma nova teoria do crescimento endógeno

–       É o mesmo velho conteúdo neoclássico em novo frasco… O debate recente sobre teoria do desenvolvimento contempla também um market friendly approach [abordagem amigável do mercado] e uma alternativa partindo do enfoque microeconômico da abordagem neo-schumpeteriana. Nada há como a glória do passado.

–       Mas, para minha formação de economista, interessa-me conhecê-las. Faça-me, inicialmente, uma classificação simples das antigas teorias do desenvolvimento. Outras questões que eu gostaria de ver respondidas são: Qual é o pensamento estruturalista sobre o desenvolvimento? Qual é a nova teoria do crescimento endógeno? O enfoque neo-schumpeteriano do desenvolvimento é uma alternativa à abordagem amigável do mercado?

Leia maisFernando Nogueira da Costa Economia em 10 Lições LIÇÃO7


[i]           FURTADO, Celso. Prefácio à Edição Francesa. Teoria e política do desenvolvimento econômico. São Paulo, Abril Cultural, 1983. p. 7.

[ii]           FURTADO, Celso. In BIDERMAN, COZAC & REGO (org.). Conversas com economistas brasileiros. São Paulo, Editora 34, 1996. p. 64.

[iii]           Santiago do Chile é o local da sede da CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e Caribe. O caminho místico é para Santiago da Compostela, na Espanha.

[iv]          CASTRO, Antônio Barros de. 7 ensaios sobre a economia brasileira. Rio de Janeiro, Forense, 1969. p. 13.

[v]           PREBISCH, Raúl. Cinco etapas de mi pensamiento sobre el desarrollo. El Trimestre Económico. México, Vol. L (2), nº 198, abril-junio 1983. pp. 1077-1095. HIRSCHMAN, Albert. Auge y ocaso de la teoría económica del desarrollo. El Trimestre Económico. México, Vol.  nº 188, 1980. pp. 1055-1077. FURTADO, Celso.  A fantasia organizada. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1985. Idem. A fantasia desfeita. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989. Idem. Ares do mundo. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1991. Idem. A construção interrompida. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992.

[vi]          HIRSCHMAN; op. cit.; p. 1055.

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