Debate sobre Modelo de Desenvolvimento

David Wessel (The Wall Street Journal apud Valor, 03/01/12) escreveu matéria curiosa: a mudança na arrogância dos economistas estrangeiros no tratamento com “ar professoral” de seus colegas de países emergentes. Aportavam por aqui ditando regras genéricas sobre especificidades que desconheciam!

Vamos comentar o debate entre economistas do mainstream a respeito a como essa crise de crescimento global vai alterar as estratégias econômicas na China, Índia, Brasil e outros países emergentes com forte crescimento. Será que esses países não se importarão? Ou será que a crise os levará a se afastar dos mercados dos países de capitalismo maduro em troca de controle governamental mais forte? Será que eles desenvolverão nova forma de capitalismo – o “Consenso de Pequim”, talvez, como irônica referência ao antes incensado “Consenso de Washington” – que se tornará modelo para os demais? Existe alguma alternativa bem definida?

Ele comenta que “há muito ceticismo nos mercados emergentes, além de um certo gostinho pela desgraça alheia”. Os economistas dos países emergentes formados em renomadas universidades estrangeiras podem retrucar. “O velho paradigma em que os caras inteligentes da Europa e Estados Unidos nos passavam sermão, apontavam o dedo para nós e diziam: ‘Isto é o que você fez de errado’ – isso acabou”. Agora, dizem para seus colegas estrangeiros: “Eu antigamente escutava você. Você era o meu professor. Talvez hoje o meu professor não pareça tão inteligente, depois dos erros que cometeu.”

A crise financeira global revelou os defeitos do capitalismo à moda norte-americana, a inadequação da regulamentação financeira “leve” e a tendência do sistema de cometer excessos periódicos. Mais recentemente, a crise da dívida europeia colocou em evidência a tensão em estado de bem-estar social de alto custo, na ausência de vigoroso crescimento econômico que o financie.

O modelo americano continua em “armadilha de liquidez”. Bilhões de dólares permanecem ociosos em reservas bancárias, enquanto milhões de trabalhadores permanecem desempregados. A paralisia geral enfraquece o principal argumento em favor do modelo econômico americano: o de que ele funciona.

O modelo europeu também não oferece alternativa. Há desdém de economistas da periferia com as falhas do modelo europeu. “A sociedade de bem-estar não deveria induzir as pessoas a não trabalhar”.

O modelo japonês voltado à exportação, antigamente tão invejado por quase todo o mundo, hoje em dia foi em grande parte descartado, consequência de duas décadas de estagnação sem sucesso em reavivar o crescimento. Juntando-se a isso o golpe do desastre nuclear, deflagrado por tsunami e terremoto, e o déficit no balanço comercial em 2011, a reputação dos japoneses competentes e eficientes ficou muito abalada.

Mas há alguma alternativa bem articulada para o capitalismo praticado nos países ricos? O dilema não é o de outrora entre capitalismo ou comunismo. Afinal, a maioria dos atuais mercados emergentes está adotando o capitalismo global e suas instituições. Aqueles que ponderam as rotas que os mercados emergentes podem tomar se dividem, basicamente, em três correntes.

Um grupo vê os mercados emergentes movendo-se em direção nova, inspirados talvez pelo notável surto de crescimento da China e pela sua mistura de controle governamental e forças de mercado. A China implantou, no final dos anos 70, reformas que protegiam grandes empresas estatais nos “setores de capital intensivo”, ao mesmo tempo em que criavam empreendimentos privados em “novos setores de mão-de-obra intensiva”. China, Índia e outros países com grande oferta de mão-de-obra devem adotar estratégias econômicas diferentes daquelas adotadas por outros, argumento que reforça a ênfase chinesa em promover investimento em vez de consumo e em exportar para criar empregos.

Uma segunda corrente sustenta que os mercados emergentes não vão prosperar rejeitando o capitalismo ocidental, mas sim executando-o melhor. Trata-se de encontrar maneira de frear a sua tendência a excessos financeiros, ao mesmo tempo preservando a eficiência dos mercados. Insistem, ideologicamente, que o modelo neoliberal – mercado livre, empreendimento privado, políticas ortodoxas – “ainda está funcionando para os países latino-americanos”.

Um terceiro grupo adota o “pragmatismo implacável“, ou seja, a busca por resultados quase desprovida de qualquer ideologia. Aconselham aos países emergentes a desenvolver lentamente sistemas financeiros modernos, adotando somente aquelas inovações que funcionaram em outros lugares. Derrubar as barreiras para investimentos estrangeiros apenas gradualmente. Desenvolver com cuidado regras para o mercado de trabalho, evitando a esclerose que infecta algumas economias ricas. As instituições têm vida própria em cada lugar.

Os líderes dos países emergentes estão buscando por aquilo que, de fato, funciona. É importante ter modelo que começou funcionando no Japão e depois se espalhou para outros países no sudeste asiático e para a China. Eles concluíram que os modelos americano e europeu não funcionam.

Entretanto, o modelo brasileiro não é a cópia acrítica do modelo asiático. O Brasil deve acentuar a sua condição já alcançada de potência agrícola, candidatar-se a posição de maior peso no conjunto de atividades industriais e de serviços com o nível de sofisticação tecnológica (e relacionamento com a indústria) que a própria agricultura vem sendo praticada no País. Explorar a potencialidade de sua diversidade industrial que só tem paralelo, entre as economias emergentes, na China e na Índia. Investir prioritariamente em infraestrutura: petróleo e gás, energia elétrica, transporte e logística, telecomunicações e saneamento, moradia popular e mobilidade urbana. Crescer com distribuição de renda. Inspirar-se no Manifesto da Tropicalização Antropofágica Miscigenada.

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