Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista – Capítulo 11

PARTE VI

TEORIA FINANCEIRA

CAPÍTULO 11

INSTABILIDADE FINANCEIRA: CICLO DE CRÉDITO

“No primeiro dia, Deus criou o sol – então, o diabo contra-atacou e criou a queimadura de sol. No segundo dia, Deus criou o sexo. Em resposta, o diabo criou o casamento. No terceiro dia, Deus criou um economista. Este foi golpe duro para o diabo, mas, afinal, depois de muito pensar,
ele criou um segundo economista!”

            Minsky desenvolve teoria para explicar porque a economia flutua, mostrando que a instabilidade e  a incoerência exibidas periodicamente estão relacionadas com o desenvolvimento da fragilidade das estruturas financeiras. Ocorre normalmente, em economias capitalistas, no curso do financiamento da aquisição de ativos de capital, isto é, do investimento.

“A principal razão por que nossa economia comporta-se de diferentes maneiras, em diversos períodos, é que as práticas financeiras e a estrutura de compromissos financeiros variam. As práticas financeiras resultam em pagamento de obrigações incorporadas em contratos, que refletem as condições do mercado e as expectativas predominantes quando foram negociados e assinados. Os pagamentos das obrigações importam em dívida e são cumpridos à medida que a economia se move através do tempo. O comportamento e, particularmente, a estabilidade da economia mudam, assim como a relação do pagamento das obrigações com os fundos disponíveis para pagamentos varia, e a complexidade dos arranjos financeiros se desenvolve” [1].

            As fontes de mudança surgem de:

  • oportunidades lucrativas abertas às inovações financeiras, dado certo conjunto de instituições e regras;
  • impulso para inovar as práticas financeiras em busca de lucros por famílias, empresários e banqueiros;
  • intervenções legislativas e administrativas por governos e bancos centrais.

Se, com a passagem do tempo, o comportamento da economia muda, o fundamento intelectual de determinada legislação pode ser superado. Com o tempo, a legislação, e as instituições e costumes que ela criou, podem perder a legitimidade e advir alguma onda de desregulação. A modelagem do processo de fragilidade financeira, por Minsky, como se verá, enfatiza a base institucional [2], para exame das decisões de portfólio e restrições de crédito, que conformam algum ciclo monetário.

Para analisar como as obrigações financeiras afetam a economia é necessário observar as unidades econômicas em termos de seus fluxos de caixa. Uma defasagem da sincronização entre os pagamentos contratuais dos débitos e as receitas operacionais pode surgir, na relação bancos-empresas, quando posições em ativos de longo prazo são financiados por passivos de  curto prazo.

Nesta breve introdução às idéias de Minsky já se destacam alguns conceitos-chave para entender seu pensamento. A abordagem da decisão de investir como parte integrante da composição do portfólio, em estado de incerteza, é peça central da análise de Minsky. A fonte das flutuações cíclicas está na instabilidade do investimento. A origem desta está na incerteza que cerca as decisões dos indivíduos e das firmas, numa economia capitalista. A incerteza surge porque essas decisões são descentralizadas, não-coordenadas, e podem resultar em processos de geração de incoerências, através de confronto de planos incompatíveis.

Neste capítulo, apresentaremos, inicialmente, conceitos básicos, que são necessários para o entendimento do processo de fragilização financeira. Depois, caracterizaremos as posturas financeiras dos agentes econômicos. A partir do exame da decisão de empréstimo, veremos o processo de “instabilização da estabilidade”, inclusive discutindo a elevação do grau de fragilidade financeira. Finalmente, teremos a visão do Minsky sobre o papel do Big Bank (Banco Central) e do Big Government (governo federal), no ciclo de crédito. Concluiremos com questionamento da aplicação da hipótese da instabilidade financeira, elaborada por Minsky, à realidade contemporânea.

Leia maisFernando Nogueira da Costa Economia Monetária e Financeira CAPÍTULO 11


[1]          MINSKY, Hyman. Stabilizing an Unstable Economy. New Haven/London, Yale University Press, 1986. p. 197.

[2]          Em artigo autobiográfico, Minsky revela o início da influência institucionalista em sua obra. “A experiência na Alemanha [onde serviu, no primeiro semestre de 1946, na Divisão de Estatística do Governo Militar americano] – e as interações com Saposs [David Saposs, chefe dessa Divisão, conhecido economista trabalhista, discípulo de John R. Commons, um grande economista institucionalista norte-americano] – imprimiu em mim a importância das instituições específicas e circunstâncias históricas sobre o que acontece no mundo. Desde esse tempo, penso eu ter entendido que abstrações teóricas são necessárias para ajustar o raciocínio – mas teoria abstrata é o início da análise econômica séria, não o produto final” . Em sua opinião, “se eu decidisse, o curso padrão americano em economia seria eliminado e economia seria introduzida no contexto de ciências sociais e história. A maneira americana usual de ensinar economia molda economistas americanos que são bem treinados mas pobremente educados”. MINSKY, Hyman. Beginnings. in KREGEL, J. A. (ed.). Recollections of Eminent Economists. London, Macmillan Press, 1988. p. 170/172.

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