Decisão de Compra de Carro

Ricardo Ribeiro (Folha de S. Paulo, 18/12/11) salienta que, diante de tantos modelos e preços, entrar no mundo dos automóveis requer análise de aspectos como custos de manutenção e itens de segurança. Muitos estudantes ganham automóvel dos pais quando acabam de passar no vestibular. A nova fase da vida de ensino superior é acompanhada da compra de seu primeiro carro. Optam por um modelo compacto com base em argumento do tipo “porque vou rodar mais na cidade”. Na verdade, os pais participam da decisão e colocam um teto de preço. O autoengano é que “o motor tem de ser 1.0, porque eles não querem que eu corra”. Pessoalmente, preferiria comprar pelo mesmo preço um carro seminovo com motor, itens de série e acabamento melhores.

Há quem entre na loja de venda de veículos em dúvida entre um utilitário e um sedã, carros que atendem ao cliente de maneiras muito diferentes. O consumidor brasileiro aumentou suas expectativas de status com o automóvel. Um “SUV beberrão” seria um indicador de poder de compra.

O cliente racional, principalmente o de modelos de entrada, quer bom valor de revenda, baixo custo de manutenção e espaço interno amplo, mas também deseja equipamentos e acabamentos melhores, vistos apenas em segmentos superiores. Ele pesquisa bastante e escolhe o carro que melhor se encaixa no orçamento pessoal. Talvez uma boa relação custo / benefício seja um carro que tenha motor 1.4, baixo consumo, som e ar-condicionado.

Contudo, mesmo decisões práticas como a desse cliente não excluem o apelo visual. A compra é ligada ao desejo. Logo, o desenho do carro – e até o(a) vendedor(a) – tem um peso muito importante. Mas o consumidor está mais maduro. O interesse por veículos com mais itens de segurança cresceu.

O melhor negócio se dá quando o cliente responde a algumas questões para se orientar:

  1. Quer pagar quanto? O primeiro passo é definir o valor do carro de acordo com o orçamento disponível. É essencial, inicialmente, avaliar bem em que situações o carro será mais utilizado.
  2. Comprar carro novo ou usado? São três “P” (Paciência, Pesquisa e Planejamento) para fechar negócio na compra de carro novo, após comparar propostas de diferentes lojas. Um carro compacto (1.0) novo tem o preço de um sedã médio com cinco anos de uso. Se o plano é adquirir um modelo usado, cheque seu estado de conservação, faça test-drive e examine-o com mecânico de confiança, veja se tem boa procedência. A melhor opção, em geral, é comprar carro de origem alemã (Mercedes-Benz, BMW, Audi ou Volkswagen) ou japonesa (Honda, Toyota ou Nissan) que não costuma apresentar defeito mecânico.
  3. Documentos devem estar em dia. Não atrase a transferência do veículo para o seu nome.
  4. O que é mais importante para você? Se for economia, em geral, motores até 1.6 litro consomem menos combustível. Se for design, veja os que tem maior valor de revenda. Se for desempenho, evite modelos 1.0. Se for carga, sedãs e monovolumes tem maiores porta-malas. Se for segurança, escolha um modelo com airbags e freios ABS. O ideal é o automóvel que combine tudo isso. Eu prefiro motor turbo, pois tem ótimo desempenho com consumo menor do que V6.
  5. Faça um test-drive. É importante sentir o carro que pretende comprar; na primeira acelerada você poderá já avaliar seu desempenho. Compare o tempo de 0 a 100 Km/h com o de outros veículos.
  6. Avalie o custo futuro, desde as cotações do seguro até os preços das revisões. Veja se as revisões foram feitas. A quilometragem deve bater com os registros no manual. Para avaliar facilidade de venda futura, avalie as opiniões de outros donos do mesmo modelo, expressas em fóruns de debate na web.
  7. Compre na último dia do mês, quando as lojas oferecem melhores condições para bater as metas de venda. Peça desconto e questione as taxas de financiamento, ou melhor, barganhe para pagar a vista.

Escolher o carro é só a primeira parte da compra. Ainda é preciso definir como pagar por ele e calcular os custos de sua manutenção.

Na vitrine da concessionária, é comum a propaganda enganosa aparecer em letras garrafais no para-brisa do automóvel: “juro zero“. O vendedor, logo, enaltece as condições de pagamento: 60% de entrada e o restante em 24 parcelas. Na verdade, a calculadora revela o carro sai R$ 1.200 mais caro no plano financiado a juro zero. “Essa diferença é por conta do IOF [Imposto sobre Operações Financeiras] e da taxa para abertura de crédito”, justifica o vendedor.

A Renault, p.ex., não informa em sua última campanha que cobra cerca de R$ 800 para a abertura de crédito, valor suficiente para quitar quase três das 60 prestações do Clio, ofertado a R$ 299 por mês, com entrada de R$ 11 mil. Para levar o “popular” a prestações camaradas, a montadora pede R$ 55 por um seguro financeiro. Com taxas e imposto, o juro anunciado de 1,07% salta para 1,44% ao mês. O Clio de R$ 23 mil sairá por R$ 29 mil.

A Fiat ao menos inova no plano. Quem leva o Uno parcelado em 60 vezes, nas três primeiras prestações do ano (época de quitação de tributos) paga só R$ 100. Mas aí o juro efetivo total chega a 22,06% anuais.

As marcas citadas não estão sozinhas. Não destacar, de maneira clara, o juro efetivamente pago é praxe do mercado. Por lei, a publicidade deve anunciar o valor total do carro financiado, com taxas e impostos, mas essas informações geralmente só aparecem em letras miúdas no rodapé da propaganda. A mais importante é o CET (custo efetivo total), que inclui juros e taxas (veja exemplo na figura).

Outra tática comum é oferecer um juro baixo, mas tendo como base o preço cheio indicado na tabela. O comprador deve iniciar a negociação como se fosse pagar a vista, para descobrir o preço real do veículo.

Deve-se comparar planos de diferentes empresas ou financeiras até encontrar o que melhor se enquadra na situação econômica do comprador. Há também o consórcio. Menos oneroso que o financiamento, ele é indicado para quem não tem urgência em adquirir o carro, já que a entrega do bem depende de um sorteio ou lance.

Dúvidas sobre compra a prazo:

  1. É melhor financiar o carro diretamente com o banco ou por meio da revendedora? O ideal é fazer uma ampla pesquisa, pois ambos setores operam com promoções sazonais.
  2. Qual é o plano ideal de financiamento? Quanto maior a entrada e menor o número de parcelas, menor será o juro. Mas as prestações devem ser adequadas a sua previsão de orçamento ao longo do período de pagamento.

Lembre que o vendedor de carros recebe bônus se a compra é financiada. Ele não tem um percentual de comissão fixo, como o de imóveis. O ganho varia conforme a negociação. Melhor se o veículo sai a prazo, pois ele recebe o bônus. O dinheiro extra “garante o almoço e a janta do dia”. As vendas a vista são menos burocráticas e tomam menos tempo dos profissionais, mas não rendem a bonificação extra.

Os vendedores não desgrudam da sua calculadora financeira, a principal parceira de trabalho. É o aparelho que mostra para o comprador que a parcela cabe no orçamento. Eles oferecem juros que variam de acordo com o perfil (e a insistência) do cliente. Quando não se consegue a menor taxa, é possível conseguir itens extras como câmera de ré e frisos.

A comissão extra geralmente é paga pela instituição financeira por trás da transação. Quanto maior o juro embutido, maior é o bônus do vendedor: é o chamado fator “R”, que rende, em média, R$ 50 por venda parcelada.

Vendedores também costumam receber percentuais mais altos para comercializar modelos encalhados ou que logo sairão de linha. Nesse caso, o bônus é patrocinado pela loja ou pelo fabricante do veículo.

Deve-se comprar carros em feirões? Economista conhece o Modelo dos Abacaxis: suspeita-se de quem leva os carros aos feirões; se eles fossem bons, não venderiam lá. No entanto, estruturados em grandes estacionamentos a céu aberto, os feirões têm a missão de criar um clima despojado para impressionar o consumidor, que associa a falta de luxo do local e o amontoado de carros a uma verdadeira queima de estoque. Mas, na maior parte dos casos, os preços são idênticos aos praticados nas concessionárias, cuja apresentação luxuosa espanta consumidores mais simples.

Finalmente, deve-se lembrar que manter automóvel de R$ 25 mil custa cerca de R$ 1.200 por mês, considerando o custo anual de IPVA, combustível, seguro, manutenção, etc., e dividindo-o por doze meses. Trata-se de um clichê popular, mas cujo teor não é infundado. “O impacto do custo para manter um carro no orçamento é de fato semelhante ao de criar um filho”.

As despesas são regulares e vão muito além do valor desembolsado para a aquisição do veículo. Simulação feita pela FGV (Fundação Getulio Vargas) mostra que o dono gasta cerca de R$ 1.200 por mês para manter um carro de R$ 25 mil (veja no quadro).

Não foi incluído o custo de compra do automóvel, mas apenas valores médios de despesas como impostos, seguro, manutenção e combustível, considerando uma rodagem anual de 12 mil quilômetros – média do brasileiro em 2011, segundo o Gipa (grupo de estudos automotivos).

Os valores podem variar de acordo com o Estado e o perfil do condutor. Há itens que podem sofrer reajustes, e o preço das revisões em concessionárias também mudam.

O custo de oportunidade usado pelos economistas representa um valor que a pessoa deixa de ganhar com uma escolha. O dinheiro empregado na compra do carro poderia ter sido usado em uma aplicação de baixo risco, por exemplo. É quanto você deixa de ganhar por comprar o carro.

No caso da simulação da figura, o dono de um veículo de R$ 25 mil perde cerca de R$ 2.000 ao ano. É o que ele ganharia se aplicasse o valor na poupança. Mesmo sem esse custo de oportunidade e rodando menos para reduzir despesas com combustível e manutenção, dificilmente se mantém um carro com uma quantia inferior a R$ 1.000 mensais. Não se gasta menos que isso.

Há pessoas que, entusiasmadas com o veículo, fazem a compra. Só depois percebem as consequências de sua decisão em sua economia doméstica. Quem calcula apenas se o valor da parcela do financiamento cabe no bolso, subestimando todo o resto, perde o controle das finanças.

Algumas pessoas acreditam que o carro é um bem de investimento, quando, na verdade, ele não passa de um bem de consumo, cuja aquisição mal planejada pode corroer o orçamento. Ao lado de impostos e seguro, a manutenção é um dos itens que mais podem exigir dinheiro do novo proprietário de um carro. Mais rodados e desgastados, veículos usados costumam frequentar mais as oficinas que os zero-quilômetro. Assim, é importante procurar um mecânico de confiança, fazer mais de um orçamento e pedir para ver as peças que foram trocadas.

Quando se deve trocar o carro? Alto custo de manutenção indica troca. O estado de conservação é o principal indicador para a troca do carro. Se o custo mensal com manutenção estiver corroendo a capacidade de poupar do proprietário, é preferível encarar um financiamento, transferindo o gasto com mecânica para o da prestação.

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