O Manifesto Latino-Americano e Outros Ensaios

O livro “O Manifesto Latino-Americano e Outros Ensaios” foi organizado por Adolfo Gurrieri, reunindo ensaios de  Raúl Prebisch. A Editora Contraponto o produziu com 648 páginas (R$ 80,00). O Centro Celso Furtado, que o patrocinou, cumpre assim sua missão de dar ao leitor brasileiro a possibilidade de consultar o pensamento do economista argentino parceiro do economista brasileiro Celso Furtado na Comissão Econômica para a América Latina. Publica seus textos essenciais, a principiar pelo célebre “Manifesto Latino-Americano“, conforme chamado por Albert Hirschman, redigido em 1949, que dá nome ao volume. Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda, o 5º sucessor de Raúl Prebisch como secretário-geral da Unctad, o resenhou para Valor (03/01/12).

 

“Vindo logo depois da magistral biografia de Prebisch por Edgar Dosman, a obra vai permitir o acesso no Brasil a amostragem representativa de pensamento que tanta influência exerceu sobre as teorias e práticas do desenvolvimento em nosso país ao longo do último meio século. O livro é precedido de prefácio no qual Ricardo Bielschowsky assinala as contribuições de Celso Furtado às teorias de seu chefe na Cepal. A edição se enriquece também pela introdução escrita por Adolfo Gurrieri. Ambos são ligados à Cepal e, portanto, próximos da instituição na qual por mais tempo se exerceram o magistério e o exemplo de Don Raúl.

 

A coletânea selecionou os dez trabalhos que, complementados pela autobiografia intelectual “Five Stages in my Thinking on Development“, publicada em Pioneers in Development, do Banco Mundial (1984), constituem o fundamental da obra daquele que o prefaciador chama com razão de “o maior economista latino-americano de todos os tempos”.

 

A escolha dos ensaios teve o cuidado de balizar o processo de “globalização” de Prebisch. Pode-se seguir passo a passo como um economista ortodoxo começa a questionar as teorias neoclássicas em que havia sido educado ao constatar que essas fórmulas não funcionavam na Argentina da Grande Depressão dos 1930. Dessa perspectiva, o ex-diretor do Banco Central em Buenos Aires passa a elaborar interpretação original, que brota da realidade de seu país.

 

Ela se expande primeiro ao âmbito mais amplo do continente, onde a Comissão Econômica da ONU para a América Latina (Cepal), da qual foi o virtual fundador, lhe forneceria o quadro ideal de análise. Em seguida, no estágio final, conclui que os problemas do subdesenvolvimento só poderiam ser atacados pela mudança da ordem econômico-comercial global, o que o conduziria a estabelecer a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), em 1964.

 

Prebisch sempre insistiu na premissa da “emancipação intelectual“, isto é, na necessidade de estudar com espírito crítico e não imitativo as teorias convencionais. Deve-se partir sempre da realidade de continente cuja economia apresenta traços estruturais diferentes dos países de economia avançada.

 

Durante as fases de prosperidade fugaz, lamentava que os latinos se deixassem deslumbrar pela ilusão de que uma transitória melhoria nos termos de intercâmbio tivesse resolvido os problemas de estrangulamento externo. Nessas ocasiões, abandonava-se a busca de caminhos próprios e a quimera do crescimento para fora substituía o esforço da mudança em profundidade das estruturas.

 

A atualidade de uma visão se mede pela relevância perene de seus temas e preocupações, de suas perguntas, talvez mais que das respostas. Impressiona reler o “Manifesto” 62 anos depois e ver como os temas do debate de hoje já estão presentes naquele texto. O dualismo centro-periferia, a importância da disseminação do progresso técnico que se propaga, acima de tudo, por meio da industrialização, a substituição de importações, o nexo entre comércio exterior e desenvolvimento, os preços das matérias-primas, a interdependência, nada envelheceu naquela distante análise.

 

Neste momento em que o declínio da indústria e a reprimarização das exportações reatualiza no Brasil e na América Latina o debate da questão nacional, a melhor prova do acerto de Prebisch está na experiência asiática. O fato incontestável é que os únicos países que foram capazes de estreitar a distância em relação aos desenvolvidos em renda per capita, produtividade total dos fatores e nível tecnológico foram os asiáticos que optaram pela industrialização. Somente eles vêm crescendo por mais de 30 anos sem interrupções, acrescentando valor agregado às exportações de forma contínua.

 

A diferença deles em relação à América Latina foi a manutenção de sólidos fundamentos macroeconômicos, com inflação e déficits baixos. Todos utilizaram políticas industriais ativas, mas tiveram o cuidado, como alertava o diretor da Cepal, de evitar a criação de rendas condicionando a duração da proteção e dos incentivos à conquista de competitividade exportadora. Prebisch teve, assim, o destino dos profetas e foi mais seguido na Ásia que em sua própria terra.

 

Rejeitava a via convencional, principalmente porque não permitia resolver “nossos problemas de exclusão social, isto é, o fato de que grandes massas da população permanecem estagnadas no fundo do sistema, com renda escassa, produtividade muito baixa e muitos de seus membros desocupados”. Decorridas décadas, será crível pretender que esse diagnóstico tenha sido superado pelo que propunha a Cepal, a “transformação produtiva com equidade?”

 

O problema do desenvolvimento, para ele, se traduzia numa exigência ética de justiça e equidade. Pessoalmente coerente com tal credo, encarnava em sua vida austeridade e rigor moral que constituíam elementos centrais de sua liderança. Ouvi de Celso Furtado, em Santiago, como, após deixar o Banco Central em 1943, sua esposa teve de vender o amado piano porque Don Raúl recusara as atrativas ofertas de emprego de bancos, para voltar ao modesto cargo de professor. É a esse exemplo de retidão moral e intelectual que este livro nos convida a retornar numa hora de renovada perplexidade sobre os dilemas do desenvolvimento na América Latina.”

 

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