Os Descendentes, ou melhor, Os Herdeiros

À primeira vista, não se assiste de maneira confortável o filme “Os Descendentes”, dirigido por Alexander Payne, o mesmo diretor de “SideWays: Guia do Vinho e da Vida” sobre despedida de solteiro em vinícolas californianas. Mistura de gêneros cinematográficos – “comédia dramática” – se arrisca a ser tão inconveniente quando jovem rindo de confusão mental de velho. Cinema cuja estória é narrada pelo protagonista se afasta da criatividade original de “O Artista”, digno de maiúscula, que possui a arte de contar estória só com imagens. O american way of life causa também desconforto à classe média brasileira que se enxerga como a caricatura da matriz: com os defeitos pronunciados, mas sem as virtudes salientadas.

“Outro dia me alertaram para meus últimos quatro filmes. Todos são sobre homens de meia-idade que, após terem o tapete puxado e a realidade sacudida, precisam entender onde estão e o que fazer daquele ponto em diante“, diz Alexander Payne. “Os personagens, Jim McAllister de “Eleição”, Warren Schmidt, de “As confissões de Schmidt” e Miles de “Sideways”, e agora este de “Os Descendentes“, todos têm algo em comum. Matt King (que rendeu a indicação ao Oscar de melhor ator para George Clooney), pensava estar no caminho certo, quando teve o tapete puxado, lhe restando crescer ou morrer”, diz o diretor. “Acho que este é o meu estereótipo cômico preferido. Como Chaplin, que interpretou o Vagabundo filme após filme”.

A “crise do desenvolvimento“, na meia-idade, isto é, após o homem fazer 40 anos, provoca inquietação similar à que ocorre quando ele tem de passar da adolescência para assumir as responsabilidades de jovem adulto. Depois, o homem ainda sofrerá outra “crise do desenvolvimento” após completar os 60 anos, quando terá de tomar a decisão de aposentar-se e entrar na “terceira-idade“.

A sinopse de “Os Descendentes” é estória pesada: a eutanásia da esposa/mãe de família desestruturada pela ausência do pai, obcecado apenas com seu provimento. Abandona ao silêncio tanto o casamento quanto a relação com as filhas. Evidentemente, esta temática de “mulher em coma” não é tratada com a sensibilidade latina de Pedro Almodóvar em “Fale com Ela”. E nem o tema da “família desestruturada” é tratado com o mesmo humor crítico de “Pequena Miss Sunshine”.

As relações pessoais, como quase tudo no american way of life, são precificadas ou materializadas em dinheiro. Talvez por isso o olhar de economista não seja tão inapropriado para análise deste filme.

Para ser revisto, a questão-chave é a herança. Qual é o maior valor que se herda: o patrimônio ou a educação? O “direito-natural” dos descendentes de casamento pioneiro de colonizador branco com nativa havaiana possibilita o enriquecimento de gerações sucessivas até a dilapidação final do patrimônio natural. A venda de terras paradisíacas à beira-mar para empreendimento imobiliário assalta a má consciência: qual é o direito de transferência da propriedade para estrangeiros? A perda de soberania sobre sua preservação ascende a consciência ecológica: que herança deixaremos para as próximas gerações? É palatável não se permitir a desnacionalização do território, até por valor maior, mas permitir o mesmo tipo de empreendimento à gente local?

O curioso da estória é que o instinto de sobrevivência humana, no caso, familiar, se desdobra nos outros instintos primitivos: reprodução-competição-proteção. Até na hora da morte o tema da infidelidade ganha atenção maior por parte de gente aparentemente civilizada. De maneira biológica, a rivalidade entre machos ocorria para a não dispersão genética. O chefe-da-família, desde o chimpanzé até o homo sapiens, não desejava criar filho que não fosse fruto de seu sêmen. Com a propriedade privada, o pavor que assusta famílias de posses é sua dispersão para “outros intrusos”: genros, cunhados, filhos naturais de relação extramatrimonial, amantes, etc.

Assim, a infidelidade da esposa ao pacto nupcial com o marido, que já não conversava com ela meses antes de seu acidente, ganha proporção tal que passa a justificar até a desestruturação familiar. As filhas malcriadas vão pessimamente na Escola, desrespeitando qualquer autoridade e desafiando inclusive o pai. Este reclama, transferindo responsabilidade, que “pagava uma fortuna para a Escola as educar”. Até que é exigido do pai o pedido de desculpa de sua filha por mãe de colega destratada. Ela diz que “seu dinheiro não compra tudo”. Descendente de nativos havaianos, ela questiona, igualmente, a venda de sua terra natal.

Propositalmente ou não, o filme lembra a história de um dos autores do livro “Pai Rico, Pai Pobre – o que os ricos ensinam seus filhos sobre dinheiro”, que está na lista de best-sellers mundiais, Robert T. Kiyosaki. A história de sua “acumulação prévia” de capital, que lhe permitiu a fuga do mundo do trabalho, ocorreu, como a estória do filme, em empreendimentos imobiliários no Havaí. Ele trabalhava, diligentemente, juntando todo o dinheiro possível com comissões de vendas de máquinas Xerox para adquirir imóveis no Havaí, que “estava começando a crescer, e havia fortunas a serem feitas”. Em menos de três anos, ele já estava faturando mais em sua pequena empresa imobiliária havaiana do que como vendedor na Xerox. No filme, o amante da esposa era corretor imobiliário, no Havaí, e iria se enriquecer com o empreendimento planejado pelo marido traído.

Está no filme também a Silver Spoon, a chamada “síndrome de colher de prata” de pessoas ricas: a ligação patológica entre riqueza e narcisismo nos sistemas familiares. O narcisismo se alinha com um estilo de vida afluente, tipo americam way of life, para se tornar doença por várias gerações. Os sintomas habituais que se apresentam para serem tratados, em contraste com a terapia individual, exige terapia familiar. Esta oferece a oportunidade para compartilhar com todos os membros da família a consciência do estado do ego de cada um deles.

Todas as pessoas de sua família, inclusive os primos herdeiros, tinham duas coisas em comum. Uma, eles nunca tiveram de lutar por qualquer coisa em suas vidas. Tudo tinha sido dado a eles.

Segunda, eles não tinham desejo de trabalhar em qualquer coisa. Eles nunca tinham trabalhado antes, eles não estavam familiarizados com o trabalho. Quando o pai advogado se empenha com dedicação exclusiva à liquidação, ou melhor, dar liquidez à herança patrimonial, suas filhas não necessitavam de qualquer parte dela, mas sim de carinho afetivo, da presença contínua do pai.

A única maneira em que você vai crescer é quando aprende a enfrentar situações difíceis.” Os herdeiros de riqueza que nunca passaram por dificuldade, crescem e se tornam adultos sem ter a menor ideia de como lidar com ela, por exemplo, quando se apresenta sob a forma de infidelidade, separação conjugal, acidente, eutanásia, etc. Coisas que o dinheiro não evita, ao contrário do que lhe cobra o sogro à beira do leito da morte da filha. “Se você tivesse lhe comprado um barco… Se você tivesse lhe dado cartão de crédito sem limite para gastar em shoppings…

Evidentemente, nem todas as crianças de famílias abastadas acabam desta forma. Se são criadas para trabalhar e seguir seu próprio caminho, enquanto crescem, elas podem aprender a ser empreendedores. O problema surge quando os pais sentem que, por causa de suas vantagens financeiras, é o seu papel proteger seus filhos de desafios e providenciar o que eles quiserem.

Os pais não têm que ser ricos para cometer este erro. Justificam-se pela má criação da seguinte forma. “Eu não quero que meus filhos tenham que lutar do jeito que eu fiz quando eu era jovem.” Eles acham que ser um bom pai significa dar seu filhos tudo o que eles não tiveram. Eles não apreciam a conexão de causa e efeito entre suas primeiras lutas e seus sucessos posteriores na vida. Proteger as crianças dos desafios da vida é o segundo maior erro que qualquer pai pode fazer. O maior erro, é claro, é a incapacidade de expressar o amor incondicional.

Também nem todas as crianças desfavorecidas possuem capacidade de usar suas adversidades para se tornarem fortes para a vida. Há muitas histórias de sucesso, mas há provavelmente muitas mais histórias sobre pessoas que culpam os outros, aceitam sua condição – e são derrotadas por ela. A adversidade pode ser enfrentada como oportunidade para o amadurecimento psicológico, mas é preciso ter educação e/ou força pessoal para alcançá-lo.

Se os pais possuem uma vida confortável de classe média, ou mesmo se nascem já com “a vida ganha”, financeiramente, sempre é importante dar aos filhos a chance de lutar e ganhar o que eles querem. Juventude passa rapidamente. É quando se prepara para a vida adulta. Os pais que, conscientemente, arranjam oportunidades para seus filhos se esforçarem e aprenderem os padrões de comportamento baseados em esforço pessoal, apoiando-os com orientação e encorajamento, está lhes dando a melhor herança possível.

Entretanto, o filme termina com cena familiar simbólica do american way of life. O pai e as duas filhas se reúnem sob o mesmo cobertor para ver tevê – e engordar…

Lembrou-me da seguinte letra de música:

Tevê

Zeca Baleiro

Um filme na tevê

Um corpo no sofá

Um tempo pra moer

o vidro do olhar

E a vida a passar

A vida sempre a passar

Passar

Olhando a estrela azul

azul da cor do mar

Comédia comum

ou um drama vulgar

E a vida a passar

A vida sempre a passar

Passar

Comercial de xampu

Cerveja e celular

Modelos para crer (Mentiras para crer)

e credicard

A consumir a consumir

A consumir o olhar

O olhar

Olhando a estrela azul

Um quadro a cintilar

Vendendo ilusões

a quem não pode pagar

E a vida a passar

A vida sempre a passar

Passar

Veja video-clip em: http://www.youtube.com/watch?v=pz1ryyDm_sE

Leia maisStory: Substância, Estrutura, Estilo e os Princípios da Escrita de Roteiro

2 thoughts on “Os Descendentes, ou melhor, Os Herdeiros

  1. Meu caro Fernando

    Não tenho condições (capacidade, qualificação, competência etc) para comentar tua resenha. Quando terminei de ver o filme, alguns dias antes de vc, enviei para o Pedro Ivo e para a Valentina, a seguinte mensagem:

    “Os Descendentes. Se eu tivesse blog, postaria a seguinte mensagem. Vim ver Os Descendentes. Cheio de expectativa, movido pela mídia, indicações para o Oscar de melhor filme e melhor ator e pela curiosidade despertada pelas sinopses. A atuação do Clooney corresponde ao que se espera de um ator profissional mediano e muito bem pago. É o que ele é e é o que entregou. Nem umpouco a mais. Na verdade, acho- o mais convincente na propaganda do Nesspresso que no papel do Nat King, pai desorientado, marido negligente e competentemente corneado e havaiano advogado bonzinho. Como garoto propaganda quase me convenceu a comprar as xícaras, o que até hoje não fiz mas sei que acabarei fazendo. O roteiro é bem medíocre e não consegue explorar com competência nenhum dos temas abordados no filme. Nenhuma cena me convenceu nem mesmo com a abuso das palavras. A despedida da esposa morta há dias enquanto a trupe paseava pelas ilhas foi bem… fraquinha, para ser respeitoso. Não sou membro da Academia, mas no ano passadovi muitos filmes melhores do que este e me emocionei com várias performances mais competentes do que a do Clooney. Vai saber que critérios os acadêmicos usam para eleger os participantes do concurso. Certamente não são os da arte nem as de um leigo como eu. Se me perguntarem, é o que diria. Tenho dito. Direto do meu blog inexistente” AMB

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