Sobre a China (por Henry Kissinger)

Em “Sobre a China”, livro cujo lançamento ocorreu em 5 de novembro de 2011, Henry Kissinger escreve a respeito de um país cujas relações diplomáticas recentes com os Estados Unidos ajudou a moldar. Ao finalizar a leitura de suas 576 páginas, minha sensação maior foi que tinha lido um livro extraordinário e incomum, dada a propriedade do depoimento (e testemunho ocular da história) oferecido por seu autor, articulador e consultor da política externa norte-americana desde os anos 70. Em 1973, ele ganhou, com Le Duc Tho, o Prêmio Nobel da Paz, pelo seu papel na obtenção do acordo de cessar-fogo na Guerra do Vietnam. Le Duc Tho recusou o prêmio.

Lançando mão de relatos históricos e de suas conversas com os principais líderes chineses, durante os últimos quarenta anos, o autor examina como a China abordou a diplomacia, a estratégia e a negociação através de sua História milenar, e reflete sobre as consequências do seu crescimento acelerado para a balança do poder no século XXI. Passou a ser livro de leitura obrigatória, em qualquer curso de formação de diplomatas no mundo, e prazerosa, para todos aqueles que se interessam pela história mundial.

Henry Kissinger esteve na China por mais de 50 vezes, desde 1970, quando foi enviado pelo então presidente norte-americano Richard Nixon para restabelecer as ligações com o país após 20 anos sem nenhum contato. Kissinger examina episódios-chave na política externa chinesa, da era clássica aos dias atuais.

Destaca também os trabalhos da diplomacia do país durante acontecimentos cruciaisprimeiros encontros entre a China e as potências europeias modernas, a formação e o colapso da aliança sino-soviética, a Guerra da Coreia, a histórica viagem de Nixon a Pequim e as reformas implementadas por Deng Xiaoping que levaram ao surgimento da nova potência econômica. Baseando-se em sua extensa experiência pessoal com as quatro gerações de líderes chineses, após a implantação da República Popular da China, ele traz à vida figuras eminentes como Mao e Zhou Enlai, impressões sobre os novos líderes, e revela como suas visões diferentes moldaram o destino da China moderna.

Como seu foco diz respeito à política externa chinesa, senti a ausência de informações mais profundas sobre a economia. Talvez se ele estudasse mais o relacionamento econômico da China com os Estados Unidos chegasse à expectativa distinta a propósito do futuro. A “Chimérica” sugere maior complementariedade econômica do que disputas geopolíticas.

Interessou-me, particularmente, o fio condutor que ele segue, analiticamente, pela história milenar da China. Ele constrói uma dialética. Levanta uma hipótese, apresenta depois uma antítese e acaba fazendo uma brilhante síntese!

Qual é tese defendida por Henry Kissinger sobre a China?

“Como Mao havia temido, o DNA chinês se reafirmara. Confrontando os novos desafios do século XXI, e num mundo onde o leninismo entrara em colapso, [o presidente] Hu [Jintao] e [o premiê] Wen [Jiabao] voltaram-se à sabedoria tradicional. Eles descreviam suas aspirações de reforma não em termos da visão utópica da revolução contínua de Mao, mas por seu objetivo de construir uma sociedade ‘xiaokang’ (“moderadamente próspera”) – termo com conotações nitidamente confucionistas. Supervisionaram um renascimento do estudo de Confúcio nas escolas chinesas e uma celebração de seu legado na cultura popular. E requisitaram Confúcio como uma fonte de poder brando chinês no palco mundial […]. Em um dramático gesto simbólico, em janeiro de 2011, a China marcou a reabilitação do antigo filósofo moral inaugurando uma estátua de Confúcio no centro da capital chinesa, a praça Tiananmen, à vista do mausoléu de Mao – a única outra personalidade a receber tal honra” (p. 471).

Para registrar essa síntese da história milenar dessa potência econômica, que está a recuperar seu lugar no ranking mundial, iniciaremos com este uma série de cinco posts.

4 thoughts on “Sobre a China (por Henry Kissinger)

  1. “Construir uma sociedade moderadamente próspera” (xiaokang) me parece ser o que pretendem hoje alguns economistas brasileiros. Será o neo-desenvolvimentismo a versão tropical do que foi o neo-confucionismo?!

    • Prezado William,
      talvez, quem sabe? Talvez…
      Uma hipótese para a história futura testar (refutar ou demonstrar) é: “Lula está para Mao, assim como Dilma para Deng Xiaoping”.
      Será o modelo brasileiro mais uma vez uma “tropicalização antropofágica miscigenada”? Desta vez, entre o modelo de economia de mercado norte-americano e o modelo de socialismo de mercado chinês? Nesta terra, plantando, tudo se dá, até jabuticaba!
      abs

  2. Fernando, recentemente assisti a um documentário da BBC Inglesa acerca do crescimento astronômico da economia chinesa, que segundo Robert Peston, repórter, está sendo alimentada por um, também monstruoso, festival de empréstimo bancário. A China está caminhando para uma catástrofe econômica, semelhante a USA 2008?. Você acredita nessa possibilidade?

    • Prezado Eduardo,
      não creio, embora não tenha conhecimento profundo a respeito. Por que então? Porque a regulação do Capitalismo Liberal a la americana é totalmente distinto do intervencionismo do Capitalismo de Estado (ou Socialismo de Mercado) a la chinesa.

      O sistema bancário chinês moderno começou a tomar forma em 1979, com o fim do “monopólio” do Banco Popular da República da China (BPRC). Entre 1979 e 1983, o governo chinês redistribuiu as atividades comerciais do BPRC em quatro grandes novas instituições, que se tornaram conhecidas como os Big Four. A princípio, foram constituídos o Banco Agrícola da China (BAC), especializado em crédito agrícola, e o Banco da China (BC), focado na negociação com divisas estrangeiras e trade finance. Posteriormente, foram criados o Banco de Construção da China (BCC), dedicado ao crédito na área de construção e infra-estrutura, e o Banco Industrial e Comercial da China (BICC), voltado para o financiamento urbano. O conjunto desses bancos ainda concentra a maior parte das atividades bancárias: 60% dos ativos, 60% dos empréstimos e 65% dos depósitos.
      att.

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