Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista – Capítulo 4

CAPÍTULO 4

TAXA DE JUROS E PREFERÊNCIA PELA LIQUIDEZ

 

“Uma razão para estudar economia é que, quando você estiver desempregado, pelo menos saberá explicar por que”

 

Convencionalmente, a microeconomia é o ramo da ciência econômica que estuda as relações entre unidades específicas, priorizando a análise pormenorizada do comportamento dessas unidades. A macroeconomia é o ramo que estuda os aspectos globais da economia, especialmente seu nível geral de produção e renda, e as inter-relações entre seus diferentes setores. Os economistas costumam dizer que “a macroeconomia estuda a floresta, enquanto a microeconomia estuda as árvores”.

Os pós-keynesianos assumem a metodologia de que a microeconomia trata das decisões (ex-ante) dos agentes econômicos e a macroeconomia da resultante (ex-post) da pluralidade dessas decisões. A economia monetária da produção é apresentada como aquela em que a moeda não é neutra, afetando as motivações e decisões dos agentes econômicos. Os “fundamentalistas” (aqueles que abusam do “argumento da autoridade” e não têm o mesmo espírito crítico em relação a Keynes que têm em relação aos discordantes de Keynes) enfatizam o conceito microeconômico de preferência pela liquidez como decisivo na explicação da taxa de juros e do nível geral da atividade e do emprego.

Assim, parece que a microeconomia reina absoluta, sem contestação, tanto na corrente hegemônica (mainstream), quanto nessa corrente alternativa do pensamento econômico.

Para as teorias econômicas de equilíbrio geral, o individualismo metodológico é a referência. Ele representa a realidade social como o resultado das ações de atores individuais. Entretanto, todas as derivações neowalrasianas, com postulados de maximização (racionalidade) e market-clearing (flexibilidade de preços), para alcançar o equilíbrio, apenas aparentemente partem dos indivíduos como entes atomísticos dotados de fatores subjetivos para, subseqüentemente, deduzir a totalidade do sistema em equilíbrio. A auto regulação do mercado é produzida pelas ações desses indivíduos. Na verdade, os indivíduos em vez de serem vistos exercendo, de fato, a liberdade de escolher entre certa multiplicidade de cursos alternativos de ação, são mostrados apenas como agentes maximizadores, escolhendo uma única ação: a “melhor possível”, que leva ao equilíbrio “ótimo” do sistema.

Em modelo de equilíbrio geral, o mercado e a concorrência dispensam a intervenção reguladora de qualquer outra instituição. A compatibilização entre os planos dos agentes individuais se dá através do processo de troca. Através de escambo que se estabelecem os preços relativos. Eles não são afetados pela entrada da moeda em circulação, a qual apenas determina o nível geral de preços. Os agregados macroeconômicos – produção e emprego – são explicados por aplicação dessa Teoria de Preços Relativos.

No que se refere ao individualismo metodológico, Keynes, diferentemente de alguns seus intérpretes, admite tanto o princípio do atomismo, pois os agentes tomam algumas decisões independentemente da resultante agregada esperada, quanto o princípio da unidade orgânica. O organicismo da macroeconomia monetária representa melhor a interação entre os agentes. No entanto, para explicar contextos passíveis de análise por meio de processos indutivos, Keynes focaliza universo mais restrito como base para a inferência, ou seja, alguma hipótese atomista típica da microeconomia.

Mas Keynes não se propõe a fundamentar a ordem social exclusivamente nos comportamentos individuais, elaborando certa “macroeconomia dos comportamentos”. O comportamento coletivo convencional é a manifestação da ordem sob condições de incerteza. A convenção, entretanto, não é capaz de resolver o problema da coordenação, em situações de extrema incerteza, por exemplo, a de “armadilha da liquidez”. Nestes casos, resta ao governo intervir. Daí o surgimento de instâncias supra-individuais, como o Estado, o Banco Central e o sistema bancário, para regular, direta ou indiretamente, os comportamentos individuais. Pode-se exemplificar isso com a determinação exógena da taxa de juros.

O “absolutismo” da microeconomia está provocando focos de revolta. Há reação contra a insistente busca de “microfundamentos da macroeconomia”. O problema é que, se a microeconomia se matematizou, a macro virou micro… e a moeda virou fenômeno puramente real! Via “microfundamento pós-keynesiano”, ou seja, a preferência pela liquidez de cada agente, a moeda passou a ser vista como a causa do desemprego! A excessiva ênfase na teoria da preferência pela liquidez, colocando-a em plano de análise hierarquicamente superior, acabou por levar alguns pós-keynesianos “fundamentalistas” a jogar o princípio da demanda efetiva, isto é, a primazia das decisões de gastos, no limbo teórico.

O objetivo deste capítulo é analisar o dilema provocado pela dicotomia subjetivismo e objetivismo: ou parte-se dos indivíduos e de suas ações e termina-se recorrendo a alguma entidade supra-individual para dar cabo do sistema, ou parte-se do sistema como um todo sem considerar o indivíduo como sujeito de suas ações. Para ilustrar tal questão, vai ser analisado o uso (e abuso) do conceito microeconômico de preferência pela liquidez pelos pós-keynesianos “fundamentalistas”: tanto como explicação para o nível dos juros quanto para o nível do emprego.

Leia maisFernando Nogueira da Costa Economia Monetária e Financeira CAPÍTULO 4

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